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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Ma vie, en trois parties.

Foto por Bruna Pimenta.



por Stefano Manzolli.

La première partie:

Quando nasci, não veio um anjo torto decretar que eu estava predestinado a ser gauche na vida. Veio, no entanto, uma enfermeira graciosa dizer a minha mãe que nascera um menino. "Dá-me cá! Quero vê-lo!", exausta e molhada de suor, a doce mulher queria, apenas, sentir o calor vivo de seu filho.

Olhos um pouco juntos, cabelos ralos, pele coberta por um resto de líquido amniótico: assim era eu, após ser expelido da não-casa orgânica, na qual fui gerado. Claro, mamãe achou-me lindo, beijou minha testa melada e amou-me. Eu, apenas pérolas negras em olhos grandes, observava-a e adormeci no calor confortante de seus braços.

Meu pai, meu irmão, uma porção de roupas, um tanto de amigos, dois anos mamando - assim vivi o primeiro ato desse meu teatro-vida. Depois, quatro anos depois, resolveram lustrar meu cérebro com as lições e aulas: a escola acolheu minha criatividade, fez germinar outras curiosidades minhas, construiu um cidadão, um herói, um homem, um qualquer, um supremo, um escritor, um sonhador, um risonho, diversas porções minhas inacabadas.

Há pouco tempo, cinema, shopping e essa vontade imensa que o futuro chegue logo - mas que o passado não parta jamais. Faço, então, do presente a mistura perfeita entre os espelhos do ontem e os pergaminhos em branco do amanhã.

Os outros, quando querem, me chamam pelo nome e suas desinências.

La deuxième partie:

Debaixo do chuveiro, um garoto inventa discursos, lembra poemas, tem idéias, chora os lamentos passados, escreve nos cantos embaçados tais-e-quais palavras, cria perfeições. O menino, divertindo-se com seus heterônimos esquizofrênicos, ao olhar fixamente para a lâmpada acesa, revela sua verdadeira identidade: sou eu.

Não há estrelas no céu, um manto cor-de-veludo-escuro encobre toda a luminosidade emanada dos corpos luminosos. A lua, nova, coitada, nua, fria e solitária, até canta... sua voz é pouca e nem chega aos ouvidos humanos.

Eu, porém, repartido e ímpar na carapaça de gente, tento encontrá-la. Quero (e muito!) pô-la dentro do bolso, a fim de presentear a garota amada... não tenho bolsos... não tenho garota amada... estou sozinho e nu. A água ainda cai e sinto uma vontade estranha de falar um palavrão (em outra língua). Como não sei outros idiomas, basto-me com o meu antigo conhecido Português.

Dentro do banheiro, com a porta fechada e a mente aberta, não tenho nome... ninguém me conhece: nem eu, nem todos os outros inventados.

La troisième partie:

Calor. Janela aberta. Corpo semi-nu estirado na cama. Livros guardados cuidadosamente nas estantes. Poesia completa de Alberto Caeiro aberto sobre o colo. Mãos fugazes viram as páginas. Xiiiu... venha ver essa cena, mas entre sem fazer barulho. Vamos, se aproxime! Não mandei tirar os sapatos? Por favor, faça silêncio, escute o poema.

As estrofes saem sussurradas dos lábios trêmulos do garoto. Um pernilongo pousa sobre a perna desnuda e faz sua última refeição antes de colidir solenemente com a palma de alguma mão. Está esperando o que para ir lá matá-lo? Sem fazer barulho! Não, não encosta nele, deixe-o ler! Saia daqui, basta de intruso. Como assim? Você quer escutar mais uma poesia? Fique calado, então. Só mais uma e você vai embora, combinado?

Cada palavra inundam o quarto, os ouvidos, os corações; depois, cansadas, fogem rapidinho pela janela aberta. Vez ou outra encontram-se com vaga-lumes, levam um baita susto e voltam correndo para o cômodo iluminado artificialmente. Essas que voltam, transformam-se em ecos... machucam os ouvidos cheios de sofrimento.

O poema acaba. O menino fecha o livro. Coloca a coberta sobre o corpo. Ajeita os travesseiros. Recosta a cabeça neles. Dois receosos dedos apagam a luz. Xiiiu... está na hora de ir embora. Você quer fazer uma pergunta? Faça-a, talvez não tenha a resposta. Quem é o garoto? Hum... hã... hen... sou eu.

Cara-de-mil-vergonhas.

Meu nome? Não, isso não é importante. Vá embora, agora! Deu sua hora, o show acabou.

Passos vagos na escuridão.

Ei! Psiiiu... quer escutar um segredo? Pois bem, por essas bandas do Sudoeste, eu não tenho nome. Me chamam, apenas, de guardador de sentimentos. Gostei de você, me espere, estou indo embora também.

Boa noite, digo... durma bem, guardador de sentimentos, respondo.

Dois corpos viram sombras, depois desaparecem na eternidade.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Retrospectiva

por Marcela Evangelista

Um dia de pequenas palavras,sensações doces e antigos pensamentos. Uma viagem no tempo torna possível um reecontro a qualquer hora. Cada momento torna real o que os amadores querem acreditar. É um beijo no canto dos olhos, dedos entrelaçados, corpo e corpo. Pensamentos que beiram o fogo fazem parte de um dia. Apenas uma filosofia tola enquanto se anda sozinho.

foto por Bruna Pimenta

Utopia, o lugar de todos

por Thaissa Feitoza

E eu digo, e daí? E daí que o dólar sobe a cada dia, proporcionalmente à miséria que vejo nas ruas? E daí, que enquanto esses miseráveis que agonizam pela fome e pela esperança, outros - ou melhor, nós mesmos - seguem despreocupados e ingenuamente felizes? Pois sejamos felizes. Vivamos, sabendo que outros tantos matariam para viver como nós, e levar nossa vida estressante do cotidiano "escola, trabalho, refeições e diversão".

Pessimista? Acusa-me de ser algo que abomino. E quem sou? Não me pergunte, não sei quem sou - sei o que sou: entre tantos, utópica. Vá, ria! Formule seus preconceitos - e daí? Ris de mim por idealizar o nirvana social; nada faço de mal. O homem é animal sonhador, mas acima de tudo, de grande potencial. A utopia de hoje pode ser a realidade de amanhã, se somadas as potencialidades e a boa índole dos cidadãos.

Então deixe-me navegando em meus "devaneios humanistas". Deixe-me acreditar que nós jovens um dia consertaremos esse estrago absurdo e fatal que vocês causaram neste mundo, onde o homem é homem pelo que possui e não pelo que deveras é. E não se atrevam a dizer, quando nossa utopia for completa, que foram vocês que a inocularam em nós. Mentira.

Se o que procura é reconhecimento, ou talvez um último alívio a essa alma capitalista, não se engane: junte-se a nós. Não basta gritar palavras bonitas - são só palavras. Reflita, racionalize, sinta, e então diga sem medo: "Quero a utopia". E que se faça a luz.

A minha utopia? Era justamente essa: convencê-lo. Convencê-lo de que utopia não é ruim, muito menos fantasiosa. Convencê-lo de que nós - eu, você e eles - a faremos do "lugar nenhum" um espaço real.



Foto: Bruna Pimenta

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Reflexões de um Vestibulando.

Foto por Bruna Pimenta


por João Pedro Paro

“Vestibular”, “Faculdade”, por que duas palavras tão simples andam me assustando tanto? Ouço pessoas falando-as todos os dias na semana, e creio que esse é um dos motivos de eu andar tão surtado. EU SEI que estou em ano de vestibular; EU SEI que a escolha da faculdade é muito importante, não precisam ficar me lembrando disso o tempo todo.

Talvez o que mais me assuste é a incerteza do futuro, onde vou morar ano que vem? Onde vou estudar? O que vou estudar? O futuro sempre assustou a humanidade, mas posso dizer, ele assusta muito mais em ano de vestibular.

Às vezes a vontade de gritar é imensa, ainda mais quando ouço o professor falando: “Isso é tudo que vocês precisam saber para o vestibular”. NÃO! Isso não é tudo que eu preciso saber! Preciso saber tudo se realmente quiser passar no desgraçado do vestibular! Estudar, estudar, estudar; é só isso que eu faço atualmente, não tenho mais vida, minha vida são os livros!

O que mais me irrita nessa idéia de estudar para o vestibular é o fato de ter que esquecer tudo depois, pois todo seu conhecimento de Ensino Médio é praticamente inútil, se ao menos essa maldita prova adicionasse algo para minha vida!

O sinal toca e o fiscal diz:

“Virem as provas e boa sorte...”

sábado, 25 de outubro de 2008

Princesa, minha gatinha.

Foto: Bruna Pimenta

por Natália Zamagna Urdangarin

Era uma sexta feira à noite e, como de costume, estava no meu quarto assistindo desenhos no canal Nickelodeon. Ouvi um som diferente, coloquei a televisão no mudo para escutar melhor. Eram gemidos. Abri a porta do quarto e vi que finalmente a hora tinha chegado. A gatinha, que eu adotei há uns dois anos, iria dar a luz. Ela estava com medo, eu podia sentir isso. Minha mãe, que também ouvira os miados, apareceu no corredor. Na minha casa, sempre nos importamos muitos com os animais, é claro que já havíamos deixado um cantinho seguro e aconchegante preparado - para quando esse momento chegasse. Eu coloquei a Princesa na caminha enquanto minha mãe ligava para o veterinário.

-Dr. Eduardo, aqui é a Josy, mãe do Luky. Os filhotes da Princesa vão nascer agora. O que a gente faz?

-Não precisa fazer nada, Dona Josy, ela sabe como fazer tudo sozinha. Está no instinto dela.

- Mas quanto tempo isso vai durar? E se acontecer alguma coisa errada? Não seria melhor eu dar um remédio para ela sentir menos dor?

- Não! Gatos morrem se tomarem remédio para dor, não dê nada a ela. Provavelmente pela manhã todos os filhotes já terão nascido.

-Mas só amanhã?! Pelo amor de Deus, Eduardo! Isso é muito tempo, a coitadinha sofrerá de mais.

- Então traga ela aqui para fazermos uma cesariana.

Com cuidado tirei a Princesa da caminha e coloquei-a virada de barriga pra cima na poltrona da sala. Comecei a massageá-la segundo a mamãe instruiu. Ah, ela estava com uma barrigona! Quantos gatinhos seriam? Talvez três. Quem sabe mais.

Opa já tinha aparecido alguma coisa ali! Seria um rabinho? Teoricamente não era para a cabeça sair primeiro? Minhas recordações das aulas de ciências estavam embaralhadas.

-Pituca, pegue a caminha, coloque a Princesa dentro e entre no carro. Vamos para o veterinário.

Eu obedeci imediatamente carregando minha gata até o carro. Demoramos cerca de quinze minutos para chegar a clínica, mas a essa altura o gatinho já tinha nascido. Lembro-me com detalhes, pois foi ali, em meus braços que o Félix chegou ao mundo. (ou seria o Carvão? Recém- nascidos eles eram quase idênticos.)

Foi um pouco contra minha vontade que deixei a Princesa e o novo gatinho ali. Eles teriam que passar a noite. Agora quem estava com medo era eu. Estava receosa a respeito da operação. Para complicar ainda mais, meus pais decidiram aproveitar a ocasião para castrar a coitadinha. Tive que voltar para casa e confesso que só dormi aquela noite devido ao cansaço da rotina - pesada para uma menina de dez anos.

Na manhã seguinte eu, acompanhada pela minha irmã e minha melhor amiga, voltei à clínica veterinária para trazer para casa os novos membros da família. Estava muito ansiosa. Quando chegamos lá, vimos que tudo ocorrera perfeitamente bem e que agora eu tinha cinco gatinhos novos, sendo apenas um o herdeiro das listras da mãe. Todos tão pequenos e delicados. Que alegria! Com toda certeza foi uma experiência incrível que me fez apreciar ainda mais esses felinos fantásticos.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

No ontem, a base do hoje que tornar-se-á amanhã

por Rodrigo Frizzi


Ainda ontem, nós todos, éramos crianças. Já amanhã, nós todos, seremos adultos. E o que somos nós, no hoje? O alvo de uma economia emergente, carente e decadente. O alvo de pais nostálgicos, com olhos mareados pelos dias que já vivemos, e com os mesmos olhos mareados pela preocupação do amanhã, pelos dias que hão de vir. Mas e nós, os adolescentes, o que somos para nós mesmos? Como é a existência de seres tão importantes para os outros, mas tão sem sentido em nosso âmago?

“Compre, beba, use, veja, leia, vote, não se esqueça”. Gritos, hinos, pedidos, promessas. A faculdade, a profissão, a família, os amigos, a viagem, as férias, a festa, o peso da responsabilidade. Não nos vêem como crianças, nos cobram como adultos, mas, e nós, o que somos realmente?

Uma massa movida por desejos amargurados, muitas vezes libertos, mas que são constantemente julgados. Uma massa que se move como o faz um enxame: em volume. Várias tribos, várias crenças, mas na mente, a única certeza: há de se viver o hoje.

Quantas vezes lemos em camisetas os célebres dizeres de “carpe diem”, e quantos jovens vemos realmente o fazendo. Desmedidos, sem arrependimento, matam-se aos muitos por viverem os desejos mais primatas.

Em todas as classes, em todas as cidades, em todos os países, as notícias não param. Jovens assassinados à troco de dívidas irrisórias, que deveriam ser pagas com um aperto de mãos. Meninas que se vendem pelo consumo. Universitárias que se deixam explorar em troca de dinheiro abundante.

Em contrapartida, quantas histórias de sucesso. De jovens também carentes, de meninas também universitárias, que apostaram suas fichas num sonho, e o fizeram real. Acreditaram em si, quando a sociedade os taxava apenas de adolescentes. Começaram cedo, acordavam cedo, trabalhavam muito, estudavam mais. Centenas de jovens calados pelas mesmas notícias ruins dos noticiários.

A hora é agora! O amanhã... já chegou! O ontem? Já foi. O hoje: foi ontem e já é amanhã.

Dentro de cada adolescente moram os sonhos dos louros de uma vida tranqüila. Dentro de cada adolescente, indiferente seja sua condição, habita desejos nunca antes revelados por jornal, revista, propaganda, produto ou comercial: o desejo de ser ele mesmo, livre, sem amarras, sem censura. O desejo de ser apenas adolescente. E esses desejo jamais será expresso porque quem o desenha hoje já é adulto, e quem o sonha, ainda é adolescente, e o adolescente ainda não consegue expressar que no final de tudo, o que ele quer, é permanecer assim, parado no tempo, e curtir sua adolescência... até o amanhã, quando ele já será adulto. E o pensamento retoma ao princípio.


Foto por Bruna Pimenta

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Tenta

por Marcela Evangelista (texto e foto)

É quando sentimos um batuque dentro de nós que procuramos refúgio. Ou na verdade procuramos o som. Queremos mesmo saber? Nesse lugar o que vale é sentir você. Estou sentindo.
O "ser" é o que eu amo. É ele que expande, extingue; são segredos interiores, ensaiados. Deixe o batuque dizer o que você deve fazer, faça ele te pausar, pensar, explodir. Fala sério, mas disfarça! Sem fim.



sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Semana do: Saco Cheio

por Marcela Evangelista

Decidi que ia passar o feriado na praia. (Praia -definição: uma porção de lulas e camarões fritos e uma caipirinha de lima da pérsia com pimenta malagueta). Era semana do saco cheio mas minha mãe ia trabalhar, então ela me pôs num ônibus. Partindo de Campinas é obrigatório pegar o trecho que envolve a marginal paulista. Esse trecho me fez chegar a muitas conclusões. A primeira delas é de que você sempre chega numa conclusão quando já cansou de pensar nas hipóteses futuras. A segunda é que por mais que você vá todos os dias para São Paulo, a maldita lei de Murphy te persegue. Veja bem: você está no ônibus, ouvindo tranquilamente The Who, com as pálpebras pedindo descanso, e a letra perambulando seu cortéx, até que de repente, o ônibus freia. Você olha pra frente e percebe que há um rio negro, borbulhando a poucos metros de seu assento, é o Tietê.Os passageiros ao lado já sabem..Essa história vai longe. Por volta das seis e meia da tarde, numa sexta-feira, o trânsito só não ocorre se você estiver no meio de "Guerra dos Mundos" e todos estão fugindo adoidados dos Tripods. Não sei por que, mas sempre que estou num ônibus parece que o motorista complica mais ainda o trânsito. Olhando pela janela observo as entradas bruscas que quase matam um motoqueiro, e a mudança de faixa sem dar seta; implicando um caminhoneiro a usar seus novos freios Varga, recém-trocados. Recuperando -me dos momentos tensos percebo que o ônibus estava estático na rua e lembro-me sobre ter pensado se o pneu havia furado ou coisa do tipo. Pela janela a minha direita vejo que estou na faixa 2 e não no acostamento. Ainda neste momento percebo que a faixa 1 e a faixa 3 se movimentam, como de costume, lentamente e vejo muitos carros de cor prata e insulfilme com pessoas (uau!) dentro observando o grande cometa, estático, ao seu lado. O motorista muda para a faixa 3. Andamos não mais que 6 metros e mais uma freada. 37 carros passam ao meu lado na faixa 2. O carioca ao meu lado diz: " a fila do lado sempre anda mais rápido, pÔ. Esse motorista tÁ de brincadeira nÉ?" Meus ouvidos deram ênfase às oxítonas, acho que foi por isso que prestei atenção no comentário do indivíduo e percebi que ele não estava enganado. O motorista havia voltado para a faixa 2 e ela estava parada. Um reboliço se formou e uma mistura de freadas, buzinas, escapamentos liberando gás carbônico e "who are you? who? who?who? who?.." ocorreu. Foi aí que a maior das conclusões (já ouvida por mim antes) veio à mente: Voltar à fila antiga desorganiza o trânsito e faz com que muitas bocas repitam palavras como: Filho da... Olhei o relógio: sete e cinquenta sete. Decidi que no próximo feriado fico com meu miojo com salsicha.
Espero que nessa semana de folga ninguém passe por isso! Bom descanso.

(foto retirada do Google)

SOS Pedaços de infância e natureza


Foto por: Bruna Pimenta
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por Adriana Yamamoto.
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Tem um lugar no fundo da minha casa que foi cenário de muita brincadeira. Dias em que os primos vinham pra cá e as tardes eram fazer casinha na árvore, fogueira, chá de maçã com frutas embaixo da goiabeira. Uma árvore em especial tinha um grande galho aberto, que parecia um braço esticado, eu a chamava de parque de diversões: dava pra pular naquele galho e se pendurar de cabeça para baixo.
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Na horta, havia um conjunto de bananeiras, as quais eu chamava de palácio. Eu pegava folhas caídas da própria bananeira, forrava o mato e deitava. Esse era o meu palácio! Estirada naquelas grandes folhas (pra mim aquilo tudo era enorme), sentia o frescor do chão e, de vez em quando, pisava na casa de formiga e saía correndo pra mergulhar o pé na piscina.
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Meus primos faziam minha alegria. Eu, como filha única, vivia nessa casa de dois andares e corredor com quartos no fundo, com um quarto pra mim e meus ursinhos, roupas que eu escolho desde que aprendi as cores, eu que brincava de Barbie sozinha. Secretamente invejava minha prima que morava em São Paulo num apartamento pequeno, mas tinha dois irmãos e amigos no prédio pra brincar e ainda a invejo pelo fato dela morar em SP, com o mundo embaixo de seu nariz. Eu, todavia, fui criada em casa cheia de árvore, são dois modos diferentes de viver e amo isso aqui!
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Ao lado do palácio das bananeiras, um abacateiro me dava frutos pra fazer vitamina ou comer com mel, limão e açúcar; adorava lamber o prato depois. Lembro-me, também, de quando comia cana, porque a dona Teresa descava pra mim. E também tinha uma goiabeira que era a casa principal, o cajueiro em que eu, P. , A. e M. escrevemos nossos nomes. O cajueiro nunca deu frutos, mas eu não deixava meu pai mandar cortar (eles pensavam em plantar outra árvore), porque aquele tinha valor sentimental. Anos atrás, pendurara lá uma corda e balançava a tarde, no cajueiro me exibia fazendo cambalhotas no galho que tinha meu nome.
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Foi triste quando cheguei em casa, depois de um final de semana fora e ele estava lá derrubado, em pedaços. Meu deus, doeu! Não era só o cajueiro, podaram várias árvores e o quintal era só galhos caídos. Meu cajueiro tinha sido destruído, pois estava velho e doente - ninguém me avisou, nem falaram nada, foi sem despedida. Também foi chato com as bananeiras. Certo dia, eu olhei pela janela do corredor e elas não estavam mais lá e nenhum vestígio do meu palácio restava.
Com o abacateiro foi pior, tamanha violência, feio de ver, algum besta tocou fogo nos fundos e pegou o abacateiro, só um galho no alto ficou verde, o resto queimou. Ele, antigo e forte, sobreviveu, mas numa segunda vez pegou fogo. Minha mãe chamou o bombeiro duas vezes, ela e a dona A. ficaram tentando acabar com o fogo e nenhum bombeiro veio. Cheguei em casa e estava tudo preto, cheio de fuligem. O chão era preto, a piscina era preta, as roupas eram pretas, as flores, tudo era preto, o abacateiro morreu. Como pode uma árvore tão linda morrer desse jeito? O abacateiro, a cana, a goiabeira principal, as bananeiras, o cajueiro e toda a minha pequena selva acabou.
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Os anos se passaram e eu não percebi quando cortaram as bananeiras, quando foi que derrubaram meu palácio, quando foi que a horta de verduras daqui de casa se transformou num lugar de entulho, quando foi que parei de brincar com a minha cachorra, quando me tranquei em casa e fiquei vendo TV. Quando eu esqueci que era gostoso possuir árvores na minha infância. Meus primos se formam, eu sairei de casa e meus pais vão acabar vendendo essa casa, vão ter que abandonar esse lugar que não tem rua asfaltada e tem árvore de limão, romã, jabuticaba, lixia, mexerica, ceriguela, orvalho, goiaba, pera, maracujá, amora, nozes, nêspera, manga ...
Tem tudo isso na minha infância e são coisas que meus primos mais novos talvez não tenham, não tenham tantos primos com a mesma idade e árvores, as famílias diminuem e as árvores também: é o progresso.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ser um pouco infantil

por Pudim

Mas, então, o que há de tão interessante em não fazer algumas gracinhas de vez em quando? Por que é tão vergonhoso mostrar aquela dancinha que não combina com nenhuma música e que só você sabe fazer aos seus amigos? Devemos nos proibir de andar deixando a mão bater nas grades dos portões das casas, ou de pular as faixas pretas de paralelepípedos no solo quadriculado da calçada?
Empolgações são uma parte muito agradável da nossa vida, que deve ser preservada e levada em conta. Já ouvi algo sobre a existência uma pesquisa que comprova que as pessoas revelam quem realmente são apenas no banheiro. Aquela é a hora que eles encontram para liberar as brincadeiras infantis reprimidas durante o dia. Talvez seja a válvula de escape que os mais reservados escolhem, já eu prefiro executá-las espontaneamente, tomando o cuidado, é claro, de não fazer nada totalmente absurdo como, por exemplo, dar uma boa surra naquele cachorro que não cala a boca durante a noite.
Fazer brincadeiras e experiências sem sentido só pode ser saudável, traz bom-humor e alivia a pressão, às vezes. Não se pode negar que é irresistível rolar sobre plástico-bolha, brincar de esconde-esconde em uma loja de móveis, ou examinar como as formigas são organizadas e imaginar uma historinha acontecendo entre elas.
Existem ainda diversões infantis que são utópicas. Não seria legal ter uma piscina de gelatina? Já imaginou como seria legal ser o primeiro a pular e observar como a sobremesa gigante ficou marcada ao ser atingida pelo seu salto? E que tal uma rede de dormir de 68m² para ficar brincando de pula-pula com os amigos? Ou então, quando aquele churrasco experimentado com uma fome especial não o deixou com vontade de que existisse uma picanha de 20 quilos, temperada do seu jeitinho, no ponto e estalando, só pra você?
Eu poderia fazer uma lista imensa de coisas incrivelmente divertidas, e o melhor, totalmente viajadas que nós imaginamos às vezes; que incluiria conversar com outro de você, ser uma pessoa minúscula e andar pelo corpo dos outros, ter teias como as do Homem-Aranha para facilitar o transporte e o alcance de objetos distantes; mas as melhores são aquelas que nós mesmos criamos, só nós conhecemos, as mais non-sense de todas, e que mais nos encantam quando pensamos nelas.
Fala sério, não seria o máximo entrar na cabeça dos outros e descobrir quais são as suas próprias viagens secretas?


Foto por Guilherme Carnaúba