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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um encontro de dois tempos

por Pudim

Era quase Páscoa. Indiferente a isso, Eduardo Cícero evitava qualquer contato social que excedesse as singulares flores do canteirinho de seu tímido quintal. Estava profundamente convencido de que encontrava-se velho demais para agitação, e aquilo era aproveitar a velhice. Não era sem motivo. A vila de Tento, naquela época ainda aspirante a cidade, no máximo oferecia conversas limitadíssimas no único botequim - ainda assim, improvisado -, situado no mórbido centro. E, como típico inventor de obstáculos, o chamado Velho Duci recusava quaisquer sortes de interações com "sujeitos daquela estirpe".
Longe daquele retrocesso da civilização, na urbana e cosmopolita atividade da capital, três indivíduos (um deles incialmente estranho aos demais) estavam prestes a se tornar companheiros de viagem. Tenório e Cecília, recém-célebres no Condado de Stompes, eram os cabeças da caterva. Há tempos a nobreza fora gradativamente ignorada e eventualmente abolida, mas eles ainda eram conhecidos como Conde e Condessa. O terceiro ainda era um desconhecido.
Mais notavelmente, o Alguém se entretinha brincando com anagramas, fingindo-se inconsciente de que manipulava pela raiz o destino de nobres, velhos e desconhecidos pelo mundo. Ansiava pelo repouso que se aproximava. Isto em consideração, dispunha tão harmoniosamente quanto possível as peripécias de seus subordinados. Iniciava-se assim um colóquio noturno inusitado, convergindo inevitavelmente para "um encontro de dois tempos".

Nos tempos de Duci, o mentor

O velho pacato já fora um jovem pachola. Em tempos antigos, cria sinceramente em ser ele mesmo o Escolhido para alguma missão fora de seu conhecimento, mas que iria Mudar O Mundo. Convenientemente, isso foi ao mesmo tempo a causa e o consolo por vários amigos o abandonarem.
Atendo-se a esse sonho foi que descobriu algo, de fato, relevante e real. Aconteceu na biblioteca de sua faculdade, para ele o lugar habitual de seus passeios ociosos. Apropriadamente, encontrava-se descartado por acaso o "Diário de um Esquisito", com desenhos elaborados na capa, em uma das estantes. Ao primeiro vislumbre de seu rico conteúdo, Duci entendeu que aquele era o recado do Destino ao gênio reprimido. Resquícios de histórias quase de todo irrecuperáveis ou extraviadas, perpetuadas em forma de poesia naquele volume, o fizeram compreender que estava fadado a encontrar o produto de uma grande carreira de roubos séculos antes: um tesouro de mudar a História.
Não notando que o que segurava era, de verdade, um diário, o Escolhido começou a exteriorizar sua empolgação. O vexame por uma boa causa durou até o verdadeiro dono reclamar sua propriedade. Após caloroso litígio, Cícero concordou em retornar o seu achado.
A descoberta, no entanto, permaneceu em sua memória. E, por muitos anos, o fez entulhar documentos e possíveis desenvolvimentos para seus planos de ação sobre sua escrivaninha. Talvez por isso sua projeção elevada na carreira seja explicada; talvez por isso seja inexplicável. O fato é que Duci manteve-se lutando para que suas posses pudessem sustentar seus meios. Até o dia em que, subitamente, encontrou prazer na observação e análise de flores domésticas.

Sinto dor em dente, o cuspo em...

A estação estava apinhada; o trem, vazio. Não houve sequer funcionários prontos a carregarem suas malas para o devido compartimento. Fazia sentido: a Estação do Rancho era um destino muito inusitado e pouco requisitado. Cecília o notou e se deu conta de que sua aventura poderia erguer rumores.
"Sem pânico", Tenório a acalmou, "essas celebridades de jornal não duram uma semana. Ninguém mais deve ser capaz de reconhecer nossos rostos."
Tenório estava certo, teoricamente, embora ambos fossem donos de belos e marcantes frontispícios.
Eles não enxergavam o cobrador, que deduziam ser também o maquinista, e se perguntavam se deveriam pagar logo o bilhete. Então foram interrompidos. Um grito indistinto veio de algum ser próximo à plataforma de embarque. Após isso, o casal conseguiu lobrigar um objeto caindo, muito obliquamente, em algum canto escondido dentro do trem. A seguir, veio seu dono perseguindo-o.
"Meu dente! Eu derrubei meu dente de ouro! Onde foi parar? Vocês viram onde foi parar?"
"Não pude ver, foi por ali", respondeu o Conde, apontando algum canto escondido dentro do trem.
Ele e sua esposa não deram mais importância ao fato, até que o trem partiu. Nesse momento,Tenório olhou intrigado para o fundo do trem, que o desconhecido escrutava freneticamente. Este aguardou que o outro virasse sua face novamente à cabine do maquinista, e colocou de volta no bolso a moeda que tinha atirado ali, desejando que o tiro não tivesse sido perceptivelmente oblíquo. Então se levantou, e pôs-se a gritar:
"Pare o trem! Pare! Eu entrei por engano! Eu nem sei para onde esse trem vai!" pedido que, obviamente, não foi atendido. O casal tentou apaziguá-lo, oferecendo-o ajuda e informações. Ele optou por aceitar prontamente, já que era precisamente o que queria, e seu escândalo não estava sendo muito bem interpretado. Seguiram-se seis horas de um entediante e desconfortável sacolejo durante as quais o maquinista continuou sendo uma lenda. Apenas no final da jornada um balconista da própria Estação cobrou as passagens, e assim confirmou-se que aquele era um lugar insólito.
"Vocês têm lugar para ficar aqui?" o desconhecido perguntou, já sequer preocupando-se em soar desesperado.
"Temos", respondeu Tenório, farto de perguntas e notando que ganhara um execrável companheiro de viagem.
"Podem me mostrar onde é?"
O Conde aquiesceu.

Cem por um nos dois de Tento

Pouco do que aconteceu desde a chegada do trio metropolitano ao Rancho de Tento é passível de menção. Era tudo cochichos, boas-vindas, botequim lotado, perguntas e mais perguntas: reações óbvias ao choque entre a gota volátil de chuva e a lagoa perene acostumada à calmaria. Pois então, no quinto dia após a Páscoa, o desconhecido observava quadros de gosto duvidoso, geometricamente dispostos na parede próximo ao seu quarto de hóspede. Notava que no mesmo horário, noite após noite, habituou-se a fazê-lo. E, embora isso o impacientasse, continuava recusando entrar em seu quarto e dormir mais cedo ou se render às festas. Até que, nesse dia, Tenório, Cecília e o dono da hospedaria se trancaram sozinhos no recinto do último.
O hóspede solitário sequer pensou em tentar ouvir a conversa: já tinha o ouvido colado à porta antes que o fizesse. Só ouvia vozes masculinas.
"Cem por um."
"Nos dois?"
"Nos de Tento."

Um tiro no Conde de Stompes

Milhares de faíscas refulgentes a poucos sentímentros do hóspede inesperado. Após elas, A Condessa, em um redingote vermelho, repousa serena próximo a um lago remansoso. Tudo ao redor é tormenta. Ela se levanta para recebê-lo, mas o fosso caótico parece intransponível. A desordem que a cerca, ameias despovoadas que a resguardavam, tudo homogeneiza-se num torvelinho, que se condensa na figura bem vestida do Conde. Este ergue uma Wessel antiga, e sem pestanejar atira no visitante. Mas quem morre é o atirador. Por trás da ruína do Conde, a donzela de vestes rubras segura outra Wessel antiga, esta com fumaça se dissipando acima do cano. Não há mais guardas no arrebalde; a cidade é só deles.

Todos nós de pé: um cornetim

O dobre soou duas vezes na mesma semana; e a empolgação da cidade arrefeceu. Não pelo velho misterioso que desaparecia de suas vidas, ou pelo retirante carismático que cometeu suicídio enquanto ali pousava, mas por tudo isso acontecer justamente na agourenta semana seguinte à Páscoa. Sistematicamente a cada ano, nessa época, o velho Duci fazia ressoar em sua trompa francesa a marcha fúnebre em homenagem a algum velho habitante da cidade que falecia. Agora era a vez dele. A Condessa estava de preto; o Alguém fitava obliquamente seu chapéu de luto. Todos se aprumaram para a melodia lúgubre. Soou o cornetim do músico substituto.

Soou a campainha do trem que os levava de volta à turba.

Não há mais guardas no arrebalde; o tesouro é só deles.

Foto: Guilherme Carnaúba

segunda-feira, 23 de março de 2009

Jael e Sísera

por Pudim (texto e imagem acima)

Abra seus olhos com calma.

O rio que pacientemente retocava o pálido cânion parecia estático, sem sequer a lendária marola para dá-lo sinais de vida. Não havia vento. Mas ele continuava tocantemente azul, e Jael continuava a olhá-lo do melhor ponto, onde não havia mirante, e aonde só ele não temia subir. Á exceção da marola, que ocasionalmente aparecia para saudá-lo, o rio nunca mudava. Ainda assim, e mesmo com as águas mais límpidas que muitos seres humanos já viram, o visitante não saciava sua sede de apreciar o discurso multicor do abismo da água que flui.

Não relute, por favor. Você consegue. Reconhece a minha voz?

A repetição rotineira do ritual já é suficientemente formidável para se tornar escrito, se é que isso faz algum sentido. Mas desta vez o espectador sedento estava sendo perturbado por alguma anormalidade que não notava, como uma coceira por dentro das costelas que faz um homem desejar que elas se abram e a fonte de todos os males se aparte do seu corpo. Gradativamente, cruamente, o fator atípico foi se revelando, molestando cada vez mais o observador.

Você tem tempo; vamos, descanse. Eu sei que você ainda se lembra...

Era uma voz aguda, infantil e graciosa. Vinha do platô oposto do penhasco. A melodia que insinuava por entre a sinfonia frenética dos pássaros o fez estremecer. Mais, o fez interromper o seu colóquio tradicional e descer até a margem baixa; tocar o rio.

Não, ainda não se perdeu. Acredite em mim, ela está aí. Está sentindo?

Atravessar a água que flui.

Apresse-se, todos querem vê-lo.
Quem quer ver-me? Quem quer verme?

Resistir aos apelos de seu corpo. Subir o lado inalcançável do cânion.

Não seja louco de tocá-lo. Não seja...
Quero meu corpo inteiro nele.
Louco.

Encontrá-la. Ela era tão aguda, infantil e graciosa quanto a voz. E dançava a própria música oscilando num balanço rústico preso a uma árvore.
“Olá, senhorita, qual é o seu nome?”
“Sísera, muito prazer.”
“Isso não é nome de homem?”
“E o seu?”
“Jael.”
“Isso é nome de mulher.”
“Faz sentido.”
Ela balançava cada vez mais alto, até enroscar as pernas em um galho maldoso atrás de seu brinquedo, e gritar rapidamente de susto.
“Está tudo bem? Deixe que eu te ajudo.”
No instante exato, as pernas se soltaram naturalmente, e Jael estava na posição certa, na borda do cânion. O balanço avançou com toda a energia e perigo, lançando o bondoso homem às profundezas.

Eu disse que ela chegaria.
Escreva-o por memória às futuras gerações.

Foto: Bruna Pimenta

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Autor

por Rodrigo Faustini (qualquer coisa, considere o título como deliberadamente sarcástico em sua falta de criatividade)
aaO autor estava sentado em sua cadeira (era personalizada). Ela era acolchoada, de um fino tipo de madeira de nome holandês (a pronúncia deste há tempos havia cometido suicídio em sua memória; lamentável) que exala o mais único dos cheiros; fora manuseada por um genuíno artista, perdido no porão de uma marcenaria nos arredores da cidade, que, naquele móvel banal, engravou parte de seu coração. Aquela cadeira não significava nada. O autor se questionou se suas palavras sofriam do mesmo mal, enquanto digitava cada vez mais delas, suas filhas bastardas. Ele não tinha coragem de associá-las ao seu nome. Rubens Secco era o pai.
aaMarcelo estava em grande perigo no momento. Ele tinha certeza de que o homem de terno e sobrancelhas volumosas que lia desatento um jornal estava naquele trem para matá-lo. A próxima parada era dali a duas horas. Até lá, os constantes olhares investigativos e de suspeita reinariam; o passageiro a seu lado não parava de tossir em seu lenço branco. O autor odiava Marcelo.

-Corajosoaaaaaaaaaaaaaaa-Egocêntrico
-Sagaz aaaaaaaaaaaaaaaaa-Calculista
-Inocenteaaaaaaaaaaaaaa -Infantil
aaMarcelo era o antagonista do autor. Mas como ele o invejava. Por mais imaturas e mesquinhas que fossem suas ações, Marcelo sempre conseguia uma linda mulher como prêmio, para a alegria de seus leitores. E como o autor odiava seus leitores, eternamente confinando-o à sua cadeira. Agora ele está parado, observando enquanto a barrinha de seu Microsoft Word pisca, faminta por letras. Era uma noite fria de Agosto.

aaCarlos não era subjugado esclerose, Carlos podia voar. Olímpio não olhou um segundo para trás após decidir seguir seu sonho. Amanda, armada apenas de sua profissionalidade como repórter e alguns microfones estrategicamente posicionados havia derrubado uma família inteira envolta em corrupção e luxúria. O autor havia sentado bastante tempo em frente de seu computador. O autor muito os invejava. Talvez ele sentisse que as palavras o fizessem companhia.
aa
aaUma brisa de vento passou pela janela entreaberta, forçou seu caminho pela cortina, rodopiou por pura graça, e foi abraçar o rosto do autor, que precisava, gabando-se dos lugares que já havia visitado. Possuía os aromas para prová-lo.
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa***
aaO autor aproximou-se de sua estante, pegou uma história em aleatório, e saiu pelo mundo para vivê-la.
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa***
aaUm sino indicou que o trem estava perto do ponto. Marcelo levantou-se e seguiu para perto da porta. O homem suspeito foi atrás, em passos inaudíveis, mas em respiração ofegante. Ele tinha péssimas notícias para dar. Marcelo segurou levemente em sua pistola, que se encontrava em seu bolso, sem virar. Era uma noite fria de Agosto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Última Vela


por João Pedro Paro

Naquela noite tudo se apagou. Nenhuma luz, nenhum movimento, a única cara visível era a do escuro. Ninguém sabia se havia uma vela disponível. E foi aí que o imprevisto aconteceu... Ele estava deitado no chão. Não tinha ninguém, todos haviam o abandonado. Seus pais? Mortos, seus tios? Mortos. A única pessoa que lhe restara era sua avó materna, mas ela havia decidido encontrar o resto da família mais cedo naquele dia. O escuro o cobria e ele decidiu levantar. Ao tentar acender a luz percebeu que essa também o havia abandonado. Notou que ainda usava o terno do enterro e começou a chorar novamente. “Por quê?” Ele se perguntava.

Lembrou-se de sua avó que acendia uma vela toda noite antes de dormir. Será que ela havia tido tempo de fazer isso antes de partir? Ele andou tateando as paredes até chegar ao quarto. Olhou através da porta e viu, em cima de uma velha cômoda, a última vela, a última chama disponível naquela casa. Pegou a vela e voltou à sala. Posicionou a pequena vela na mesinha de centro e largou-se no sofá. Começou a observar as fotos iluminadas pela pequena chama. E viu a foto, aquela foto, a foto do dia em que sua solidão começou.

Era a noite de sua formatura e toda sua família estava reunida para comemorar, haviam decidido alugar uma van para que não tivessem que se preocupar com a embriaguez de um dos motoristas, e foi por causa dessa van na volta da formatura que ele estava só. Era uma noite escura e quase todos, dentro e fora do carro, dormiam, porém outra pessoa que não deveria dormir caiu nos braços de Hipnos: o motorista. A van rolou ribanceira abaixo e ao acordar ele se lembrava de um misto de metal, corpos e fogo. No hospital foi amparado por sua avó, os dois eram os únicos sobreviventes de toda a família.

Pegou a foto nas mãos e passou-a sobre as chamas, assistiu-a queimar. Colocou a foto ainda em chamas no cinzeiro da mesa e, com a vela em mãos, foi até o parapeito da janela. Admirou a escuridão que envolvia a cidade, nenhuma luz, nenhum movimento; observou as nuvens no céu, eram as únicas que ainda sorriam para ele. Viu as formas de seus pais nas nuvens, queria tocá-los, abraçá-los, nem que fosse pela última vez; ao lado deles viu sua avó, apesar de tão pouco tempo já sentia a falta dela. Abaixou-se ao lado da janela e pôs-se a chorar novamente e, antes que percebesse, havia adormecido. Acordou pouco depois, a vela caída incendiara o tapete que, por sua vez, incendiara todo o resto do apartamento. Olhou para as chamas, viu seus parentes no meio delas, dançando, cantando, se divertindo, adentrou no fogo e deixou que este o envolvesse. Depois de algum tempo tudo se apagou. Nenhuma luz, nenhum movimento, a única cara visível era a do escuro.

fotos: Google

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Noite sem estrelas, uma lenda. (2/2)

Foto por Bruna Pimenta.
por Stefano Manzolli.

três de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

O jantar fôra apressiado com espanto, por causa da fartura, e apressadamente, pois as crianças, aqui não incluo Suri, aguardavam anciosamente pela história de terror. Um pouco menos tímidos, Marylane e Harry responderam perguntas e contaram um pouco de suas vidas. Ao término da refeição, um criado levou os pratos para cozinha e Helena Dawis, a nenem para passear pelos cômodos da casa.
Façamos um comentário à parte: quando Sir Dawis chegou à casa com os novos-filhos, Helena havia preparado (sozinha!) cookies tradicionais e um delicioso chocolate-quente. Para as crianças, foi mais fácil adaptar-se com a receptividade sorridente dela, do que com o ar sarcástico e sombrio do pai.
- Doroty, peça aos criados que acendam a lareira. - disse pacientemente Sir Dawis para a governanta de aparência ríspida.
- Sim, senhor. - respondeu, enquanto retirava-se da sala de jantar.
-Desculpe, crianças, com esse frio é melhor ficar dentro de casa.

cinco de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

A festa estava maravilhosa.
Mr. e Ms. Chester à porta, junto de outro casal de anfitriões, recebiam os convidados, nobres da sociedade britânica, que enchiam o grande salão do London Royal Club aos poucos. Cada senhora trajava seu mais lindo vestido de baile; seus maridos pareciam todos iguais: paletó preto com cauda bi partida, gravata borboleta branca e camisa de colarinho alto com as pontas viradas. Para um leigo, pouca diferença havia no vestuário dos garçons e dos cidadãos mais ricos de Londres.
Ao longe, um pequeno grupo musical de câmara interpretava sonatas, fazendo um agradável fundo musical. Os canapés de camarão estavam um pouco ressecados, mas nada que um bom champanhe não resolvesse.
"Saber que boa parte do dinheiro arrecadado nessa noite vai pro meu bolso, me deixa ainda mais feliz!", pensou Rose Chester entre um abraço e outro.
.
quatro de dezembro de mil novecentos e dezesseis.
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- Não feche os olhos, Marylane! Aproveite ao máximo o passeio!
- Mas... não sei se eu quero passear, está tarde. - retrucou a menina, um pouco apavorada.
- Olhe para o céu, é uma noite serena!
- É uma noite linda, eu sei - sussurou Harry, tentando esquecer a história.
- Eu sabia que não devia ter contado aquela lenda para vocês...
três de dezembro de mil novecentos e dezesseis.
"Crianças, espero que vocês estejam preparadas para uma das mais horripilantes histórias de todo o território europeu. A lenda da noite sem estrelas!".
"Aconteceu anos atrás, numa tarde escura de inverno, enquanto os pássaros negros voltavam para seus ninhos. O vento uivava ao passar pelas árvores e arrancava algumas folhas secas que ainda insistiam em ficar presas aos galhos. No céu, não havia estrelas, como se houvessem jogado tinta azul escura sobre todos os astros -nem lua havia-, era um céu típico de dia de chuva".
"Começavam a cair os primeiros flocos de neve, enquanto Jasmine, uma linda mulher de cabelos cacheados, voltava sozinha para casa - depois de passar horas visitando um tio velho. Ela adorava observar o início das nevascas, quando os pequenos fragmentos de água congelada aquietavam-se sobre seus ombros, mansamente".
"Seria um início de noite maravilhoso, se não fosse por uma miragem cruel. Numa das linda árvores, na estrada de volta, a mulher interpretou a tragédia em duas partes. Primeiro, ao ver metade de um monomotor presa aos galhos, sentiu náuseas e uma vontade imensa de rezar. Depois, ao olhar para o chão, deparou-se com a pior de todas as cenas: a parte da frente do monomotor toda estraçalhada; no meio do aço retorcido, o corpo do piloto meio com vida, meio sem vida - a hélice frontal rompia-lhe o peito. Frente a isso, seu instinto foi correr para ajudar".
"Na manhã seguinte, a polícia encontrou o avião destruído e no meio, entre as ferragens, o cheiro forte de sangue e um ar pesado de morte, o corpo nu de Jasmine. Em sua boca aberta, de desespero, depositaram-se inúmeros flocos de neve e, pelo reflexo da pouca luz daquele dia, pareciam muitas estrelas (as quais não brilhavam na noite anterior). Nunca encontraram vestígios do piloto".

"Desde então, o parque onde tudo isso aconteceu é chamado de Jasmine's Garden e todos tem medo de relembrar a fatídica história".

Silêncio assustador.
Marylane foi a primeira a dar risadas, depois Harry a acompanhou.
- Quer dizer que tudo isso aconteceu no parque que fica aqui perto de casa? - disse a menina.
- Claro, por que você acha que há um monumento em forma de avião lá?

Silêncio intrigante.

- Nos leve até lá, quero ver essa árvore! - Harry, apesar de um pouco amedrontado, queria parecer extremamente corajoso - Amanhã, quando estiver escurecendo, nós iremos. Você, Marylane, se estiver com medo, não precisa vir...
- Fica quieto! Eu sou mais velha, não me assusto com esse tipo de coisa - retrucou, mesmo estando com uma sensação estranha de fragilidade.

quatro de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

O percurso até o parque pareceu um passeio como outro qualquer. Depois de uma noite inteira de pesadelos, Harry e Marylane estavam mais confiantes quanto à travessia do parque.

- Sabe, meninos... a história, que eu contei ontem, é verídica: aconteceu meses depois que eu cheguei de Nottingam para morar em Londres... a lenda é outra, talvez bastante assustadora. Dizem que órfãos, quando passeiam por dentro do bosque, em noites sem estrelas, desaparecem.
Se pudéssemos escutar, acharíamos os três corações batendo mais forte.
- Mas... não há o que se preocupar, não passa de uma lenda boba! - Harry não estava tão confiante, como suas palavras demonstravam
- E mesmo que houvesse alguma coisa, eu protegeria vocês, meus pequenos. - George tentou encontrar algum instinto paterno.

Era uma noite sem estrelas.

cinco de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

O leilão de quadros, após o jantar de gala, estava rendendo mais lucros que Mr. Chester imaginava. Daria para fazer uma reforma no orfanato e embolsar todo o dinheiro do Sir Dawis, sem que notassem a trapaça.

Um garçom, de corpo esguio e cavanhaque bem feito, repousou sobre a mesa do casal Chester um bilhete - era de Helena Dawis e a marca de lágrimas eram evidentes no papel. Rosa, que já havia notado a falta dela e do marido, apressou-se em ler.

"Caros Chester,

Aconteceu uma coisa terrível! Assim que puderem, venham falar comigo - não sei se tenho condições de criar Suri sozinha...

Com amor,
Helena."

seis de dezembro de mil oitocentos e oitenta e quatro.

O pequeno Richard Stolen, depois de nove meses de seu nascimento, foi adotado pelo Conde Campbell Dawis e sua esposa, Condessa Nancy Dawis.
- Daqui pra frente, - disse Nancy para o novo filho - será chamado de George Dawis e jamais saberá que, um dia, foi orfão.



FIM.

Criação (Robôs)

Texto por anônimo Rodrigo Faustini, pintura por Incógnito com talento que não tive paciência de encontrar o nome


-Olha, eu fiz com que ele expelisse água ao redor de seus olhos.- disse o proprietário das mãos gélidas e metálicas que haviam acabado de esmagar a mãe do garoto, enquanto esse nada podia fazer para impedir o que, como seus olhos e mente o diziam, era um ataque divino de ira.

- Ele está chorando. Nós não podemos chorar. Ele está triste. Não podemos ficar tristes.

-E por quê chora? A outra não era ele. Por isso era a outra. Ele pode comer, amar, dormir, transar até morrer.

-Nós não podemos comer. Não podemos amar ou dormir. Não podemos transar... Não podemos morrer.

Eles continuaram a observar o desespero do garoto sem se moverem. O corpo de sua mãe se decompôs, e deu lugar a flores. Anos depois, ele dormia, amava, transava e comia sem grande sinal do que havia acontecido. E então ele morreu. Havia outros. Eles tinham criado-os a partir da carne que crescia do solo, dos ossos das árvores, das almas que voavam junto do vento e das idéias que constituíam as nuvens, para nunca entendê-los. Eles continuaram a criar, pois essa era sua função. A criação continuou a viver, sem função, mas feliz.

Porém, por uma noite apenas, dividiram o mesmo sonho. A criação dormia aconchegada, enquanto os criadores tinham suas mentes invadidas por aquelas mesmas imagens, podendo apenas interpretá-las como reais. Talvez fossem, em espaços diferentes.

O sangue quente fluía pelas veias rodeadas de carne e pele, aquecendo o antes gélido metal que os envolvia. Não com força, pois não era necessário. Não com paixão, pois não a tinha. Mas com delicadeza, enquanto(criador e criação) caminhavam pelo ar, numa busca pelo nada, apenas prolongando o calor do momento. Talvez seus circuitos derretessem, moldando a criação (assim como fazia a cera quente que esses haviam criado, por sua vez). E seriam apenas um.

Acordaram...sem nunca terem dormido.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Noite sem estrelas, uma lenda. (1/2)

(Rose Chester, à epoca dos acontecimentos).
Foto por Bruna Pimenta



por Stefano Manzolli


três de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

Camile, a cozinheira de ancas fartas, estava afoita com o comunicado que acabara de receber: dali quatro horas, um nobre inglês iria almoçar com Rose e seu marido, Mr. Chester - a fim de tratarem de uma reforma no orfanato e de três adoções ("Três, três, três adoções! Imaginem isso!", gritava Ms. Chester pelos corredores). Nessa época, por escassez de concorrência, muitos procuravam os serviços do orfanato Casa Rose Chester.

Como muitas mulheres ricas, para não perderem suas cinturas magérrimas, adotavam crianças, Mr. Chester passava horas de seu dia andando nas ruas inglesas, procurando os órfãos mais bonitos - branquelos, de olhos azuis e cabelos loiros, se fosse possível. Ele sabia, assim como todo mundo, que ter filhos parecidas com polacos estava na moda; por isso, esse tipo de criança valia mais. Se Mr. e Ms. Chester queriam estar entre os melhores do ramo da adoção, deveriam ter os melhores produtos.

Outra coisa que todo mundo sabia, mas a polícia não conseguia (ou não queria) provar, era que os orfanatos ganhavam comissão por cabeça adotada. Essa informação corria de boca em boca, mão em mão, mas nenhum cidadão tinha coragem de (e nem podia) averiguar os fatos.

Naquela manhã, pouco antes do Sir Dawis chegar, Eliot encontrou a mais bela de todas as órfãs do território britânico, quiçá europeu: pele clara, bochechas rosadas e grandes, olhos azuis (pálidos de tão azuis), cabelos ruivos cacheados à altura dos ombros, dentes amarelados, porém totalmente alinhados, pequena, frágil e com um pouco de sotaque irlandês. Estava sozinha, sentada na calçada, perto de uma barraca de feira, observando as maçãs empilhadas - havia fome estampada em sua testa e um ronco estranho de barriga pairando no ar.

- Menina, cadê seus pais? - indagou o velho homem de barriga arredondada e barba muito bem feita.
- Hum... hã... meus pais morreram, senhor.
- Qual o seu nome?
- Marylane, senhor.

Após contar-lhe maravilhas sobre o orfanato e explicar detalhadamente as quatro refeições diárias, a pobre menina não achou forma de recusar ao convite de juntar-se aos outros órfãos da Casa Rose Chester.

Durante o caminho de ida, mãos dadas a Eliot e milhares de histórias, contou-lhe parcialmente sua vida sofrida, a perda dos pais (assassinados por causa de dívidas), o fascínio por histórias de terror, a vontade de participar do grupo de teatro municipal e a saudade de comer almôndegas.

Durante o almoço com George Dawis, Mr. e Ms. Chester souberam medir suas palavras, falando pouco e objetivamente sobre os projetos de caridade e as expectativas de aumento do prédio do orfanato para o ano de 1917.

Enquanto isso, Marylane, que não conhecia nenhuma outra criança, sentada perto da parede, cantava uma antiga canção de ninar. Apesar da retórica bem ensaiada, Sir Dawis não prestou muitíssima atenção no casal simpaticamente bem vestido, pois não conseguia desviar os olhos da garotinha.

- Por mim - disse George - tanto faz. A reforma do prédio será paga por mim... quanto às crianças, já estão escolhidas. Quero aquele loirinho, com sardas; aquela nenem de pernas gorduchas e olhos azuis; e aquela ruivinha ali - apontou para a direção de Marylane -, a mais afinada de todas as meninas inglesas... quando podem ir para casa?
- Muito obrigado pelo apoio, Sir Dawis - afoita, Rose saiu falando em um tom de voz exagerado -, faremos o nosso melhor para honrar o seu patrocínio! - diminuiu a voz ao tom de um sussurro - As adoções... precisam... hã... é, por que sua esposa não veio com o senhor?
- Ela vinha, mas sua mãe está doente... bom, mas se vocês acham que estou mentindo, posso procurar outro orfana...
- De maneira alguma! Sabemos de sua vida privada e pública, era apenas curiosidade. Enfim, as crianças serão suas após o acerto de... hum... das... contas, entende?
- Perfeitamente - respondeu -, pago agora.
- Mas...
- Pago o dobro, se for necessário.

Intervalo silenciosamente apreensivo.

- Feito, camarada. - sorriu Eliot, assim que terminou de deglutir o último pedaço de seu pernil de carneiro (sem perceber que havia um fiapo grosso de carne entre seus dentes). - Quase esqueço de lhe convidar! No final de semana, senhor George, faremos um jantar filantrópico, e seria uma honra tê-lo entre nossos convidados.
- Seria um prazer imenso.

Depois de horas conversando sobre a Primeira Guerra Mundial, as crises britânicas e todas as óperas que entrariam em cartaz em Londres, o Big Ben badalou cinco horas - estava na hora de fecharem negócios. Enquanto assinavam papéis e tomavam o famoso chá com leite, Sir Dawis teve o primeiro contato com os três orfãos escolhidos, os quais aceitaram calados a decisão de serem, praticamente, comprados pelo burguês estéril.

- Digam adeus à Casa Rose Chester e um caloroso olá ao novo pai de vocês, George.

Não houve resposta, e assim passaram todo o caminho de volta para a grande casa dos Dawis: calados, apreensivos pelo futuro em família - nenhuma das crianças lembrava, com certeza, o que era uma família. As ruas pareciam ser eternas e o sol punha-se entre as grandes árvores.

- Conta uma história pra gente? - Marylane, a única que sabia quão ruim era viver em silêncio e sem ter com quem conversar, tentou quebrar a falta de comunicação entre eles.
- Que tipo de história vocês gostariam de escutar?
- Daquelas que dão medo! - Harry, o garoto loiro com sardas, berrou estridentemente.
- Isso mesmo! Conte uma história de terror! - Marylane concordou com seu novo irmão e pôde perceber que, caso não estivesse enganada, seriam grandes amigos. "Pelo menos gostamos do mesmo tipo de história!", refletiu.
- Já estamos chegando em casa... mas depois do jantar vamos acender uma fogueira no quintal e eu vou contar para vocês uma lenda fascinante...
Os três pares de olhos o observavam (até a pequena Suri, que não entendia o que estavam falando, ficou assustada com a expressão diabólica feita por George para falar o nome do causo).
- A lenda da noite sem estrelas...


segunda parte? clique aqui

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mulheres de Atenas.

Foto por Bruna Pimenta



por Stefano Manzolli.

A luz, que ofuscava os olhos marejados, apaga-se. É um quarto bonito, cheio de pequenas porções de vida: a bailarina que dança dentro da caixinha de música, os garotos de porcelana que sorriem, a foto do casal amável no porta-retrato sobre a mesa de canto, a frágil Stela que inunda o travesseiro com suas lágrimas.

No breu calado da noite, as cigarras gemem prazeres e existências curtas, enquanto as poucas nuvens brincam de se entrelaçar.

- Calem-se! Morram, cigarras! Morram! Me deixem só! - grita a mulher; as palavras, porém, saem misturadas aos soluços histéricos de seu choro, criando uivos melancólicos.

O quarto ecoa todos os seus sons.

Ao longe, quando colidem e tornam-se apenas uma harmonia, Afrodite toca lira e banha-se nua numa cachoeira límpida. Em seus olhos azuis reside uma tristeza profunda: a morte de um semi-deus amado. Sua voz soprana encanta todos os animais da floresta, os quais juntam-se sobre as pedras para escutá-la.

As pequenas cigarras gemem prazeres e existências curtas, enquanto as lindas nuvens de verão brincam de formar corpos entrelaçados.

- Cantem! Cantem, cigarras! Cantem! Não me deixem só! - Afrodite chora e seus soluços são tão solenes que dão poder à sua voz.

A deusa compõe o seu minueto mais bonito, enquanto dois cortejos voltam para suas casas em outras estradas: um em São Paulo, outro no Monte Olimpo. O semi-deus trajando vestes de guerra está sepultado em cova rasa; o marido de Stela vestindo seu terno mais bonito, em cova cara e de família.

A mulher, nesse planeta de injustiças, não sabe tocar harpa, nem lira, nem flauta, muito menos piano. Não sabe cantar, não gosta de falar em público. Sozinha, no escuro de sua casa, dilacera sua alma em gritos e frases de amor. Os animais da floresta não vêm para abraçá-la, mas as cigarras cantam.

Ah, as cigarras sempre cantam!

- Calem-se!
- Cantem!
- Me deixem só!
- Não me deixem só!
- Por favor,
- Eu imploro:
- Volta, Hélio!
- Volta, Aquiles!
- A vida,
- Sozinha aqui,
- Não tem sentido...
- Não tem sentido...

Elas clamam pela volta dos amados, mas não há regresso. Hades carrega o herói; a noite profunda das pálpebras, o homem de negócios. Há, no entanto, silêncio sepulcral nas almas e agulhadas periódicas dentro dos corações quebrados.

Existe, também, uma vontade sufocante de fazer tudo diferente. Uma sensação de que, caso fosse possível voltar no tempo, ambas as tragédias seriam evitadas. Como se uma força mágica pudesse desviar o caminhão desgovernado ou, então, fazer aquela flecha envenenada não ultrapassar o corpo do jovem guerreiro.

Mas não pode-se fazer nada. Além de derramar lágrimas (muitas, muitas, muitas lágrimas).

A voz suave e melancólica de Afrodite, ao descer para a Terra, difunde-se com outros timbres, inunda o quarto escuro (através do rádio) e chega aos ouvidos de Stela. "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas", "As jovens viúvas marcadas não fazem cenas, vestem-se de negro, se encolhem, se conformam e se recolhem às suas novenas serenas" são lamentos da canção.

A voz suave e melancólica de Chico Buarque, ao subir para o Monte Olimpo, reparte-se: a metade mais carregada de sentimentos cola aos olhos de Afrodite. O restante vira palavras de consolo proferidas por Zeus. "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas", "Quando fustigadas não choram, se ajoelham, pedem, imploram mais duras penas - cadenas" são lamentos do deus (de barba grisalha, cabelos ralos e voz severa).

Faz doze anos que, por causa da carreira acadêmica, Stela saiu da Grécia para estudar no Brasil. Faz cento e trinta e dois meses que, por causa de um amor frenético de verão, Stela casou com Hélio. Faz vinte e três horas que, por causa de um acidente terrível, Stela perdeu vontade em viver.

Agora, as suas lágrimas inundam o travesseiro e o sangue de seus pulsos, toda a noite com sua cor vibrante. Será demais suportar uma existência solitária, ela não está preparada para ser viúva. A imagem do rosto transfigurado do marido ainda aparece embaralhado aos seus pensamentos.

As cigarras param de cantar.
Os soluços histéricos cessam.
O corpo parece imerso em gelo.

- Cantem, cigarras... cantem... não me deixem só...

Depois de tanto, Stela está voltando para Atenas e irá deitar-se no colo amigável de Afrodite. As duas, mãos dadas e sorrisos graciosos, irão compartilhar suas desilusões amorosas. Quando cansadas do passado, amarão outros titãs, deuses e figuras mitológicas. Se entediadas, tocarão minuetos lindos para as mulheres desesperadas. Na Terra, porém, haverá sempre uma canção em choro de cigarra, tragédias gregas e um conselho a ser ouvido: mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Dia qualquer

texto por: Gabriela Andrade


Ele estava terrivelmente atrasado, saiu do carro apressado, não acreditava que havia perdido tanto a hora naquele lugar, como pode ser tão distraído? Agora não havia tempo pra pensar, nem reclamar, precisava chegar rápido. Virou a direita, ele tinha certeza que era por aqui, tinha certeza que estava no caminho certo. Não tinha muito tempo por isso não podia parar pra pensar, seu foco estava apenas em chegar o quanto antes ao seu destino, olhava para o céu de vez em quando, o sol se pundo e a noite adentrando, Deus, ele pensava, preciso chegar antes que percebam minha falta. Continuou a caminhada, sem perder tempo apressou o passo. Não queria correr, pois temia chamar atenção, também naquela situação se chamasse atenção ou encontrasse alguém conhecido estava morto. Continuou tentando andar o mais rápido possível, fazia de tudo para desviar das poucas pessoas que haviam na rua naquele momento e para não esbarrar em ninguém.
O chapéu o protegia contra olhares curiosos, ele sabia que era o único a usar um smoking aquela hora e naquele bairro, mas o que podia fazer, tinha que vê-la, e precisava ser naquele momento, aquela situação havia sido prolongada, mas não tinha importância, ele sabia que cometendo uma loucura, porém era um homem apaixonado, e ao mesmo tempo condenado.
Passaram-se alguns momentos e seu telefone tocou, ele olhou para o número que estava estampado na tela e recolocou-o no bolso, não iria atender, depois daria uma desculpa. Se tudo desse certo ninguém lembraria de nada, ele só precisava de mais alguns minutos, mais alguns quarteirões e estaria a salvo.
Ele ainda lembrava do momento que a havia visto pela primeira vez, linda, mas mesmo assim tinham tudo para dar errado, os pais contra, interesses distintos e futuros incertos, mas ele sabia que a queria para a vida toda, só faltava convencê-la disso.
Por hoje o futuro deles estava certo, a salvo, por hoje ele não faria mais nada, e era apenas isso que ele tinha que garantir, o hoje. No amanhã ele pensaria depois.
Virou a esquina mais uma vez, já conseguia ver o seu destino ao longe, pegou um cigarro do bolso e colocou-o sem jeito na boca, assim teria uma desculpa, saira pra fumar. Passou as mãos pelo cabelo e voltou a pensar nela; ele a havia prometido passae todos os momentos possiveis junto dela, e ela memso com lágrimas nos olhos deu um pequeno sorriso e aceitou, porém seu sorriso não chegou nos olhos, deixando neles a tristeza trazida por ele.
Não fazia aquilo de propósito, não a queria machucar, a fumaça passava queimando em sua garganta, e sua consciência atrapalhava ao pensar em tudo que ela estava desistindo, porém era necessário. Ele não tinha culpa de amar duas mulheres, seu coraçao era egoísta não conseguia escolher, e por mais que fosse errado, ficaria com as duas.
Terminou de andar os cinquenta metros que faltavam, entrou na igreja e colocou um sorriso no rosto, agora não era hora de pensar nisso. Umas das coisas mais importantes para ele estava prestes a entrar em sua vida definitivamente. Ele sorriu, sua família estava lá, todos os seus conhecidos estavam, ele se encaminhou até o altar e esperou a música que começaria a qualquer momento, mudar sua vida, mesmo que uma angustia insistisse em abraçar seu peito.
Não muito longe dali uma janela aberta fazia com que as cortinas balançassem, a casa, agora vazia, fazia com que o cheiro do encontro saisse com o vento. Um bilhete mal presa a foto dos dois, que ficava na mesa de cabeceira, mostrava que a tristeza que ele havia visto antes era dificil demais para ela suportar.
No bilhete estava escrito que ela sempre o amaria, porém não aguentaria viver aquela situação, enquanto ele dizia sim a outra ela tomou uma atitude, mas as sirenes nunca estariam peerto o bastante. E o cheiro metalico de sangue invadiu a rua, manchando-a de vermelho.





(Foto retirda do google)

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O amor em quatro vozes.

por Stefano Manzolli

O café esfriava em cima da mesa.

Jorge observava a fumaça quente percorrer suas bochechas, seus óculos e, algum tempo depois, se dissipar rente ao teto. Ao lado da xícara, um livreto de Fernando Pessoa era um convite para mergulhar no incrível mundo de Alberto Caeiro.

Tomou outro gole de café e poesia.
Queria aquecer a alma e aquietar o coração.
Apressadamente, lia versos pela metade e virava as páginas.
Buscava um poema que calasse a voz presa aos seus pensamentos.

Aos poucos, perdido em palavras, inventou seus próprios heterônimos. Criava diversas máscaras para seu ego velho e conhecido; era e deixava de ser diversas pessoas ao mesmo tempo. Entretido pela loucura, viu surgiu Fernando Márquez, Augusto de Moraes, Gabriel Verissimo. Numa velocidade frenética, descobriu grandes histórias para cada um.

Fernando Márquez desejou Clarice Meireles por quatorze anos e vinte sonhos, mas morreu sozinho em Londres. Comia batata-frita e peixe empanado no horário do almoço. Desenhava corpos entrelaçados nas janelas embaçadas do inverno. Usava as mesmas meias pretas até furar. Lia Conan Doyle e suspirava Carlos Drummond de Andrade antes de dormir.

Augusto de Moraes casou-se muito cedo com uma namorada grávida, Cecília Lispector. Mesmo sem amá-la de verdade, cumpriu sua fidelidade matrimonial. Colecionava carros em miniatura. Era sonâmbulo e adorava lanches na madrugada. Tomava café expresso compulsivamente. Morreu corno, cheio de dívidas e sem conhecer o inebriante mundo dos livros.

Gabriel Verissimo escreveu um romance ruim e, depois de trinta anos de solidão, foi morar num mosteiro italiano. Odiava marrom e rezar, mas gostava das sandálias de couro. Por diversas vezes sentiu vontade de voltar para o Brasil. Não suportava idosas que vinham confessar-lhe os pecados da mocidade. Tinha poucos amigos; em Deus, porém, encontrou uma boa companhia para as refeições.

De todos eles, somente Jorge Salim tocara uma mulher.
Somente ele sentira vontade de amar.
Somente ele vivia nessa realidade estranha chamada vida.
Somente ele conhecera o peso das lágrimas de saudade.
Somente ele sonhava com Carolina - sua maior fonte de desejos.
Somente ele tentava preencher sua existência vazia.

Enfim, depois de tanta procura, achou o tão esperado poema.


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é a uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Recitou para si mesmo todos os versos, enquanto mergulhava no incerto mundo dos sentimentos. Lembrou do sorriso dela, dos gestos. Suportou em seus ombros a fragilidade de estar só e, com a força de nuvens cinzas, chorou uma lágrima de amor sincero.

Foi embora com o livro debaixo do braço e os outros dele voando sobre sua cabeça.


Foto por Bruna Pimenta

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Uma história sem amor.


por Marcela Evangelista

O telefone tocou. Minutos antes ele pensara no telefonador (e como). Naquele momento ele se ocupava com coisas que poderiam ser feitas depois, mas não quis deixar para depois por que era filosofia.
O tempo corria, mas nosso personagem parou no instante em que percebeu como era difícil viver sem a pessoa que telefonava. Ele sabia que as coisas nunca voltariam a ser como antes, nem mesmo sabia se queria que fossem. “Com o tempo as pessoas mudam... eu mudei, ele mudou, porque a vida torna tão mais difícil dizer o que sinto?” Pensou. Talvez nesse momento tenha complicado mais o caso, o problema era que tais pensamentos eram inevitáveis. Cada olhar e gesto, cada toque e palavras ditas pela rouca voz pareciam se renovar a cada segundo, em sua memória.
Até que o telefone tocou. E parou. Como um flash, fechou os punhos e sentiu um nó se desenrolando no peito. Olhou a tela que piscava, reconheceu o número. Não pensou em mais nada. Reviveu e discou de volta. Sem resposta. Acalmou-se e desistiu. Ele vivia da emoção e a paixão o fazia esquecer da razão, e aquela se tornava prioridade dentro dele. Nada podia fazer já que não conseguia parar de pensar pelo coração e então, cortou o nó. Definhou. Dizem que o preconceito é uma arma letal.



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Lágrimas de chuva.

por Stefano Manzolli

Chovia forte, era uma destas tempestades de verão. Como de costume, eu havia esquecido meu guarda-chuva em casa. As gotas violentas molhavam toda a minha roupa, podia senti-las como pequenas bolas de fogo - ardiam ao encostar em minha pele.

Parecendo um competidor de maratonas, corri desesperadamente. Em vão, é claro. Nessas horas, quando você precisa muito de alguma coisa, a lei de Murphy parece a maior de todas as verdades: nada dá certo. Corri, corri, corri, mas não cheguei a lugar nenhum. Via as vitrines trancadas, as portas fechadas e nenhuma alma viva - era um típico fim de domingo.

As ruas pareciam compor um gigante labirinto cinza. As árvores, sem flores e folhas, grandes monstros dos sonhos infantis. Elas me observavam, invocando as angústias da minha infância. Em cada esquina, via surgir os fantasmas quase esquecidos de minha memória. Minhas pernas tremiam de frio, cansaço e medo - um medo ingênuo das ínfimas labaredas que jorravam das nuvens.

Podia escutar um canto longínquo ecoado pelo vento: vozes ancestrais cravando dúvidas na minha estúpida razão, lapidada pelos livros teóricos de Thomas More e Friedrich Nietzsche. Participava de duas lutas: uma era visível, mas a outra estava oculta dentro dos meus olhos molhados e partidos.

Chovia forte ainda.

Cada pedra portuguesa segurava meus pés, a fim de aumentar o sofrimento da minha alma. A solidão era minha única companheira - dançávamos o minueto dos deuses, enquanto gemia trovões de Zeus e eu caía sobre meus movimentos brutos e pouco ensaiados.

De repente, avistei uma menina sozinha, entre uma lixeira e uma casa, vestida por um guarda-chuva. Seus cabelos loiros e o vestido azul claro contrastavam com a opaca realidade. Parecia um anjo sem suas asas de plumas ou coroa brilhante.

Aproximei-me.
Ela não notou meus sapatos encharcados.
Estava concentrada vendo reflexos turvos em uma poça suja.
Agachei ao seu lado.

Chovia forte ainda.

- Ei, menina!
- Oi, seu moço.
- Onde eu consigo um desses aí?
- Um guarda-chuva? Estava por aí e eu peguei.
- Ah, sim. Digamos que você roubou, então.
- É, pode ser isso sim.

Abriu um sorriso irônico e, depois, uma risada gostosa.
Seus olhos tinham um brilho lindo.
Sua boca não tinha dois dentes-de-leite.

- E está fazendo o quê, aqui, sentada sozinha?
- Estou esperando.
- Quem?
- Meu pai.

Guardou a risada e toda aquela alegria.
Parecia ser muito mais velha agora.
Procurou palavras de consolo, mas o vento estava quieto.
Costurou uma porção de lágrimas dentro do bolso-coração.
E tentou sorrir, mas seu sorriso não estava mais tão bonito.

- E ele volta quando? Daqui a pouco?
- Não volta. Nem hoje, nem amanhã, nem nunca. Minha mãe, às vezes, me diz que ele está numa viagem de negócios, mas eu sei que ele foi morar com meus avós... lá no céu. Minha professora disse que depois da morte, a gente vira estrela, mas eu sei que é mentira. Tenho certeza que meu pai tá lá em cima me observando.

Chovia forte ainda.

As minhas palavras desgovernadas calavam quentes dentro da boca. Eu, com o triplo da idade daquela garota, sofria por bobeiras da meninice; mas ela, tão frágil e meiga, sorria em meio a tempestade.

- Como você sabe disso?
- Posso te contar um negócio, seu moço?
- Pode.

Com um gesto doce, pediu que eu chegasse mais perto.
Jorrou a mais linda verdade dentro do meu ouvido.

- Eu sei que meu pai tá aqui, porque nos dias mais feios do mundo, quando a vida parece cor de sapato velho e o nosso coração, bater menos sentimentos; ele chora um montão de lágrimas pra dizer que está com saudade de mim. Não conta pra ninguém, seu moço: esse é o nosso segredo. Você precisa ir embora, minha mãe não gosta que eu converse com estranhos. Ela nem sabe que eu estou aqui fora.

Fechou os olhos, o coração, a alma, o sorriso.
Voltou a procurar reflexos turvos na poça suja.

- Pode deixar... esse é o nosso... segredo.

Fui embora, com um segredo debaixo do braço e um guarda-chuva de sentimentos lindos sobre meus cabelos molhados. As lágrimas fingiam ser gotas de paz e banhavam meu corpo, minha alma, minha consciência torpe.

Chovia forte ainda.

Foto por Bruna Pimenta

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Antes do embarque.

por Stefano Manzolli.

- Mariana Berccillo, há tanta coisa pra falar, mas me falta tempo: meu vôo partirá em vinte minutos. Eu tenho poucos créditos no celular e não quero comprar um cartão para usar num telefone-público. Você não pode me ligar, pois não sabe meu novo número, roubaram o meu outro celular. Droga, há tanto pra falar, mas não tenho tempo pra dizê-las. Poderia começar agora, mas de certo não terminaria, são muitas coisas e você não as aceitaria sem contestar primeiro. Será que não há um outro jeito de fazer isso? Uma carta, quem sabe, mas você não me disse onde está morando.
- Olha,...
- Não! Não fale nada, não temos tempo pra perder com conversas tolas, há assuntos pendentes para serem resolvidos, antes que eu embarque naquele avião rumo Pequim, por causa da minha promoção da empresa, e suma da sua vida sem você nem notar.
- É que...
- Não! Não conteste nada, me escute, apenas. Eu preciso dizer o que, por tantos anos de namoro, eu não consegui. Droga, eu ensaiei um discurso tão bonito, só que não há tempo pra palavras bonitas. No fundo, o negócio é o seguinte: depois de você, eu não consegui amar nenhuma outra mulher, o seu rosto ainda me persegue, seus cabelos loiros ainda fustigam meus olhos, nos meus sonhos e pensamentos está uma existência sua. Meu amor, eu estou disposto a recomeçar, a mudar meus erros e tentar, de uma vez por todas, ser seu príncipe encantado. Depois de tudo, antes de muitas outras coisas boas, você quer se casar comigo?
- M...

A ligação caiu.
Os créditos acabaram.
A bateria acabou.
Ele jogou o celular no lixo.

Ele embarcou rumo à China, sem saber o que ela tentou responder pelo telefone e, depois de um tempo no novo país, resolveu esquecer esse passado e começar um novo romance. Amou um chinesa meio feia, mas muito rica. Viveu um romance bonito, cheio de pormenores, teve dois filhos inteligentes e faleceu de mãos dadas com o amor de sua vida - numa manhã cheirosa, enquanto as cerejeiras abriam suas flores.

*** *** ***

Já faz uns anos que essa história aconteceu e, por todo esse tempo, guardei comigo a resposta que ele receberia. Não, não era para eu ter escutado, mas narradores geralmente sabem mais do que devem, ouvem mais do que podem e vivem mais do que desejam. Foi por um tremendo acaso que, naquela tarde, resolvi contar essa história.

Caso vocês não saibam, narradores têm uma estranha existência, como nuvem em dia de sol: permanecem, o dia inteiro, estampados no céu, observando as pessoas-formiga seguindo suas vidas normalmente. Hora ou outra, podemos nos focar em apenas um indivíduo e acompanhá-lo (por minutos, horas, dias, anos); e todo enredo que é observado, sai impresso em folhas de papel, mesmo sem nosso consentimento.

Como eu adoro personagens tristes, estava dando uma volta pelo aeroporto - em busca de esposas chorando pelo marido que vai embora, crianças abraçando o pai, namorados dando um último beijo. Entre bagagens, sapatos sujos, azulejos cinzas, vi Robson sentado no chão. O celular, acomodado confortavelmente em seu colo, era brinquedo para os dedos fugazes.
Brincava de ligar e desligar;
abrir e fechar;
digitar e apagar.

A barba por fazer e olheiras imensas, junto aos olhos cabisbaixos, davam-lhe um estranho ar de loucura, medo, solidão. Tirando suas roupas de marca, poderia ser confundido com um mendigo qualquer. Encontrei beleza naquele caos de sentimentos entupidos numa alma aflita.
Ele chorou.
Por dois minutos inteiros, ele chorou.
Como uma criança perdida, ele chorou.
No meio de uma multidão, ele chorou.
Mas ninguém perguntou porquê.

Senti um nó de escoteiro na minha garganta, o ar passava com muita dificuldade. Queria chorar também, mas resisti e guardei as lágrimas nos espaços mal-remendados do meu coração. Queria roubar aquela tristeza e, em seu lugar, doar-lhe uma felicidade maior que o mundo.

Angustiado, trocando frases por palavras, pedia para alguém ajudá-lo, mas nessa existência como narrador, sou mudo para os humanos. Nós, que vivemos sobre suas cabeças, sabemos todas as respostas, perguntas e, mais ou menos, os desfechos; o problema está em vocês: tão cheios de prepotência que anulam os livros, os textos, os sussurros trazidos no vento, as vozes ecoadas dentro da caverna, os fantasmas da noite, de suas vidas. Ninguém pára para nos ouvir.
Ninguém me ouvia, naquela tarde.
Robson não queria me ouvir, naquela tarde.
Amaldiçoei essa minha trágica condição, naquela tarde.
Rouco e angustiado, apenas observei meu protagonista fazer as escolhas erradas.

Levantou-se, respirou fundo.
Olhou no relógio.
Faltava pouco tempo para o embarque.
Resolveu ligar.
Começou a digitar o número de cabeça.
Uma criança, meio descoordenada, esbarrou em suas pernas.
- Desculpa, tio.
- Não foi nada.
- Desculpa, moço, esse meu filho não pára!
- Não foi nada.
O menino e sua mãe foram embora, Robson não.
Ainda digitava o número de cabeça.
Quando a outra pessoa atendeu, desatou a falar, falar e falar.
Falou tanto que não deu tempo para escutar a resposta.

Chegou o momento de revelar esse segredo. Assim que a ligação ficou muda, ninguém pôde escutar as piores palavras daquela tarde, as quais estão gravadas em minha mente até hoje:

- O senhor ligou para o número errado.

Foto por Bruna Pimenta

Evolução dos valores

por Gabriela Andrade

A festa estava quase acabando, os convidados indo embora, com sorrisos alegres, gestos extravagantes de felicidade, trazidas com a festividade e com a ingestão de tanta euforia a altas horas e até mesmo pelo cansaço que tiveram antes de tudo começar. Ali sentada, ela sabia que não conseguiria diminuir sua ansiedade, tentou olhar o final da festa e juntar os movimentos de todos como um só, para ver se conseguia mudar sua atenção. Estava cansada, cansada de tantas máscaras que eram colocadas pra ninguém ver a verdade, ali ela sabia que muitas pessoas se passavam por coisas que não eram, ou coisas que nunca iriam ser, sua mãe sempre dizia que ela deveria aprender a se portar e não agir de forma grosseira ou como criança na frente de todos, que ela já estava virando uma mocinha e tinha que aprender a viver no mundo dos adultos. Aquela festa apenas mostrava que todos faziam o mesmo que ela, fingiam ser algo para participar de um grupo de pessoas, onde nada nem ninguém os pudesse criticar. Todos pegaram os talheres certos, os copos certos, comeram tudo o que lhes fora posto no prato e mandaram comprimentos ao cheff, porém ela sabia que nada do que lhes fora servido seria reproduzido ou até mesmo que fora apreciado, ela mesma não tinha tido vontade nenhuma de provar daquele banquete, mas sua mãe já havia jogado dúzias de olhares mal encarados, como se dizendo que era melhor que ela se portasse do melhor jeito, ou iria se arrepender. Ela ficou quieta a noite inteira, não deu palpite em nada, tudo estava muito bom, e muito bem, havia se acostumado a engolir sua verdadeira opinião e sempre dizer o que os outros queriam ouvir, assim como lhe fora ensinado. Ela já havia sido recriminada tantas outras vezes, por tentar fazer o que queria, por tentar pensar como queria, por querer fazer as coisas do seu jeito e como achava certo. Havia perdido a alegria e a inocência de criança há muito tempo, nada a assustava mais, havia aprendido do jeito mais difícil que quem tem poder compra a verdade que quiser e ela era apenas um peão naquele jogo todo. Toda a sociedade já estava acostumada a criar seres não pensantes, adultos que aprenderam quando pequenos que a verdade podia ser ajustada para que pudesse se dar bem, a sociedade já estava saturada dessas pessoas, desonestidade e mentiras manchando o governo de hipocrisia e homens que só tinham ganância os guiando. Agora depois que todos foram embora ela não iria para casa, iria pra longe, estava casada com alguém que não amava, iria entrar em uma família que não queria, iria fazer parte de um grupo de pessoas que viviam de aparências. Ela sabia que estava condenada, nada mais poderia ser mudado, mas sabia que um dia poderia ensinar seus filhos a terem uma visão e opinião e espalhá-las pelo mundo.


Foto por Bruna Pimenta

Épreci Sodarv Azãoao Ssenti Mentos

Imagem por: Rodrigo Ciampi e João Paulo Ferreira

por Tuma

Sigamos então, tu e eu, pelas alamedas de vermelho e verde, onde as árvores se contorcem sinuosas para receber o sol. Sigamos pelos caminhos repletos de sussurros, onde o sorriso é não mais que um suspiro, onde uma leve contração de lábios indica a máxima felicidade. Continuemos, passo a passo, percorrendo essa estrada estreita onde mal cabemos juntos, onde cada avanço é feito lado a lado.

Deixemos as folhas caídas para trás. Que elas sejam levadas pelo vento e enfeitem o céu que nos ilumina pelas costas. Nós vamos alcançar a orla do mar, sentarmos embevecidos na rebentação, sermos banhados pela glória branca e azul das águas. Subiremos pela escada do farol, e contemplaremos a linha do horizonte unidos, olhar sobre olhar, para enxergar a mesma coisa.

Vamos nos perder no meio das pessoas que se cruzam sonolentas. Trazer cor mesmo no preto e branco da imaginação. Permaneceremos abraçados, de olhos baixos, e não será preciso gritar “Queremos ficar sozinhos.” A dança dos pés em marcha nos levará naturalmente para fora da multidão, onde encontraremos os dias do futuro à espera.

Sentemo-nos pois às margens de águas murmurantes, e unidos escutemos o doce compasso do coração. Ouçamos o pulso do sangue, que corre mais rápido nas veias agora que nós, duas almas vagantes, nos reencontramos e reconhecemos como iguais. Pulemos na corrente e sigamos mar adentro, até que o horizonte, céu e água, se abra e revele a luz tênue do dia.

O rio que nos embalava carinhoso se esvai em gotículas de segundos que me umedecem as pontas dos dedos. Não mais sinto como era estar ali, naquela terra. Só há lembrança, que pouco a pouco se dissipa no calor da manhã. Como é duro acordar e perceber que tudo não passou de um sonho.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Pernas e poemas.

por Stefano Manzolli.

Naquela tarde, como em todas as outras desde que minha irmã fez quatro anos, fui levá-la ao ballet. Meninos que já assistiram a uma aula de ballet sabem como é chato: elas levantam a perna, abaixam; erguem o braço, abaixam; primeira, segunda, terceira, quarta, nonagésima posição; e todas, numa sincronia quase perfeita, executam dezenas de passos, presas num colan rosa encharcado de suor. Para mim, não há graça nenhuma em ver o Lago dos Cisnes, o Quebra-Nozes, ou simplesmente escutar as músicas clássicas irritantes.
Até aquela tarde, não havia graça nenhuma.
Mas naquela tarde, mudei a minha forma de pensar.
Entendi o que era a vida e a beleza patética do amor.
Quando chegamos na academia de dança Lima Penteado, percebi um clima estranho entre as garotas. Havia um murmurinho, uma fofoca passando de voz em voz, de mão em mão. Umas arregalavam os olhos, outras desmanchavam em rir e eu, todo confuso, me sentia totalmente perdido. Pedi para minha irmã descobrir o que estava acontecendo, mas ela já sabia há muito tempo.
- Hoje vai ter seleção pra passar de nível! Achei que você não gostaria de saber disso. Você não vive resmungando que não gosta quando eu falo do ballet?
Incrivelmente, toda vez que eu perguntava alguma coisa sobre a maldita dança para ela, a resposta vinha da mesma forma: com um sorriso sarcástico, voz petulante e um brilho quase maléfico nos olhos. Lá no fundo ela morria de rir, quando eu me mordia todo, por causa da malcriação velada dela.
- Não me importo, só não queria ficar curioso. Vai pra sua aula!
Aos pulos, como de costume, minha irmã juntou-se ao grupo de pequenas dançarinas e foram praticar. Como não há muita coisa para fazer, geralmente, sento do lado de fora, perto da parede de vidro e fico admirando como ela dança mal. Sem dúvidas, para mim, ela é a pior de todas – desengonçada e fora do ritmo -, mas sua professora já veio elogiá-la diversas vezes.
Eu rio e digo que ela está enganada.
Ela ri e diz que eu não entendo nada de dança.
Minha irmã ri da minha cara vermelha.
De repente, depois do longo aquecimento, entram na sala uma pianista, uma mulher com cara de pêra estragada e... Afrodite – poderia dizer que ela era tão linda quanto Gabriela Cravo e Canela misturada com Iracema, mas sem o clima de floresta ou sertão. Era uma deusa encarnada, com suas pernas e braços esguios, cabelos presos impecavelmente num penteado clássico, os olhos grandes e negros (dignos de Capitu), os lábios grossos e num tom suculento de vermelho. O colan servia-lhe perfeitamente, cheguei a visioná-la nua, ali na minha frente, conversando com aquelas menininhas e minha irmã.
Minha vontade era de invadir a sala e, num ato quase animal, tê-la em meus braços, junto aos meus beiços, colada no meu corpo, suas pernas entrelaçadas às minhas. Pela primeira vez, encontrei graça e beleza naquela dança.
Em cada movimento seu, via desaparecer fragmentos da minha razão. Quase entorpecido, pensava com o coração e tinha na mente um turbilhão de obscenidades. Falando francamente, garotos apaixonam-se de duas formas bem distintas: com amor somente e sem amor algum. No primeiro, sentimos um suadouro, um bambear de pernas, uma espontaneidade em falar “amo você”, nos preocupamos muito com a roupa, o perfume, o cabelo, a fim de estar perfeito para a amante de sua vida. Já no outro caso, não sentimos nada além de um borbulhar gostoso dentro da calça e uma sensação interessante de superioridade.
Sentia-me o galã da novela.
Meu coração bombeava mais sangue.
E eu só tinha quatorze anos.
Aquela aula pareceu voar diante dos meus olhos – em poucos instantes, segurava a mão da minha irmã, enquanto atravessávamos a rua. Ela me cutucava, mas eu não respondia, ainda estava em êxtase, desenhando nas nuvens as coxas grossas daquela bailarina.
- Fernando, você tá quieto hoje. Tá bravo?
Antes estivesse bravo, pois assim descontaria nela. Na situação em que me encontrava, minha irmã não podia me auxiliar em nada.
Ou podia.
- Carol, aquela moça que deu aula pra vocês é nova?
- É a Clarice. Não é professora, não. Só veio auxiliar na escolha das melhores da turma. Acho que passei!
Como assim? Ela não voltaria mais? Quis correr de volta para a academia, tentar falar com ela, pelo menos um beijo... Não dava mais tempo, àquela hora já deveria estar bem longe.
- Ela não vai voltar mais, então?
Minha irmã, que não é boba, entendeu as minhas intenções e riu-se toda.
- Você tá apaixonado, Nando? Tá apaixonado! Tá apaixonado!
- Fica quieta, menina.
Mas ela não parava de cantar, saltitar e parecer irritantemente feliz, enquanto eu estava todo dilacerado.
Quando chegamos em casa, deitei folgado no sofá da sala – sonhando acordado.
- Mamãe, eu acho que passei! A moça me elogiou muito e o Nando tá todo apaixonado por ela! Tá apaixonado! Tá apaixonado!
Elas deram gargalhadas, as quais pareciam martelar minha cabeça. Queria dizer que, na verdade, não queria amá-la... bom, elas não iriam entender mesmo.
- Viu, Nando, se você quiser saber, a Clarice vai voltar amanhã, para falar o resultado.
Pronto, a vida estava cheia de cores e risos novamente! Ela iria voltar! Ainda haveria uma chance de fazer contato, mas eu pensava no que dizer em outra hora. Estava muito atarefado criando cenas e sombras – nossas na parede do quarto. Naquela noite, com certeza, haveria uma trilha sonora diferente durante os meus sonhos, porque eu queria sonhar uma montagem inteira, na qual haveria lugar apenas para nós dois.
Eu era o Senhor de todos os Engenhos.
Eu era o Bonitão da Bala Chita.
Eu era o Rei da Babilônia.
Eu era, eu era tudo.
E ela era minha.
Naquela noite, debaixo das cobertas, abraçado ao travesseiro, ela era minha. Não preciso dizer que não consegui dormi nenhuma hora inteira. Varei a madrugada, mergulhado em diálogos, canções, jeitos bacanas de me apresentar.
Decidi escrever um poema, decidi ser poeta.
Tranquei a porta do quarto, acendi o abajur, arranquei uma folha do meu caderno e... as palavras fugiam. É incrível como frases sempre voam de nossas mãos, quando mais precisamos delas. O Fernando Pessoa, o Camões, o Drummond, que havia encontrado em mim, desmancharam-se como poeira em águas agitadas.
Joguei uma, duas, três, quatro, noventa folhas.
E, depois de tantos rascunhos, escrevi o melhor poema de todos.
Apaguei sobre a folha, com a luz ligada e o lápis do lado.
O outro dia era um sábado. Para minha felicidade, minha irmã precisava ir de manhã para a academia. Para não me render ao amor platônico, decidi não me preocupar com perfume, penteado e banho quente - fui com olheiras e chinelos levá-la. Estava crente de que tudo isso seria tirado mais tarde, então quanto menos roupa melhor. Logo no portão, pude avistá-la, dessa vez usava uma roupa larga, parecendo uma grávida. Antes mesmo de ela entrar no vestiário para trocar-se, larguei da mão da minha irmã e corri ao seu alcance.
- Clarice, espera!
Ela assustou, me olhou e não reconheceu.
Cheguei cansado, fitei seus olhos.
Minhas pernas tremeram.
Meu coração pulsava forte.
Senti um suadouro tremendo.
Quis falar alguma coisa, mas não consegui.
Entreguei a folha e sai correndo.
Quando abriu o bilhete, descobriu linhas e linhas vazias. O melhor poema de todos estava gravado na minha língua, na minha alma, sabia-o de cor. Não esperava, na hora, agir como um apaixonado patético.
Naquela tarde, diferente de todas as outras desde que minha irmã fez quatro anos, eu descobri a pior das coisas: garotos e garotas apaixonam-se da mesma forma.

Imagem por Bruna Pimenta.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Não é proibido sonhar.

por Stefano Manzolli.

Conta-se que muitos anos atrás, num país intolerante, um grupo de militares estúpidos resolveu instaurar uma ditadura. Simples assim: ergueram a voz e os fuzis, numa manhã bonita de outubro, e transformaram a vida daqueles pacatos cidadãos em um inferno. Cheios de uma covardia disfarçada, passaram a criar leis para proibir toda e qualquer forma de protesto branco.
Primeiro, expulsaram os poetas, cantores e filósofos do país, alegando serem esses os bagunceiros do pedaço. Em certa vertente eram, pois se rebelavam frente à hipocrisia dos homens armados; por outro lado, todavia, eram os grandes heróis do povo oprimido, lutando contra o governo autoritário e um tal de sistema.
Mas ninguém, com certeza, sabia o que era o tal sistema. Uns temiam-no, por causa de suas incapacidades de compreendê-lo. Outros achavam que era uma grande arma nuclear, um plano maligno para acabar com a vida no planeta. Os mais esclarecidos entendiam que era apenas uma boa desculpa, à qual eram atribuídos os erros idiotas de dirigentes falhos. De qualquer forma, o sistema era temido e venerado.
O tempo e a inflexibilidade das novas regras deixou o Estado sem nenhum tipo de arte, expressão em massa ou frases de efeito. Os guardas, nas ruas, puniam todo e qualquer indivíduo, que tentasse uma comunicação direta com seu semelhante – conversas nas calçadas, cafés filosóficos, bailes dançantes, galerias de arte, estavam amplamente proibidos. Nas escolas, as aulas eram fiscalizadas por espiões, se alguém ousasse parecer contrário ao ditador, logo desaparecia.
Por medo, as pessoas ficavam quietas.
Com medo, viviam.
No medo, encontravam seus fantasmas.
Aos poucos, uma revolução começou a borbulhar entre os homens e, de forma irracional e pouco pacífica, foram até o prédio-sede do governo, atirar pedras, gritar seus ideais, suplicar pelo fim daquele autoritarismo. As tropas de choque foram confrontá-los e, num ato quase carnívoro, acabaram com a vida de metade dos manifestantes. Quem restou foi expulso da nação, uma nova lei impedia a permanência masculina naquele território.
Nem os idosos foram poupados: com o intuito de serem tratados em belíssimas casas de repouso, um avião velho e aperto levou-os embora. Boatos dizem que o meio de transporte explodiu pouco depois de atingir o oceano, pois ninguém o pilotava.
Os jovens, de ambos os sexos, eram levados forçadamente para campos de treinamento militar. Apenas as meninas grávidas podiam voltar para suas casas; os garotos, em contrapartida, deveriam esquecer o termo liberdade, casa, família, hambúrguer. Quem ficava, mais cedo ou mais tarde, ia para “guerra”.
Mas não havia nenhuma guerra no mundo.
Ninguém sabe para onde eles eram levados.
Eles não voltaram para casa, nunca mais.
Sobraram apenas mulheres, crianças e militares – com mãos sujas de sangue. A escola era a única instituição que funcionava de verdade, porque era de extrema importância criar uma legião de novos pensadores, os quais serviriam para elogiar e espalhar aquele modelo político para o resto do mundo. Por isso, as crianças eram bem tratadas, com boa comida, banho quente e roupas novas a cada mês. Já as mulheres, tinham a estúpida função de chocadeira: grávidas por militares diferentes, a cada nove meses, pariam bebês, como se isso fosse um emprego qualquer, mas não eram remuneradas. Sem dinheiro ou prestígio, viviam de pouco pão e muito sofrimento, como máquinas velhas e enferrujadas.
Numa noite, enquanto a escuridão reinava no céu, as estrelas choravam suas lágrimas brilhantes, o sol escondia-se do outro lado do globo, os lobos uivavam seus sofrimentos; os soldados roubaram as crianças e atearam fogo nas casas, com as mulheres dentro.
Os lobos pararam de uivar naquele momento.
As estrelas pararam de chorar.
Nada era tão chocante e carregado de emoção, como os berros inflamados de tristeza daqueles novos órfãos. Imploravam para ver suas mães, pegar o brinquedo preferido, abraçar seus travesseiros da sorte. Seus gritos rasgaram a madrugada, libertando os últimos fantasmas de Pandora, ainda aprisionados naquela caixa de madeira tosca.
Na manhã seguinte, o cenário era apocalíptico: casas queimadas pela metade; poeira misturada no ar; sangue amargo e seco nas calçadas; armas quebradas e descarregadas, jogadas nas estradas; o sol escaldante e um silêncio estranho. Todas os pré-adolescentes foram levados para os campos de treinamento, antes ocupados pelos seus irmãos mais velhos. Os bebês foram calados com mamadeiras cheias de leite quente e as meninas foram levadas para o mesmo lugar que seus pais. Logo cedo, os mais crescidos receberam instruções sobre como se portar, vestir, falar. Depois, trataram de correr, nadar, pular corda e fazer abdominais.
Começavam a perder suas infâncias.
Suas ingenuidades.
Seus medos do escuro e ladrões.
Ganhavam a chance...
Na verdade, não ganhavam nada.
Desde que nasceram, tiveram apenas suas vidas retiradas aos poucos. Primeiro a liberdade, depois os irmãos, os pais. No fim, quando tudo parecia estar estabilizando-se, mataram suas mães. Cresciam como pessoas sem-pátria, sem-afago, sem-sentimentos, apesar de sentirem todas as dores do mundo – tanto físicas quanto psicológicas.
Desde que nasceram, foram treinados para serem máquinas de calcular, agir e não-falar.
Entre as garfadas fartas daquela sopa estranha de feijão, os garotos lembravam do sabor apetitoso de um bom bife, da batata-frita crocante; das vezes que guardavam um pedaço de torta dentro do bolso, a fim de presentearem suas mães esfomeadas. As lágrimas salgavam ainda mais aquele caldo espesso. Um tapa bem forte na cabeça os fazia engolir o choro. “Onde já se viu, meninão desse tamanho chorando! Comporte-se!”, um soldado advertia. Quando deitados no colchão duro de seus beliches, sonhavam com a cama quente e bem fofa que tinham em suas casas antigas.
Sim, eles sonhavam!
A despeito de toda crueldade, os sonhos não morrem com pancadas, exercícios e aulas de matemática. Os sonhos estão sempre prontos em nossas mentes, basta achá-los. Não há meio de impedí-los de voar. Aqueles meninos de cabeça raspada, corpo magrelo e olhos fundos, viviam e amavam num mundo inventado, cheio de sonhos.
Naquela madrugada, enquanto todo mundo dormia, Joel levantou-se, achou o giz que roubara na sala de aula e, com a força de um passarinho recém-nascido, escreveu na parede do dormitório: “Não é proibido sonhar”. Desfaleceu de fome, com um brilho bonito dentro da alma – chegara a hora de sua redenção.

Foto por Bruna Pimenta.