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terça-feira, 14 de abril de 2009

Sonata norturna [11]

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Depois do fim (11/10)


Por Pudim (e Tuma)
Foto: Tuma

Mas há ainda luz. O último suspiro do mundo, um estertor, um gorgolejo, encerrando três vidas na noite que passou, uma ainda mal começada, a contentora, talvez, da salvação do mundo. Mas há ainda há luz. A violência das criaturas pálidas, sua fúria percorrendo a Ilha da Madeira e todos os outros lugares ainda intocados pela palidez recrudescente. Mas ainda há luz. Em todo o mundo, novos infectados pelo mal desconhecido, juntando-se às hostes brancas e tomando parte na destruição. Mas ainda há luz. Sim, pois após a noite do fim do mundo, após o suspiro que acabou com ele, após a última sonata ser tocada e brutalmente interrompida, após a madrugada perder-se na escuridão, nasce novamente o sol. Sobre todas as criaturas, as pálidas e as vivas, ele lança sua luz. Todos os seres, sem exceção, erguem seus olhos, como que surpresos de que após tamanho mergulho nas trevas pudesse ascender novamente a chama sempiterna. Não, após o fim do mundo ainda há vida. Após o fim do mundo ainda há luz. Não se sabe quanto tempo as criaturas pálidas irão durar, em seu frenesi apocalíptico. Mas já se lembra, aquele que viveu antes do fim, de como elas se esvaíam, cedo ou tarde. Eles levantam os olhos, os seres da terra. O sol ilumina a todos. As marcas da destruição impedem que eles pensem ter se tratado de um pesadelo. Mas a terra fornecerá o suficiente, mais uma vez, para que seus filhos permaneçam em sua dança.

UM NOVO COMEÇO?
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sábado, 11 de abril de 2009

Sonata norturna [10]

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Sonata (10/10)


Por Pudim (e Tuma)
Foto: Google

1. Ela não sabia, mas em seu ventre estava a salvação da humanidade. Marcela não sabia, mas em seu ventre estava. Não sabia, mas em. Ela não. A Salvação. Marcela não sabia, ainda, pois não havia sido avisada, mas em seu ventre estava a salvação da humanidade. Passeando pelas ruas de Funchal, desligava-se do barulho de seus passos e do murmúrio dos muitos que caminhavam e conversavam cruzando as esquinas, fugindo do calor das casas e abraçando, desesperados, o ar fresco que o mar, indolente, soprava sem pressa. Ela lembrava a noite, quase nove meses atrás, em que seu futuro filhotinho se materializara. Marcela lembrava. Lembrava da noite e de cada outro dia, nove meses vezes os seus dias, em que caminhara pela rua para fugir do calor e encontrar, quem sabe, seu amante perdido. O amante perdido perdido no mar, marinheiro constante, intermitentemente presente junto a ela e ao filho deles, pequeno milagre ocasional, surgido no ventre da moça após um gesto de prazer comum, rápido, como todos os outros haviam sido.

Mas por ali, longe dela, longe de Marcela e seu filho-salvação, chegava à praia a figura espectral de Nikole, seus pulmões ardendo, os cabelos colados ao rosto, suas roupas em farrapos, cambaleando e afundando os pés na areia molhada e fofa. E seus olhos, injetados de água salgada, do mar ou de lágrimas, enrubesciam violentamente, e giravam, cruzando suas miras no ar, buscando o foco do que havia logo a um palmo, ou muitos metros seguindo em frente. Cedeu enfim, o corpo, deixando-se cair na areia e ser tocado pelas ondinhas que avançavam terra adentro. O contato com o chão, com o sólido, logo despertou nele uma sensação de pertencimento, uma lembrança, um arrepio familiar. Mas, junto com o reconhecimento, o arrepio trouxe o delírio. Nikole viu sete figuras reunidas em volta do mundo, e o mundo queimava. As chamas, porém, eram sem brilho, e só faziam afundar seu combustível na escuridão. Ao redor do mundo, no entanto, algo reluzia, e era um ventre. Ao lado de Nikole, a figura pôs as mãos sobre a barriga, e a barriga explodiu em luz, iluminando o planetinha e tirando-o das trevas. Surpresa, Nikole olhou para o rosto da figura, e a figura era uma mulher. Uma mulher grávida.

- Você está bem? – Marcela tentava, desajeitadamente, ajudar Nikole. Em seu transe, a náufraga saíra da praia e começara a andar pelas ruas da cidade, balbuciando, até encontrar, de olhos fechados, a mulher que via dentro de suas pálpebras.

- Sim! – exclamou Nikole, acordando de repente. – E você? Você está tudo bem? Está tudo bem com você...?

- Está, está sim. Mas de onde você veio? Está toda molhada... – disse Marcela, um pouco assustada.

- Eu, eu vim nadando até a praia, estava em um barco, mas as pessoas enlouqueceram e... meu Deus, eu não vou chorar. Você não viu, não sabe o que está acontecendo no mundo?

- Você fala do vírus?

- É, isso, as pessoas tomam a vacina e, meu Deus, elas enlouquecem, entende o que eu digo?

- Entendo, sim, mas por favor, acalme-se...

- Acalme-se, sim, eu não poderia estar mais calma, eu nunca estive tão calma na minha vida, meu Deus, eu consegui, você é a Salvação! – Nikole segurou o braço de Marcela, com delicadeza.
– A salvação de todos nós...

- O que você está dizendo, eu sou a salvação de quem, por quê?

- Porque... eu vi, sim, eu tive uma visão. O mundo estava mergulhado nas trevas, mas uma mulher dava à luz uma grande luz, e essa luz iluminava o mundo. E a mulher... a mulher tinha o seu rosto, a mulher era você!

- Mas como, eu não entendo, o que você está dizendo...
Nikole a interrompeu, soltando o braço de Marcela e jogando-se de joelhos na frente dela, abrindo os braços para implorar e depois juntando as mãos num gesto de súplica e oração. Seus olhos vermelhos se encheram de lágrimas.

- Por favor, só peço que acredite em mim. Eu não sei como isso aconteceu, nem porque, mas eu sei que a salvação da humanidade está em você, e você precisa vir comigo. – Marcela olhou a mulher ajoelhada, com dó, por alguns instantes, receosa de negar ou aceitar aquelas palavras. Como sempre fazia, deixou que o destino decidisse por ela, e fechou os olhos com uma respiração profunda, esperando alguma resposta do solo ou do vento. Sentiu uma pontada na barriga, um chute forte vindo de dentro, e entendeu. Com um sorriso suave, abriu os olhos e, agachando-se, tocou os braços de Nikole com a mãos, olhou-a nos olhos e perguntou:

- Ir com você para onde?

Surpresa, a outra mulher gaguejou por um instante.

- Ah... eu acho que, para as autoridades daqui, alguém que tenha poder para nos ajudar, seja qual for o tipo de ajuda de que precisamos.

- Está bem. Mas hoje só encontraremos alguma autoridade na casa de concertos. Haverá uma
apresentação de uma orquestra estrangeira aqui na ilha, e todas as pessoas importantes vão estar lá.

- Entendo. Pois bem, vamos até lá então, me leve com você, e eu também a levarei.

- Vamos então. Mas primeiro, qual o seu nome.

- Nikole. E o seu?

- Marcela.

Sorrindo, as duas se levantaram. Marcela foi na frente, conduzindo a outra mulher por alguns caminhos mais curtos. Ela se perguntava que espécie de loucura era aquela em que estava envolvida, e que tipo de salvação representaria. Temia que o filho dela estivesse envolvido, como a visão de Nikole dava a entender, e que isso pudesse representar algum perigo para ele. No entanto, não deixava que esses pensamentos a dominassem, e fazia força para confiar no auspício que o chute de seu nenê representara para sua decisão.

Nikole, ao seu lado, acalmava-se lentamente. Mal conseguia entender como chegara até ali, quanto mais o que estava acontecendo com ela e com a mulher que acompanhava. Mas a visão que tivera fora forte o suficiente, parecia ter brotado do fundo de sua alma, um aviso que caminhara pelos elos entre os espíritos e viera parar em sua mente, vindo talvez – assim ela esperava – das almas de seus filhos que haviam partido. Lembrando-se deles mais uma vez, não chorou porém. Pelo contrário, sorriu e olhou para o céu noturno, crente de que dentre as estrelas eles olhavam para ela, e sopravam-lhe, amorosos, conselhos que atravessavam o infinito.

Lado a lado, as duas mulheres pensavam nos próprios filhos, e rezavam em silêncio para que os filhos do presente tivessem um mundo onde viver.

2. O Capitão observa melancólico a ilha se aproximar. De todos que haviam embarcado em seu navio, poucos ainda estavam vivos, e destes, a grande maioria estava enlouquecida, se entregando a orgias entre si e com a comida e a bebida que ainda restavam. Sempre imaginara que fosse ser assim o fim do mundo, as pessoas se entregando aos seus instintos sem medo do que pudesse vir em retribuição, e um ou outro solitário vagando entre os corpos. Ele conseguira controlar parte da tripulação, e era com eles que contava para comandar o barco. Pergunta-se gravemente se é certo levar o navio até a ilha, ou se seria melhor deixar que ele encontre seu fim ali mesmo. No entanto, o seu arraigado senso de dever o compele a seguir o que lhe cabe, e por isso ajeita os comandos para terminar a jornada.

Em seu camarim, o Maestro também pensa em toda a loucura que tomou conta das coisas. Lembra-se de sua indiferença, pouco tempo atrás, quando declamava poesias e deixava que os outros se preocupassem com o fim do mundo. Agora, porém, as palavras de Eliot o assombram, ficam rodando em seu ouvido, dizendo-lhe como o mundo irá acabar. Obstinado, ele toma mais um gole de seu copo e promete a si mesmo que haverá muito estrondo essa noite, que não permitirá ao seu concerto apresentar nada menos que apoteótico.

O Médico tenta se convencer de que é necessário um pouco de distração. Já passa muito tempo recebendo as notícias do mundo, trabalhando em seu laboratório ao mesmo tempo que milhares de outros cientistas pelo mundo, tentando encontrar, nas anotações de Noah Davis e na história da ciência, algum indício que ajude a encontrar a cura para aquele mal que assolava já todos os continentes. Davis se suicidara há dois dias, o que deixou a todos sumamente chocados, e a este Médico especialmente com asco. Como ele pudera desertar da luta tão facilmente? Como pudera negar dessa maneira seu conhecimento e sua inteligência ao resto do mundo? Parecia-lhe patético. Mas, ele tinha certeza, não seria essa noite que chegaria o fim do mundo. Ele poderia tirar algumas horas para apreciar um pouco de música. Não poderia haver problema nenhum nisso.

Já a caminho da sala de concertos, o Líder reflete sobre a situação da ilha. Tem trabalhado incessantemente para impedir a doença de chegar a essas terras, mas há certas coisas que ela não pode contornar. Fechar ou não os portos? Ele não sabe. Há muitos cidadãos dessa terra fora dela, muitos marinheiros e trabalhadores. Deve impedir-lhes de voltar a ver suas casas? Será que a cura chegará a tempo para impedir esse problema? O Líder reza para que sim. Faz uma prece silenciosa, pedindo discernimento, pedindo tempo. Sim, ele reza e pede que o fim do mundo demore ainda a chegar, que ele tenha mais tempo para fazer o que ainda não fez até agora.

Juntas, elas caminham. Nikole vendo as ruas se esvaziando e enchendo num padrão que ela nota sutilmente, seguindo Marcela até onde poderão encontrar algum político, algum cientistas que tenha alguma noção de por que Marcela é importante. Às vezes, Nikole lança um olhar discreto para os lados, um olhar ansioso mas quase imperceptível. Ela não diz nada, mas sabe porque faz aquilo. Espera ver, de relance, ao seu lado, os filhos que perdeu. Já apagou se sua mente há tempos a imagem do fim de seu mundo, de seus filhos convertidos em monstros. Mas as figuras de seus rostos, se seus sorrisos, essas ainda persistem. Ela olha para Marcela, que decidida vai em frente, e sente um amor repentino por aquela moça, um desejo intenso, mas livre de qualquer malícia. Volta então os olhos, de repente, para os lados, crente de que vai pegar os filhos no meio de uma traquinagem, fazendo cócegas em sua mão ou escondendo-se sob sua saia. Mas não há ninguém ali.

E mais a frente, a Salvação medita. Toda a sua vida esteve na ilha, solitária e comum. Então, depois de engravidar, começou a ouvir notícias sobre coisas que aconteciam lá fora. Hoje, porém, o fim do mundo entrou em sua vida, tomou de assalto seus pensamentos. A criança em sua barriga é filha do futuro, ela tem certeza, é uma criança que dará à luz um mundo novo. Não entende como, isso é verdade. Mas os chutes que de tempos em tempos a criança desfere deixam-na cada vez mais decidida a seguir em frente, junto com a moça que apareceu para ela.
Longe dali, vindo do porto, o Assassino anda pelas sombras. Dentro de seu bolso, a mão encontra o metal frio da arma. Ele demorou para tomar a decisão, mas agora não quer mais voltar atrás. O Líder está indeciso, tomado de sentimentos humanos pelos monstros da vacina. Ele vai ajudá-lo a decidir-se. Substitui-se o Líder, e o próximo tomará as medidas certas para proteger a ilha, o Assassino espera. O homem que ele mais ama está no mar, longe, perdido para ele. E agora será assim para sempre. Ele suporta o impulso de chorar, e segue em frente. Seu dever é esse, sempre foi esse. E será cumprido.

3. Ela dançava na chuva, e a chuva se desfazia ao seu redor. Ela carregava em si um traço não nascido do amor. Pessoas passavam, não percebendo que o mundo ruía. Mas sobre suas cabeças eterna inclemente a chuva caía. A batuta bate na madeira, e se ergue, e dança. Ela rola no ar, e vira e revolta e salta, como uma criança. As bocas se preparam, as mãos se postam, e o espírito: contentes. Os instrumentos inspiram e afundam no deserto de sons: ausentes. Mãos trocam cumprimentos e palmas, a última sonata se aproxima, as primeiras notas irrompem, a batuta vibra, a arma se esconde no casaco, os olhos percorrem o cenário, as bocas descontraem-se de assombro, e lá fora, na chuva, ela ainda dança.

4. O palco já estava armado muito antes que os atores pudessem dar-se conta de seus papéis. No palco principal, desenrolar-se-á o clímax da noite: Ali, onde o maestro Bernard Daniel toca sua seleção de sonatas, encontram-se ilustres convidados, como o doutor José Henrique Pádua, médico e cientista renomado, o senhor Antero Diniz, representante do Estado português na Ilha da Madeira, e outros. Periféricos, a rodear a cena central e aproximando-se cada vez mais, há três grupos de atores. De um lado, esgotado física e emocionalmente, o capitão do Nocturnal Sonata vê o porto de Funchal se aproximar cada vez mais e teme por sua própria vida e pela dos habitantes da cidade. De outro lado, alegres e dançantes, Nikole e Marcela estão quase a alcançar a sala de concertos, crentes de que ali encontrarão a resposta para suas perguntas e por conseguinte a salvação do mundo. Finalmente, também se aproximando dali, o personagem mais misterioso, um assassino de nome desconhecido, um marinheiro vivendo em terra firme, desesperado de medo pelo que pode acontecer a si próprio, a um passo de matar o líder, o governador da Ilha, para que o próximo feche os portos e impeça o Mal de chegar até ali.

O destino de cada um já estava traçado, sem que fosse necessário sequer vivê-lo – quanto mais narrá-lo. O que aconteceu, aconteceu e sempre teria acontecido, não poderia não ter acontecido, sempre tomou lugar. A tragédia é visível e se anuncia com rapidez, muitas vezes antes mesmo de aparecer. Desnecessário dizer, mais uma vez, como o medo do homem o cega, como seu mero existir, mesmo com as melhores intenções, já é suficiente para que tudo dê errado e encontre seu fim precipitadamente. Palavrório. Dizê-lo é desnecessário. Basta presenciar, assistir novamente ao que mil vezes já foi visto, ao espetáculo da destruição, à Tragédia, aos fios que se enlaçam lentamente e encontram seu clímax num mesmo exato e precioso instante. Sim, leitor, você adivinhou o que aconteceria. Somente duas opções se colocavam à sua frente, à medida que a história se estreitava, e você sabia qual delas teria a maior chance de acontecer. Você sabia que mais uma vez o que estava sendo dito era “Como os humanos são, não?”, você sabia que era essa a verdade da desolação, a sombra que paira sobre nós desde o início até o fim dos tempos, concomitantemente, inescapável. Sim, você sabia já de antemão o que aconteceria, e agora basta presenciar:

Nikole, puxando Marcela pelo braço, invade a sala de concertos e corre em direção àquele que a outra disse ser o governador, o que poderia fazer algo com a Salvação. No porto, o Nocturnal Sonata acaba de parar, e na ponte o capitão dá seus últimos suspiros, enquanto todos aqueles seres pálidos, aqueles monstros, pulam na água e nadam pateticamente em direção à terra firme. Sentados lado a lado, o médico e o líder ouvem as notas belíssimas, aquela expressão indizível do gênio humano, e lamentam que tudo aquilo esteja fadado ao fim. De seu pedestal, o maestro rege, quase apaticamente, a orquestra, e sente suas forças o abandonando, sua esperança e sua motivação para conduzir aquela explosão de sentimento se esvaindo, evaporando pouco a pouco no ar rarefeito do mundo pálido. Também invasor, o assassino só não faz mais estrondo que as duas mulheres, que mais rápidas que ele jogam-se aos pés do líder, o espantam, chamam a atenção do maestro, interrompem a música, gritam ao médico, elevam as pessoas das cadeiras, assustam o outro invasor e recebem no peito as balas precocemente disparadas em direção ao homem a quem imploravam enquanto as últimas vibrações dos instrumentos silenciando-se apagam-se sepultando toda a esperança e toda a salvação e anunciando por fim a morte do Mundo e de todos os que nele vivem.

FIM
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sonata noturna [9]

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Fúria (9/10)


Por Pudim (e Tuma)
Foto: Guilherme Carnaúba

No apartamento silencioso o maestro Bernard Daniel lia poemas proclamando-os a quebrar o silêncio em alta voz que se derramava e ressoava nas paredes criando assim um agradável ambiente de poesia rarefeita misturada ao ar frio do recinto. Sobre a mesa de centro vários livros se espalhavam Leaves of Grass Whitman tão poderoso e as obras completas de Emily Dickinson Robert Frost Yeats Auden Shelley e outros cujos nomes se haviam tornado menos célebres para a posteridade.

Lia com especial interesse poemas de dois livros. No primeiro se lia em grandes letras na capa o nome Macbeth sustentado abaixo pelas letras que indicavam sua autoria e no segundo o genérico título Poems era seguido por um pomposo T.S. Eliot escrito em letras brilhantes.

Se ao ter o primeiro em mãos lhe perguntassem que poema estava lendo ele objetaria e diria ser aquilo uma peça, com personagens e falas, mas uma linguagem tão mágica e idéias tão brilhantes que só o proclamá-los já os fazia ganhar vida. Quanto ao segundo, possuía instantes de estranheza, versos quase espasmos, frases insondáveis que escondendo um mistério irrevogável revelavam uma verdade intransigente. Seus gestos teatrais e voz grave encaixavam perfeitamente com os textos que lia e a solidão que o rodeava.

"Tomorrow and tomorrow and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day

To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools

The way to dusty death. Out, out, brief candle!

Life's but a walking shadow, a poor player

That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing."


[“Amanhã e amanhã e amanhã,
Dia a dia se escoam de mansinho,
Até que chegue, enfim, a última sílaba do livro da memória.
Nossos ontens para os tolos deixam clara
A estrada da empoeirada morte. Fora! apaga-te,candeia transitória!
A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico
Que se empavona e agita por uma hora no palco,
Sem que seja, após, ouvido: é uma história
Contada por um idiota, cheia de som e fúria,
Que nada significa.”]

E então pára, sem fôlego e sem reação para os pensamentos que lhe invadem a mente. Larga o livro e toma o outro, percorrendo suas páginas freneticamente, até encontrar algum indício que contemple sua angústia, as palavras que ele sempre persegue.

“This is the way the world ends

This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.”

[“Assim o mundo termina,
Assim o mundo termina,
Assim o mundo termina.
Não com uma explosão, mas com um suspiro.”]

Após a leitura em êxtase, ele respira e descansa. Seu grande dia está chegando, a apresentação com a orquestra, sonatas de Mozart e Beethoven executadas com maestria para uma platéia ilustre. As notícias do Mal que assoma os que tomam a vacina da AIDS não o preocupam, aquilo não lhe diz respeito. Amanhã toma o avião, e logo estará em Funchal. Amanhã, amanhã, amanhã...

*** *** ***

Dia após dia, surgia um novo alguém tomado pela doença pálida no barco de Nikole, e seu medo de ser a próxima crescia à medida que diminuía o número de pessoas no barco e eles seguiam para o norte.

*** *** ***

Nos porões do Nocturnal Sonata, haviam surgido mais vários infectados. O capitão tentou intervir, mas logo desistiu. Pensava em chegar à Ilha da Madeira – a tripulação e os passageiros haviam recebido com alegria a notícia de que a vacina nem passara por lá antes do surto do Mal – desembarcar os passageiros e manter os outros em quarentena enquanto se comunicava com o governo, mas não deu tempo. Fazendo dois dias que estavam presos lá embaixo, os primeiros descorados surgiram, e atacaram violentamente os que estavam ao redor. Foram parados e mortos, e o capitão os atirou ao mar, mas no dia seguinte surgiram duas vezes mais infectados, e antes da noite todos ali já haviam se matado. A carnificina era horrível, e o capitão lacrou todas as entradas como medida de segurança, além de ficar ele próprio e alguns de seus imediatos isolados temporariamente do resto do navio.

*** *** ***

Leo passa os dias no laboratório, rezando para encontrar alguma esperança. O Mal ainda não o atacou, e isso só o enche mais de culpa. Provetas, ampolas, béqueres dançam de um lado para o outro em suas mãos, o microscópio é requisitado a todo o instante, mas seus experimentos só o levam a becos sem saída, a conclusões inúteis, fechadas em si mesmas.

Hoje mais uma vez ele se isola, e diletantemente retoma suas atividades, um pouco desajeitado. Acordou suando na cama, com dor de cabeça, mas nem cogitou ficar em casa. O laboratório é sua única casa, agora, sua única opção. Mas continuar sua pesquisa está exigindo muito de seu corpo. Seus braços estão doendo, a cabeça parece prestes a explodir, sua visão se turva por um estante, uma proveta escorrega de sua mão e se espatifa no chão, tudo a sua volta escurece e se torna negro...

*** *** ***

Aconteceu de repente. Pessoas caminhando nas ruas, preocupadas com seus afazeres diários, já esquecidas do Mal que a tal vacina da AIDS trouxe para o mundo. Até mesmo na África, dizem os noticiários, o surto de violência foi contido: agora uma investigação será feita, ela é necessária, mas não há pressa. Um dos que andam na rua é um detetive da polícia científica, ele esteve dois dias atrás em contato com corpos dos afetados pelo Mal, para tentar averiguar o que aconteceu com eles, mas agora sua mente passeia livremente sem se apegar a nenhuma preocupação. Quando ele pára no meio fio para atravessar a rua, as listras brancas da faixa de pedestres saltam brilhantes sobre seus olhos. Ele recua um passo, assustado, e subitamente sua cabeça começa a latejar com força. Dá mais um passo para trás e cai no chão, agora já gritando da dor que esmaga seu corpo por dentro. Sua pele começa a embranquecer, seu corpo começar a verter sangue como suor, de sua fraqueza surge sem explicação uma força, um impulso violento, uma fúria que o leva a atacar pessoas desesperadas ao seu redor.

Em todo o mundo, cenas semelhantes acontecem. Os que tiveram contato próximo com os infectados, os pálidos, de uma hora para a outra se tornam como eles, e o Mal se espalha, furioso, destruidor, inclemente, impossível de ser parado. A palidez e a violência, num átimo, se tornam piores do que jamais haviam sido, e avançam com as garras erguidas sobre a pobre humanidade.

*** *** ***

Enquanto acompanhava as terríveis imagens dos massacres e dos combates promovidos pelos pálidos, Noah engatilhou sua arma e a virou de frente para si, disposto a encará-la uma última vez. Com alguma dificuldade, suas mãos tremendo, ele aproximou o cano do revólver de sua boca, e o introduziu ali, o aço frio roçando em seus lábios. Fechou os olhos, apertou-os com força. Não queria ver o que seu gênio criara, não queria ver o que ele destruiria. Puxou o gatilho sem esforço, logo após respirar fundo, e seu fôlego se espalhou pelos ares. A bala encontrou sua espinha no meio do movimento dos pulmões, e os deixou impedidos, incompletos, um movimento que, pela única vez na vida de Noah, foi só de subida. Sem forças para enfrentar sua própria criação, ele recorreu a uma força maior que a sua, e suando frio saltou no abismo.

*** *** ***

Já não era possível diferenciar os vivos, os pálidos e os mortos no barco ensangüentado, e as consciências aninhadas nos corpos se desintegravam lentamente, num processo de fusão com o sangue e o horror. Nikole saltou no mar para fugir de seus agressores, já não sabia se os acusava de pálidos violentos ou vivos impiedosos, e começou a nadar, rápido, braçada após braçada, ofegando e tentando não deixar sua mente derivar e acabar afundando, de pesada. Mordendo a língua para pensar só na dor, ela nadou por muito tempo até encontrar a praia.

Longe dali, Leo gritou, um grito surdo que mais pareceu um pedido de socorro, ou de perdão. A escuridão voltou, e sumiu, e então voltou e sumiu de novo, e então cada vez mais rápido, no instante de uma expiração, para no fim desaparecer definitivamente e dar lugar ao branco final que tomou os olhos de Leo e o jogou para além da morte.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Sonata noturna [8]

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Noite (8/10)


Por Pudim (e Tuma)
Foto: Bruna Pimenta


A ganância ainda vai destruir o mundo, filho, disse o pai para o menino de olhos arregalados e nariz escorrendo sentado no assoalho frio da pequena casa que a família alugava do mais poderoso dono de terras da região. As galinhas corriam e cacarejavam de olhos arregalados ao redor dos dois o sol fustigava a poeira havia uma meia luz envolvendo tudo um calor que aderia à pele um cansaço de fim de tarde e fim de semana suportado pela suposta leveza de uma manhã de terça-feira.
Os homens querem todo o ganho para eles, e não sabem dividi-lo com os outros, o pai agarrando seus ombros olhando bem fundo em seus olhos, tentando achar ali algum resquício de malícia. O garoto permanecia quieto, sem piscar, olhos erguidos para o rosto enorme feito pedra daquele homem grande e firme que sempre chamara de pai.
Leonardo, você está me ouvindo? Sim ele estava. No carro ao volante girando e volvendo e revolvendo e entrando pelas ruas e singrando avenidas caóticas ele ouvia de novo e de novo as palavras do pai e não sabia se sentia-se bem ou mal por tudo o que fizera. Decidiu-se pela dúvida.
Dissera a Noah logo que este lhe contou que iria deixar as patentes para ele. Primeiro sentiu-se feliz mas logo depois os olhos do pai apareceram à sua frente e sua consciência estremeceu e ele percebeu que enorme chance era aquela de cumprir sua missão na terra. Iria abrir a patente, deixar que a vacina fosse produzida no mundo todo livremente, alcançar a todos os doentes livremente.
Agora imaginava se aquilo não havia destruído tudo. A patente aberta, alguém poderia ter incluído no processo um jeito de um incluir algum agente nocivo que não fosse perceptível. Mas seria mesmo? Noah afirmava que o mal estava na própria vacina, mas para Leo qualquer opção era terrível... o que contava a favor da tese do colega era que Leo, assim como as outras cobaias, não haviam desenvolvido ainda nenhum dos sintomas do Mal. Mas ele estava com medo, e ansioso.
Ele tentava noite após noite descobrir o que no que haviam criado poderia causar aquilo, ou que tipo de vírus, bactéria ou aberração poderia causar aquele efeito horrendo nas pessoas. Mas ele não encontrava. Noite após noite, Leo tentava e não chegava a lugar algum, e as palavras de seu pai, sempre as mesmas, continuavam a ressoar em seus ouvidos, um sussurro baixo e insuportável que parecia sugerir que o significado do que aquele velho lavrador dissera era muito diferente do que Leo sempre imaginara.

*** *** ***

Nikole se recolhera num canto do barco, os dedos ferindo-lhe as mãos de tanto apertar, os dentes tremendo e batendo, olhos olhando frenético para os lados, com medo de que alguém a tomasse por descorada sob a luz plácida da lua cheia.

*** *** ***

Noah recebera a visita de um agente do governo aquela tarde. Ele dissera que por enquanto a versão oficial era mesmo algum tipo de ato terrorista, as vacinações já haviam sido suspensas no mundo todo. Alguns governos estavam loucos para acusar o país de espalhar a vacina pelo mundo, mas ele não precisaria se preocupar, o mais importante era que ele descansasse e ficasse em segurança. Uma junta de pesquisadores já estava empenhada em monitorar os infectados e descobrir se havia outras maneiras do agente nocivo ser transmitido além na inoculação. Quando ele foi embora já era noite, e Noah ficou bebendo e rindo sozinho, pensando em como a opinião do governo, e do mundo, era a menor de suas preocupações.

*** *** ***

As festas no Nocturnal Sonata atravessavam madrugadas, e os passageiros remanescentes entregavam-se aos bacanais impetuosamente. Os que haviam tido mais contato com os infectados permaneciam isolados, mas só a tripulação se lembrava deles. Os outros passageiros festejavam noite e dia, enchendo os corpos de álcool e outras drogas psicotrópicas para apagar qualquer resquício, qualquer lembrança de que havia um mundo agonizante lá fora, e de que ele havia penetrado no paraíso deles, e de que eles o haviam purgado sem piedade, afundando-o à força na mortalha do mar.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Sonata noturna [7]

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Profundezas (7/10)


Por Pudim (e Tuma)
Foto: Bruna Pimenta


Notícias da África chegavam a todo instante, os passageiros sabiam, mas pouco se preocupavam, para que ligar para o continente amaldiçoado? Já há tantos séculos eles estavam esmigalhados sob os pés de suas sinas que esse talvez fosse o último evento que restava para acabar de destruí-los e dar lugar a novos usos para a terra ora amaldiçoada por sua presença.
Ainda assim, eles precisavam saber. Havia alguém no navio que recebera a vacina ou...? Não, se afastaram das costas do continente, poderiam parar no Brasil para abastecer, lá haveria segurança. Assim como em todo o mundo civilizado. Sim, as nações do pôr-do-sol haveriam de conter esse horrível ato certamente terrorista perpetrado pela tal vacina maldita. O último suspiro numa dose e agulhada. Brasil estaria bem, abastecer, não muito mais, o navio é ótimo, o que era realmente importante... isso, continuar a viagem, atravessar o Atlântico, abastecer no Brasil, sair de lá bem rápido, passear pelo Caribe e, ai, aproveitar um esplêndido concerto em Funchal.
Mas ainda assim, eles queriam saber. Havia alguém no navio que recebera a vacina ou...?

*** *** ***

Noah tentava encarar seu fracasso como encarava o copo de bebida à sua frente. A imagem do vírus se espedaçando parecia-lhe curiosamente irônica agora, uma imagem definitiva do que ele trouxera para o mundo. Leo tentara convencê-lo de que houvera alguma modificação, de que alguém sabotara a vacinação, mas era inútil. Ele se lançara numa busca obsessiva para descobrir porque a vacina estava fazendo aquilo com as pessoas, transformando-as lentamente em bolhas quase sem vida, por vezes violentas, enquanto aqueles à sua volta fugiam horrorizados. Mas era inútil. Noah fracassara, e sabia disso. Agora teria de se explicar em frente ao mundo, quando viessem cobrar dele a culpa por aquilo tudo, quando viessem julgá-lo. Isso se ainda houvesse mundo após aquele surto de palidez e violência passar. Mas Noah não acreditava que fosse passar. Sua experiência lhe ensinara que a palidez e a violência eram como a entropia: recrudescentes, inexoráveis. E o fato de que ele trouxera ao mundo aquele juízo era mais insuportável que qualquer julgamento. Procurando dessa vez retirar de sua mente a culpa cada vez maior que ali se desenhava, olhou de novo para o copo, e o levantou com seus rodamoinhos, e deixou sua mente afundar ali completamente.

*** *** ***

Boris saía pouco de sua cabine, sempre sozinho, mas as passagens não eram para dois? Alguns passageiros que ele conhecera entre drinques no bar começaram a perguntar “Mas e sua mulher, está viajando com ela não?” “Ela não está se sentindo muito bem.” “Leve-a à enfermaria do navio.” “Acho melhor não, ela prefere tratamentos aos quais está acostumada, mais caseiros sabe? Coisa da mãe...” Rápido os conhecidos voltavam os olhos para o copo e bebiam de um só gole buscando tirar da cabeça as desconfianças que pareciam rodopiar cada vez mais fortes à frente de seus olhos.
E na cabine, Eva Norton, sua mulher, empalidecia pouco a pouco.

*** *** ***

Os pais de Érica, por sua vez, ficavam fora da cabine o tempo todo. Haviam arrastado a filha para aquela viagem, totalmente contra a vontade da voluntariosa menina, ainda chorando pela morte da amiga. Eles tinham medo. Quando alguém perguntava dela, desconversavam. Às vezes traziam-na para fora, para mostrar aos outros a filha branca e apática que tinham, toda coberta de badulaques que só faziam assomar ainda mais sua brancura, em contraste. As pessoas da piscina começaram a cochichar, os pais ficavam constrangidos pelo silêncio da menina, envergonhados de se mostrarem tão incapazes em público, e horrorizados de medo de alguém desconfiar que ela, a filhinha tão querida, poderia estar com aquela doença macabra, a doença que deixava tudo branco, transparente, até desaparecer.

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Nikole viu o transatlântico passar ao longe com seu binóculo e avisou ao resto das pessoas do barco. Alguns quiseram ver com os próprios olhos, a nu só enxergavam um borrão no horizonte, e o binóculo passou por várias mãos até escorregar entre braços que tentavam alcançá-lo impacientes e cair no mar. Agora o navio não era mais visível. A mulher se afastou da amurada e foi se encostar na parede da pequena cabine. O barco era de um tamanho médio, mas tornara-se minúsculo para todas aquelas pessoas. Um homem grande sentou ao lado de Nikole, e com ele uma mulher magra, três garotas e um casal de velhos. A mulher se apoiava no ombro do marido, como dormindo. Nikole, apertada pelo acúmulo de pessoas à sua volta, olhava aquela cena e se lembrava de seu marido, morto recentemente. E dos filhos, empalidecendo, se atacando e sangrando. Já superara em parte o choque inicial, mas os olhos e os dentes de suas crianças, a agulha lhes furando a pele, as mãozinhas se agarrando, a pele sendo rasgada... mordeu os lábios para não chorar, mas acabou derramando algumas lágrimas, que logo secou com o antebraço, não querendo chamar atenção.
Tornou a olhar para o casal de velhos, eles pareciam tão carinhosos um com o outro. E sol forte refletia na água e tornava tudo difuso, o toldo que cobria a maior parte do barco parecia gasoso, as pessoas andando pelo convés eram só sombras, o suor de todos que se espremiam evaporava rapidamente e espalhava um odor forte por todo o barco. Palavras ditas e gritadas se confundiam com o barulho das ondas, a languidez tomava os sentidos de assalto, a tristeza demolia as últimas tentativas de resistência, o horror ocupava os corações e mentes vazios... a sombra de um pássaro grande veio do céu e cobriu todos com seu olhar, esquadrinhou as cabeças mais inóspitas, os erros mais férteis, e fez ninhos atrás das orelhas de cada um, roçando de leve as peles com suas penas e fazendo cócegas...
Nikole despertou de seu transe e viu o homem grande que se sentara ao seu lado gritar com o casal se velhos, outros se juntaram a ele, uma das garotas apontou para as outras duas que se sentavam a seu lado, ouviu-se imprecações e acusações, pessoas que estavam sentadas se levantaram, pessoas que estavam deitadas permaneceram assim, braços se ergueram, homens mulheres e crianças descorantes clamaram por piedade de joelhos, as pessoas deitadas continuavam deitadas, quando na verdade estavam mortas, e assim todos foram agarrados e com barulho e ranger de dentes jogados ao mar e espancados com os remos.

*** *** ***

Eles iam descobrir mesmo, mais cedo ou mais tarde, disse o pai à mãe horrorizada. Eu não agüentei o olhar de desconfiança deles sobre mim, eu não agüentei me perdoe... palavras interrompidas por um sonoro tapa continuaram jorrando junto ao choro mas foram logo caladas pelo estrépito de passos e gritos que irromperam junto à cabine. A mulher tentava tirar a filha da inércia, inutilmente, e o pai continuava lamentando e chorando debilmente. Não demorou e a porta foi arrombada a mãe clamava por piedade mas a empurraram e ela caiu e desmaiou enquanto o marido observava tudo com os olhos arregalados.
Em várias cabines pelo navio, acontecia o mesmo. O primeiro caso confirmado de palidez gerou uma onda de histeria que acabou por formar vários grupos de patrulha a rondar pelos corredores e arrombar portas e revistar quartos e fazer interrogatórios para depois agarrar os contaminados e levá-los para fora. Alguns corados tentavam interceder a favor dos doentes, o comandante pensou em tentar conter o surto com armas, mas parte da tripulação se havia voltado contra os descorados. Sugeriram isolamento, quarentena, cárcere, abandono em botes, mas o desespero falava mais alto não podiam prescindir dos botes não podiam arriscar uma fuga não podiam arriscar a contaminação. O não-preocupar-se hipócrita dera lugar definitivamente à paranóia que se havia desenvolvido silenciosamente no interior das almas de todos.
Durante a noite os primeiros foram jogados ao mar, e nos dias seguintes muitos mais encontraram seu fim nas águas geladas.

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O mar, como sempre fizera, recebeu indiferente seus mortos, e cada corpo e consciência que quebrava sua superfície era engolido por um torvelinho e afundava até as profundezas.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sonata noturna [6]

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Partida (6/10)


por Pudim
Foto: Bruna Pimenta


Para quem vem da Namíbia, alcançar a África do Sul é um alívio. Nikole e seus acompanhantes, porém, ainda estavam longe do fim do Kalahari e do começo das florestas subtropicais. A paisagem não sugeria nada positivo, mas os peregrinos, há muito acostumados com o deserto, animavam-se pela esperança de serem resgatados por um transatlântico.
“Para qual praia estamos indo?”, alguém perguntou.
“Aqui não diz nada”, Nikole respondeu, e sugeriu, “vamos tentar as mais famosas”. Todos demonstraram compreensão.
Nikole esperava que a travessia do deserto durasse dois dias, mas durou vinte e cinco. Por sorte, um viajante os indicou, ainda no começo, as referências para localização de oásis. No vigésimo sexto dia, estavam parados no porto da Cidade do Cabo. Escondidos da mesma confusão encontrada em Windhoek, só que em proporções maiores, procuravam um nome específico, em meio à floresta de mastros e à desolação dos barcos abandonados do porto.
“O Nocturnal Sonata não pararia aqui. Estava escrito ‘praias isoladas’, não acredito que ele viria à baía mais movimentada da África do Sul.”
“Segundo meus cálculos, ele viria exatamente aqui. Para abastecer.”
“Eles já devem ter sido alertados sobre a confusão na cidade, não vão aparecer por aqui.”
“Esperem. Vocês já perceberam o quanto é ridículo o que estamos fazendo? Qual é a chance de não termos perdido a viagem do Nocturnal Sonata? Como podemos saber quando ele ia parar aqui? E, enquanto isso, temos um monte de barcos parados a nossa disposição. Vamos pegar um desses barcos e procurar ajuda, ou simplesmente fugir deste continente amaldiçoado!”
Ninguém sabia navegar, mas logo alguns infectados os compeliram facilmente a executar o plano sugerido. Em pouco tempo, a turba contaminada que os observava se transformou em formiguinhas distantes, e o grupo de leigos se transformou em hábeis marinheiros. Eles agora assistiam ao lento desaparecimento da África de diante de seus olhos, com exceção de Nikole. Ela assistia, com binóculos, ao lento aparecimento de duas palavras tão esperadas em um transatlântico.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

Sonata noturna [5]

Partilha (5/10)


por Pudim (e Tuma)
Foto: Guilherme Carnaúba

Mais uma vez tenho bons motivos para odiar a minha condição. Os superdotados não são deuses, como o mundo quer fazer crer. Não, nem mesmo os que descobrem a cura da AIDS. Não somos os seres mais sortudos do mundo, nem os mais felizes, nem mesmo os mais capazes. Não.
Somos só alguém que alcançou uma condição desejada mais rápido ou melhor que os outros. O Leo vai ficar com todo o dinheiro da patente. É pra isso que os superdotados servem. Apenas uma mina de ouro. E glória. Mas só fico com a glória, dessa vez.
Obrigado, Leo, por me dar a chance de ficar perigosamente irritado o suficiente para mostrar que eu penso e sinto, como vocês simples humanos.

*** *** ***

Ele recebeu com certa surpresa o presente, recebeu com uma certa alegria surgindo de repente sem controle, recebeu com horror... Disse o que pensava para o dr. Davis, disse o que pensava e deram-se as mãos, e rezaram para que a cura alcançasse o maior número de pessoas. Depois se separaram e Leo fez o que tinha de fazer.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sonata noturna [4]

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Efeitos (4/10)


por Pudim
Foto: Bruna Pimenta


A mulher namibiana que acabava de perder cinco filhos ainda estava em estado de choque, mas já fora levada para a calçada. O resgatador, irritado, tentava salvar a vida do sexto, com generosidade incompreensível.
Mas era inevitável, o pequeno empalidecia assustadoramente, como se o sangue estivesse sendo sugado por alguma máquina invisível. Nikole olhava e desviava os olhos, não demonstrando, com isso, tristeza e nem desespero. Demonstrava que ainda não tinha aceitado a situação, ou estava enlouquecendo. Ou simplesmente observava o mesmo evento acontecendo a outras mães que saíam do posto de vacinação infantil.
Enfim, o garoto definhou e desfaleceu, e Nahas, o resgatador, se voltou para a mãe.
Insinuou que mostraria uma propaganda impressa de um transatlântico, mas não encontrou condições para fazer mais nada, e apenas arrastou Nikole e quem estivesse no caminho para um refúgio desconhecido. Ninguém sabia do que se tratava, porém ele seguia decidido.
Por isso, pareceu assustado quando outra criatura violentamente anêmica, dessa vez muito maior e mais encorpada que ele, o segurou fazendo-o tropeçar. Nahas se esborrachou pesadamente no chão, usando uns bons metros de calçada para isso. Nikole quis retribuí-lo pela tentativa de resgate do seu pequeno. Tudo o que conseguiu, no entanto, foi receber dele a propaganda do Nocturnal Sonata, entre socos, dentadas, puxões e chaves de braço.
“Veja o itinerário, talvez dê tempo de alcançar o navio na África do Sul!”, ele berrou, já quase dominando o infectado que o atacara. “Corra! Esse vai morrer logo, mas se você continuar aqui, haverá outros!”
Assim Nahas apareceu e desapareceu, deixando com Nikole sua bênção.

*** *** ***

Érica recebeu a notícia da morte da amiga por celular, segundos após ela ter ocorrido. Era a primeira na lista de chamadas recentes no aparelho de Alice. Alice também apareceu entre as primeiras vítimas de uma adulteração supostamente terrorista na vacina da AIDS, durante o telejornal da noite.
A companheira de infância costumava se mostrar forte em situações assim, e não fez diferente dessa vez. Se não tivesse suplicado ardentemente para ficar com o desenho que levara seu nome, os pais de Alice diriam que ela não se importava com a perda. Os de Érica, porém, sabiam o que ela escondia por conveniência. Fizeram, então, os planos para uma viagem memorável em família. Não esperando que a jovem se divertisse e esquecesse de tudo temporariamente, apenas que tivesse um tempo para se recuperar.

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“Amor, estou me sentido meio estranha.” .

sábado, 17 de janeiro de 2009

Sonata noturna [3]

Publicidade (3/10)

por Pudim
Foto: Google

Transatlântico Nocturnal Sonata – Descubra o Novo Mundo!

Se você sempre sonhou em viajar num navio como os da História, porém com o conforto e as facilidades de hoje em dia, Nocturnal Sonata é a sua melhor escolha.

Com um estilo nostálgico, desenho feito em homenagem aos antigos navegadores e decoração memorável, Sonata exibe um ambiente agradável e glamouroso, aliado à tecnologia e à praticidade.

A nau conta com cinco restaurantes temáticos; serviço 24 horas de lanchonete nas cabines; quatro piscinas, incluindo uma com teto retrátil, uma com toboágua e uma infantil; solários; oito jacuzzis; quadra esportiva com arquibancada; shows; teatro; sauna e banho turco com vista para o mar; onze bares internos e externos; discoteca teen e discoteca adulta; cassino com roletas, pôquer, caça níqueis e blackjack; e muito mais.

O roteiro desta temporada está impecável: partindo de Lisboa, o Sonata descerá para os paraísos escondidos do arquipélago de Cabo Verde, fará uma parada para passeios nas praias isoladas da costa oeste da África do Sul, outra no Nordeste do Brasil, para festas e passeios, e ainda várias paradas no Caribe. Em seguida, atracará para um grande concerto em Funchal, antes de dirigir-se para o ponto final, Miami.

Em sua cabine, nas piscinas ou em qualquer compartimento você se sentirá parte da realeza, e sua diversão e descanso estarão garantidos.
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sonata noturna [2]

Sorte grande (2/10)

por Pudim
Foto: Bruna Pimenta



“Quem teve a sorte?”, assim Boris saudou sua esposa na mesma noite.

“Eva Norton, estagiária da CNN de Londres.” A esposa abriu orgulhosamente um sorriso e os braços, logo unidos ao redor do marido.

Ele já imaginava que fosse aquela a resposta. Mesmo assim, não podia esconder a surpresa pelo feito da mulher. Não muito depois de Leo Harris exceder as expectativas de seus professores com a vacina, foi contar a notícia à amiga dos tempos do colegial. A estudante de jornalismo tratou de planejar e apresentar uma imponente matéria sobre a em breve disponível cura e prevenção para uma síndrome que já dividira países. Graças à equipe eficiente da própria emissora, a matéria ficou pronta e foi ao ar em poucas horas. Eva Norton, a estudante de jornalismo, seria recompensada generosamente.

Após os primeiros instantes de comemoração, a esposa de Boris repousou os braços sobre o peitoril da janela, a cabeça sobre os braços e os olhos sobre o quintal. Estava feio.

“Amor, o jardineiro não ia vir hoje?”

“E veio. Ele ficou um bom tempo mexendo nas plantas da sala e, de repente, atendeu o celular e disse que precisava sair para um emergência.”

“Chame de novo amanhã, temos que deixar o jardim bem bonito para viajarmos. No que você pensou?”

Boris testava sua criatividade, buscando escolher um destino não muito insólito para a viagem de comemoração. Observar a lava encontrar o mar no Havaí, visitar cidades arruinadas e selvas na África, conhecer o templo esculpido na pedra, na Jordânia, e Jerusalém na mesma viagem fora uma experiência memorável, mas algo parecido era incogitável. Antes, já até haviam passado as férias como oblatos num templo budista. Era hora de mudar um pouco a rotina anual. Precisava de algo mais confortável.

“Em um transatlântico”, foi o melhor que conseguiu.

“Boa idéia!”, Eva pretendia comentar a escolha, mas não o fez. Lançou-se aliviada no sofá e, não muito tempo depois, começou a recobrar a energia investida em um dos dias mais cansativos de sua vida.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Sonata noturna [1]

por Pudim
Foto: Bruna Pimenta

O último teste (1/10)

“Vamos, benzinho, acabe com eles!” Noah Davis conversava com a lâmina de vidro, apoiado sobre o microscópio. “Leo, coloque no telão.” O assistente ativou a iluminação do microscópio digital, ligou a câmera e estendeu o painel branco apressadamente. Os dois estudantes examinavam emocionados o temível e minúsculo organismo se estrebuchando, colérico, temeroso por sua sobrevivência. E o princípio misterioso despedaçava sua membrana, proteína por proteína, triunfando na batalha ínfima e colossal.

“Conseguimos! Veja só, o HIV está morto! Obrigado, Leo, só você acreditou em mim!” O promissor farmacêutico abraçava energicamente o colega de quarto. “Parabéns, Davis”, ele respondeu, um pouco desconcertado.

“Obrigado, mas ainda falta um último teste. Já testamos em ratos, em macacos, em sangue humano, mas ainda não aplicamos a vacina no seu destino efetivo”, observou, com olhar convidativo. “Você se dispõe?”

“O que pode dar errado?”, compreendeu, com um sorriso ansioso. Talvez fosse sua última chance de ser curado – a doença é imprevisível. De fato, Leo sabia que não tinha nada a perder. Por isso, foi com ânimo que compareceu ao Laboratório Central da faculdade para injetar em si mesmo o específico salvador. E foi com ânimo que esperou uma semana pelos resultados da vacina. Com ânimo fez os exames finais.

E com um ânimo muito singular, e o rosto irrigado de lágrimas, e agradecimentos inefáveis a Noah Davis, e uma determinação inexorável, esfregou o resultado negativo na cara de seus professores.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sonata noturna [0]


por Pudim


Prólogo – Vacinação (0/10)

Da banqueta de espera, Nikole observava mais um filho recuar diante do palitinho agudo ameaçador decidido a ferir-lhe a pele, abrindo caminho para as vias sangüíneas, onde lançaria a cura para a doença aguda ameaçadora que compensava aquela angústia. Aprumou-se e consolou o lamentoso descendente, que concordou em receber a infusão ali, retraído no abraço da mãe. Então tornou ao assento e à sua languidez entediada, incompatível com o dia esperançoso e agitado em Windhoek. E o ritual se repetiu por seis vezes.

*** *** ***

“Vamos, Boris, antes que as filas fiquem longas demais.”

“As filas já estão longas demais. Sempre estão longas demais. Senão não são filas.”

“Que jeito estranho de dizer ‘não estou a fim’. Eu estou indo, não vá deixar para a última hora.”

“Você vai dirigir? Não acabou de beber uísque?”

“O posto é aqui perto, vou a pé.”

“Não demore.”

Assim, com um ligeiro beijo e um aceno desanimado antes de fechar a porta, Boris Norton escapou da infecção aterrorizante que afligiria toda a Terra e especialmente sua esposa nas semanas seguintes.

*** *** ***

Alice rabiscava habilmente suas idéias mais inovadoras num caderno amarrotado miserável, o ombro recostado no de Érica. Esta assistia habilmente às notícias mais inovadoras da CNN International, na verdade praticando seu inglês.

“Será que com essa história de cura para AIDS a ajuda internacional para a África vai continuar?”

“Quê?”, a desenhista disfarçou instintivamente a indiferença com a língua entre os dentes.

“Veja só, o inventor da vacina da AIDS vai tomar a injeção em rede internacional. Não acredito que estou contribuindo com minha audiência para um programa assim”, resmungou, desligando o aparelho e voltando-se para a amiga. Alice, notando a admiração que o esboço concentrava, lançou o caderno em rodopios sobre a cama.

“Meu projeto para a exposição. Vai se chamar ‘Érica’

Ela sorriu.

“Mas que honra. Você vai ao posto agora?”

“Eu vou, você fica; estou esperando minha mãe ligar aqui pra vir me buscar, mas não posso voltar para casa sem a cura milagrosa. Tudo bem?”

Érica demonstrou compreensão com um aceno.

*** *** ***

Durante a travessia de uma avenida das mais apinhadas de Windhoek, Nikole, que até então manejava com certo controle a prole, não conseguia fazer uma das crianças se mover. Impaciente, berrou o nome do filho, e sua voz se sobressaiu às buzinas, vozes e motores ruidosos. O garoto reagiu com agressividade atípica – abocanhou o braço da mãe decididamente, a ponto de espalhar algumas marcas de sangue na roupa dos dois. Foi logo correspondido com um murro violento na bochecha esquerda, e se acalmou. Nikole não teve tempo, no entanto, de fazer o mesmo ao restante das crianças. Apenas apreciava com desespero o espetáculo frenético de cinco pequenos meninos se arrebentando, atirando amostras de sangue estranhamente rosado sobre o asfalto cheio de marcas de recapeamento.

E o semáforo abriu e os carros buzinaram e Nikole não se moveu e os carros avançaram e as pessoas gritaram e os garotos morriam. E a mãe fugiu dos filhos.

Não tinha a noção de que muitas pessoas, em diversos lugares, viviam experiências notavelmente semelhantes.


Foto: Bruna Pimenta