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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XX - Epitáfio

por Pudim


Não foi difícil convencer os fujões de que era tudo parte do jogo. O organizador tinha tomado o cuidado de criar enigmas semelhantes e aplicá-los aos que não estavam entre os três times para esse fim. Aguardamos pacientemente que tudo terminasse. Como imaginávamos, nenhuma equipe conseguiu completar todos os desafios.
Os alunos deixaram o Palácio com comentários positivos e perguntando sobre a data de um próximo evento como aquele. Todas receberam respostas parecidas.
“Estamos vendo isso”, “talvez em breve”, “não esperávamos que fizesse tanto sucesso”, e demais variações.
O possível Segundo Desafio Brainstorm seria um dos assuntos da reunião na Biblioteca Lewis.
“Por que o Kevin?”, Anderson iniciou-a sem cerimônias.
“Havia quinze respostas possíveis. Ele só foi o primeiro a perceber que queríamos garantir a geração seguinte de pesquisadores – ou seja, herdeiros – do Palácio Vitral.”
“E isso lhe garante algum poder?”
“Inevitavelmente, Ivan.”
Continuaram discutindo por certo tempo, mas apenas Anderson prestava atenção. Todos os outros só pensavam nas oportunidades, nos planos e nas responsabilidades que teriam ali.

De fato, aproveitamos bem as responsabilidades, planos e oportunidades em muitos anos seguintes. Demos nossa contribuição; o Palácio voltou a ficar agitado. A segunda edição do jogo saiu em quatro anos, e selecionamos alguns novos participantes que se juntaram com disposição ao projeto.

Mas a humanidade foi capaz de enterrar permanentemente mais um de seus preciosos tesouros. Vinte e três outonos após a retomada de sua atividade, a construção colossal foi revirada, despedaçada e dispersa entre o pouco verde restante da floresta. O tornado inédito na região foi a manifestação natural contra o aquecimento intenso do ar da costa, provocando tesouras de vento nas áreas de vertentes. Não levou apenas vidro, pedra, aço e autótrofos. Só deixou vivos os dois que foram fazer as compras.
Ainda pudemos presenciar os momentos finais de vida do Palácio Vitral: era um gigante resignado se atirando ao chão. Mais, era a ruína de uma montanha, cujo peso estava concentrado nos papéis flutuantes, e não no alicerce imóvel.

Álvaro ainda tentou me convencer de que o Palácio poderia ser reconstruído; o plano seria revivido, em outro lugar, longe dos efeitos da mudança climática. Talvez, se não fosse levado pelo aneurisma em 17 de junho de 2019, ainda fundássemos algo parecido.

Nunca soube o motivo da cisão. Creio que Romeu Squalor planejava contá-lo no momento certo, sem se dar conta de quão rapidamente os segredos podem ser levados ao túmulo.

Foi isso a existência do Palácio Vitral. Deixo seu relato aqui, junto à sepultura do penúltimo sobrevivente; talvez pelo medo de que sua memória se perca tão subitamente quanto a vida de meus amigos. Ou talvez por mera formalidade, como documento histórico. Ou porque ainda esconde-se, em minha consciência, esperança ingênua de que alguém se interesse pelo sonho, e proponha-se a realizá-lo; afinal, foram as suas últimas palavras:
“Não deixe meu sonho morrer, Pudim.”

Ivan Anderson!? Não combina.

(Fim)




Foto: Bruna Pimenta

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XIX - História

Foto: Guilherme Carnaúba

por Pudim

Ao terminar os relatos, o diretor suspirou lentamente, levantou-se, ofereceu água aos visitantes e esvaziou seu copo. Deu uns passos pela sala, fazendo perguntas sobre os alunos e o desafio. Depois, conduziu-nos pela biblioteca, mostrando volumes muito conhecidos e esboços promissores. Respondeu umas poucas dúvidas, e retomou a narrativa:
“Os dois amigos passaram muito tempo explorando o Palácio Vitral, e decidiram reviver o plano inicial dos mentores deste lugar. Convocaram várias excursões para aqui, alvejando principalmente crianças e adolescentes que pudessem se interessar pelo projeto do Palácio. A idéia deu certo, e por volta de 1920 já trabalhavam cinqüenta pessoas. Exímios artistas. Poucos eram os escritores, mas havia também músicos, desenhistas e pintores. Alguns até ousaram expor suas obras na Semana de 22, mas não foram muitos: a partir daí os líderes decidiram que seria melhor o Palácio manter-se em segredo.”
“Havia também jovens biólogos e botânicos, herança da paixão pela natureza de Beddome. Aliás, ele nem chegou a ver os anos de ouro do Palácio; escolheu passar seus últimos de vida na sua cidade natal, e morreu em 1911.”
“Foi o outro companheiro inglês o responsável pela ascensão exponencial da produção artística nas décadas seguintes. O filho de Albert Lewis, se ainda não souberem, chamava-se Clive Staples, ou C.S. Grande parte de sua biblioteca pessoal se encontra aqui. Além disso, o escritor, embora não tenha se envolvido muito profundamente com o Palácio, mandava cartas com certa freqüência, e discutia alguns textos produzidos por nós no The Inklings, junto com Tolkien, como devem ter descoberto.”
“Juntei-me a este reduto intelectual no seu apogeu. Contávamos com cerca de 250 internos, e recebíamos mais de quinhentos inspetores assíduos, em busca de material de pesquisas e aprendizado. Isso por volta de 1945.”
“De então surgem os dados dos documentos que vocês investigaram. Na primeira gravação, quem falava era M.S. A gravação foi editada, originalmente Master Sid dizia seu nome sem rodeios. Foi ele quem me convidou, bem mais diretamente do que eu os convidei. Ele escreveu o primeiro bilhete visto por vocês, e era o ‘Amigo’ do segundo.”
“Mas foi nesse período que nosso sonho começou a definhar. Com a intensificação dos conflitos na Segunda Guerra Mundial, o suporte estrangeiro se extinguiu. O Palácio teria condições de sobreviver ileso à guerra, não fosse a cisão.”
Assim que pronunciou a última palavra, Romeu manifestou seu ódio esmigalhando a taça de cristal; o punho fechou-se com força, o sangue na mão tensa evidenciou alguns cortes rasos.
Tivemos que segui-lo à enfermaria, onde rapidamente lavou as mãos e as cobriu com ataduras. Evitando o assunto, ainda conversou um pouco sobre os tempos em que dirigira nossas escolas, antes de lembrar preocupado: precisava dispensar os que fugiram pela Gemini.
“Vamos avisar os monitores.”

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XVIII - Carta a Albert J. Lewis

por Pudim

Território brasileiro sem-nome, oito de janeiro de 1905.

Meu amigo Albert,

De fato, a América do Sul é um lugar impressionante, digno de uma expedição como esta. De fato, uma expedição como esta implica severas conseqüências. Sinto medo em olhar para os meus pés cada vez que tiro os sapatos para descansar, meus membros reclamam a cama agradável costumeira, e a festa de Ano Novo não é tão animadora em uma floresta isolada. Aliás, foi interessante observar como a natureza não se importa com as regras e marcações estabelecidas pelos humanos. Aqui nenhum mico-leão faz caso se seu tamanho é de 45 ou 46 centímetros; simplesmente tem a medida de um mico-leão.

Tantos anos cheios de descobertas, e nunca havia me dado conta dessa importante lição...

Mas não seria motivo de fazer meu ajudante viajar 108 quilômetros até o correio a experiência adquirida que, como você gosta de dizer, faz parte do trabalho. Em meio a tanta admiração por um cenário inédito nos catálogos botânicos, me deparei com algo inusitado, como confirmará pela minha descrição.

Caminhava por entre árvores, cujas copas insinuavam o céu inalcançável, até que consegui notar uma fonte de luz muito distante à frente, facilmente perceptível dentro de um ambiente tão contínuo (não queira pensar que a paisagem é entediante). Segui a fonte, e gradativamente o canto dos pássaros foi diminuindo, os símios que me seguiam curiosos foram recuando e desaparecendo, o ar foi se tornando mais leve, o sol mais castigante, os mosquitos mais atrevidos, e consegui descobrir uma gigante - muito gigante - clareira.
Ao adentrá-la, logo percebi que se tratava de uma enorme propriedade, mas não como as típicas do país. Era cercada por belos jardins de espécies nativas e, ao invés de uma fazenda, seus corredores levavam a um belo palácio vítreo.

Por mais etérea que possa parecer, a cena não foi um sonho. Posso assegurá-lo da veracidade desta visão por agora mesmo escrever de um dos aposentos do palácio. A arquitetura é inacreditável, talvez sem paralelos nas construções históricas européias. O exterior, se não for completamente de vidro, disfarça-se muito bem. As formas executadas pelas armações dos vitrais lembram o estilo gótico, mas muito vagamente. No seu interior, os cômodos são parecidos com as casas reais da Inglaterra, com exceção do constante (e de muito bom-gosto) uso da luz solar que, ao atravessar as figuras desenhadas na superfície externa, projeta formas indefinidas no chão incolor. O efeito é bem calculado, e sem dúvida um grande desafio aos artistas europeus.

Talvez o mais interessante é que, postando-me em frente à entrada, não fui bem recebido. Pelo simples fato de não haver anfitriões. Vou poupá-lo de explicações, pois envio, anexada a esta que escrevo, a carta que encontrei presa à porta.

Seu companheiro, Richard Beddome.


O texto, acredita-se, foi lido apenas pelo naturalista inglês e seu destinatário, antes de perder-se para sempre na lareira do último. Talvez por isso as origens do Palácio Vitral são rodeadas por muitas incertezas e lendas. Entretanto, como pesquisas posteriores demonstraram, a instituição não deveria ser mais do que trinta anos mais velha que a visita do explorador britânico. E nem o bilhete deveria contar tanto mais a respeito do lugar do que sabia o Diretor Squalor, noventa anos depois.



Foto: Guilherme Carnaúba

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XVII - Nova terra

por Pudim

Foto: Guilherme Carnaúba
.
No final do ano de 1904, das escarpas levemente oblíquas da porção leste do território litorâneo sul-americano, ainda se podia descortinar a visão estonteante de uma floresta incrivelmente biodiversa e muito densa.
Nos pontos mais elevados, arvoredos esparsos desciam para os vales, onde formavam rios contínuos de mata intocada. O céu era de um azul infinito e sobrenatural, cortado raramente por grupos de grandes aves.
Igualmente impressionante era o cenário que se estendia desde a orla até os pés da seqüência de planaltos quase uniforme, que acompanha toda a costa. A transição entre os mangues e as primeiras grandes árvores demonstrava grande parte da variabilidade biológica terrestre.
A mais admirável, porém, era a área das encostas daquelas escarpas. O dossel evocativo permitia passagem apenas a alguns feixes de luz solar, para mostrarem a névoa típica das florestas tropicais chuvosas. Por baixo dele exibia-se um conjunto de plantas floridas, cuja beleza tinha até um ar hostil na escuridão. A sombra das folhas largas e perenes a 15 metros de altura deixava o solo sempre pouco iluminado.
Pelas vertentes que seguravam a chuva, conferindo a frondosidade às árvores do local, derivavam regatos de água límpida, cuja qualidade era ainda mais elevada pela pluviosidade. Por vezes via-se índios atravessarem as trilhas lamacentas para garantir que a sede de seus povos distantes fosse sanada. As histórias populares, entretanto, contavam que ali era a nação sem delimitação de onde se podia ouvir o discurso imortal da quietude da natureza. O bioma era tão extenso, e a vegetação tão fechada, que os poucos nativos que passavam não ousavam interromper o musical alegre da Mata Atlântica ainda cheia de vida.
Era por essa terra lendária que peregrinava, intrigado e agitado, o botânico inglês Richard Beddome.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XVI - Gemini

por Pudim


A decoração do lugar era básica, como no anterior. Os outros oito participantes saíram tão avidamente que nem se deram conta de como a pista dali estava evidente.
Só restava bisbilhotar as gavetas e as prateleiras do armário. O complexo sistema de chaves que o protegia quase serviu para eliminar Anderson. Um olhar decepcionado de Renato foi suficiente para que o amigo não abandonasse o time.
“Mas vamos tentar ser mais rápidos”, adicionou asperamente.
Na verdade, todos podiam compreender a conduta apressada do mais novo. Havia apenas uma gaveta aberta, contendo a chave de uma outra, que escondia a da próxima, sem qualquer dica de qual ela seria. E assim por vinte e oito gavetas e doze compartimentos de estantes, até surgir algo relevante. Talvez o objetivo fosse exatamente eliminar os que não estavam dispostos a entender o verdadeiro enigma do palácio.
“Cheguei a pensar que nosso prazo era longo demais”, Álvaro comentou, segundos antes de poder enxergar os entalhes no revestimento da última divisória da mobília.
Quem é o herdeiro do Palácio Vitral?”, Witch leu com um tom de interrogação mais próprio de uma dúvida pessoal do que do sinal de pontuação na frase. Que não havia sido esculpida com tanto capricho.
Para certo consolo, havia ainda uma derradeira chave guardada ali.
Após algum tempo de sugestões, concluiu-se que o melhor a fazer era o menos compatível com o esquema do jogo: testar todas as portas da Ala dos Cajueiros.
Kevin e eu concordamos silenciosamente em não mencionar nada sobre nossas idéias discutidas. Pelo menos até que o grupo inteiro chegasse ao final. Instintivamente, porém, o líder tomou o artefato metálico da mão de Witch e correu para o grande portal. O mesmo que inicialmente supusemos ser a saída.
O instrumento serviu na abertura central do par de portas. Moveu as lingüetas das fechaduras, abriu algumas das travas e... disparou um teclado de telefone!
Kevin sorriu. Além da empolgação pelas inconcebíveis teorias confirmadas, era engraçado comparar o dispositivo tecnológico com a arquitetura antiga representada no resto da construção. Segurou por algum tempo o punho fechado a alguns centímetros dos números, antes de usar os dedos suados para acertar na primeira tentativa. Quem é o herdeiro do Palácio Vitral?

5 – 3 – 8 – 4 – 6

K – E – V – I – N

Atrás das gigantescas peças de madeira que se moviam com ruído assombroso, lentamente se descobria, sentada numa poltrona bem maior do que se julgaria necessário, no centro da maior biblioteca já vista por qualquer um dos sete estudantes espantados, a figura emblemática e eternamente sorridente de Romeu Squalor.





Foto: Bruna Pimenta

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XV - As devidas explicações

por Pudim


Indiferente à curiosidade em conhecer a sala e ao tempo restante, parei meu líder próximo à entrada da Gemini.
“Ei, Kevin, você não descobriu só aquilo no computador, descobriu?”
“Na verdade, cada vez mais acho que estão se confirmando minhas suposições iniciais. Posso estar bem próximo de entender o que o diretor Squalor quer de nós.”
“Como assim?” Perguntei, ainda hesitante em dizer que concordava com Kevin.
“Bom, se não se lembra, eu propus inicialmente que os documentos tratavam-se de relatos de algum tipo de sociedade secreta. Definitivamente, os códigos sugeridos no último relato pretendiam esconder algo sobre ela. Além disso, uma das gravações mencionava...”
“Um palácio”, adivinhei. “Que você acredita ser o Palácio Vitral”.
“Exatamente”, Kevin sorriu, os olhos brilhando. “Podemos inferir que a organização funcionava aqui mesmo. A carta encontrada na Centauri dirige-se a ‘R.S.’, o que reforça minha idéia.”
“Em outras palavras, Romeu Squalor fazia parte da tal organização?”
“Creio que sim”, respondeu.
“Mas quais eram os seus objetivos, então?”
“Aí é que está o buraco do quebra-cabeças”, o garoto desviou o olhar para a sala em que os outros alunos entravam apressados. “Parecia algo como um centro de pesquisa, mais artística do que científica, até que...”
“Houve uma cisão, que separou os ‘bons’ dos ‘maus’ no projeto”, novamente interrompi o apto pesquisador, completando-o.
“Sim, além da pista escondida no documento do computador, ele continha um sentido literal. Provavelmente serviu para fazer os ‘maus’, se algum dia alcançassem a mensagem, lerem uma crítica irônica ao sistema de códigos, enquanto a mensagem verdadeira era ‘Castor e Pólux’”.
“O que agora nos indicou uma sala, algum dia indicou algo muito maior.”
“Isso é o mais interessante de tudo. Para o ‘Amigo’, ‘Gêmeos’ teria um significado diferente, certamente mais complexo.”
Kevin parecia querer continuar seu discurso veemente, mas Witch, Anderson, Renato, Álvaro e Melissa apareceram correndo tão desesperadamente que foi impossível não voltar a atenção para eles.
“Achamos a saída na sala Gemini!”, a líder anunciou.
Não o percebi na hora, mas Kevin rapidamente deduziu que havia um motivo para eles ainda não terem se livrado do misterioso jogo. Talvez por isso respondeu:
“Mas o que estamos procurando: a saída ou a entrada?”



Foto: Guilherme Carnaúba

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XIV – Tetraedro?

Foto: Bruna Pimenta
por Pudim


Cisão

Amigo,

Soube da acentuação nas rixas no
Tetraedro pouco antes de receber seu recado. O entregador de pizza, como eu
suspeitava, escondia os relatos do bom lado do projeto dentro dos pacotes de sal
na cabana à margem do rio. Reconheço que não foi muito inteligente a minha idéia
de pedir para o garçom colar os guardanapos com os bilhetes (e as chaves das
cifras) na parte debaixo do píer, tão próximo de casa. Evidentemente, também não
pretendia que a senha e a contra-senha soassem tão óbvias aos ouvidos dos
espiões. Preciso ir ajudá-lo o mais rápido possível. O meu bom-senso agora
entende o porquê de tantos códigos para envio das mensagens. Levo este recado
com a segurança de que não cairá em mãos erradas, pois não há problema, nesses
casos, em gastar um pouco mais com segurança. Uma coisa mais importante está em
jogo, e deve ser levada em conta.

X.

Passamos vários minutos tentando abstrair os possíveis sentidos da carta. Com pouco progresso, muito tempo passou. Foram quase dez minutos só para que todos lessem a carta, e mais uns vinte para que alguns relessem as outras. As teorias elaboradas eram as mais criativas, mirabolantes e diversas. Mas nenhuma delas aqui é digna de menção, já que o objetivo destes relatos é outro.
Sentados frustrados em pontos esparsos da sala, discutíamos sem sequer olhar para o texto, mais preocupados em evitar a tensão entre Witch e Kevin. Apenas este, calado, mas sabendo dos conflitos sem motivo que o rodeavam, analisava friamente o texto do papel.
“Nem sabemos do que se trata ainda, mas temos que descobrir a criptografia criada para que ninguém pudesse descobri-la”, desabafou Rafaela, irritada.
“Bom, eu tenho minhas teorias. Mas isso não importa, o melhor agora é irmos para a Gêmeos logo”, Kevin retrucou, sorrindo ao encontrar a surpresa nos olhos de Witch.
“Como você descobriu?” Fiz a pergunta previsível.
“As letras maiúsculas, amigos. As letras maiúsculas.”
Pensei em perguntar quanto tempo havia que descobrira aquilo. Logo compreendi que a pergunta era complexa demais para as quatro horas restantes, e tudo começava a fazer pouquíssimo sentido. Já era alguma coisa.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XIII - Virginis

por Pudim

Entrei primeiro. Além da mesa de xadrez, havia na sala um computador, mais convidativo ainda:


Digite sua senha de 4 dígitos.

O grupo se dividiu para vasculhar a sala. Apenas Witch e eu permanecemos em torno da mesa de xadrez, observando as peças pretensiosamente posicionadas.
“Um rei e duas torres”, Witch iniciou, “O que isso quer dizer?”
“Isso não é o pior. Veja as peças que não estão em jogo.”
As peças estavam muito bem disfarçadas, mas não existem no xadrez. Uma delas se parecia com uma cômoda. Outra era uma mulher empunhando um cetro em sua milimetricamente esculpida mão esquerda. A terceira era um leão.
“Espere!” Witch exclamou. “Tem alguma coisa na base do rei!” Deduzi que ignorara minha observação.
O apoio redondo do artesanal objeto brilhava sugestivamente. Witch segurou-o firmemente, apertou, girou, e deixou cair a argola quando esta escapou. O anel dourado no chão foi como um vislumbre da solução de todo o mistério.
“O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, pensei em voz alta. A sala voltou os olhos para a dupla no centro.
“As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa”, a líder completou o pensamento, com a voz trêmula de empolgação. Não havia me ignorado. Em seguida, ergueu o círculo dourado e leu o veredicto: “Ano de minha publicação.”
O entusiasmo dos jogadores foi aprisionado por alguns segundos. Deveria referir-se à primeira das séries, já que o anel estava no rei. Até hoje não li sequer um trecho, e então não sabia nada dela. Por sorte, algum Tolkiendili era menos indiferente do que eu, e nos garantiu acesso às informações do computador.



The Inklings foi um grupo informal de discussão sobre literatura associado à
Universidade, na Inglaterra. O grupo, basicamente masculino, como era típico em
seu tempo, era formado por uma maioria de acadêmicos da Universidade.
O grupo
reuniu-se entre 1930 e 1949 aproximadamente
.
As reuniões eram costumeiramente às terças-feiras, nas dependências de Lewis, no
Magdalene College, de lá.
Digite sua senha de 6 dígitos.



“Ah, então essa era a relação entre C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien”, observou Kevin. “O texto não menciona o nome da Universidade. João, onde eles estudaram?” perguntou, voltando-se para um membro da Alcatéia.
O companheiro de equipe era o que estava sentado no computador, e nossa salvação em perguntas sobre os escritores. Quando terminou de digitar “Oxford”, a tela piscou por algum tempo. A ampulheta então se transformou no cursor normal, a sigla PV. Revelou-se diante dos quinze exploradores mais um entre tantos documentos intrigantes.


Foto: Guilherme Carnaúba

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XII - Outro documento

por Pudim


Caríssimo R.S.,

Desde os recentes conflitos e do surgimento de inimigos que, sem razão aparente, se levantaram contra nós, tem se tornado difícil o contato com novos voluntários. Receio que tenhamos de colocar em prática o plano B.S. Será um investimento arriscado, mas creio que os velhos especialistas do projeto poderão, com suas habilidades, reduzir os custos. Em último caso, será nossa esperança. Saiba que, se não der certo, será o fim de nosso sonho.

Um forte abraço,
M.S.


“Meu Deus...” Daniel encarava o chão, preocupado.
“Parece que temos dois quebra-cabeças a montar, dois Desafios acontecendo paralelamente”, refletia Kevin em voz alta. “Parecem relatos sobre algum tipo de sociedade secreta, não acham?”
“Ou memórias de guerra. A gravação estava ambientada em 1943, na época da Segunda Guerra Mundial”, sugeriu Rafaela, a líder da Preto & Branco.
Correu algum tempo de discussão, até alguém olhar no relógio, e anunciar que tínhamos mais cinco horas. Antes de tirar qualquer conclusão precipitada, entramos na Virginis. Agora concebíamos algo mais concreto, talvez até imaginássemos nosso objetivo.
A sala de número sete era bem menos perturbadora do que a que tinham acabado de conhecer. A decoração encaixava-se mais facilmente no resto da arquitetura do Palácio. Sobre os alunos, um círculo de vitrais coloridos era entremeado de armações brancas como a parede de todo o compartimento. Os detalhes em dourado seguiam as colunas e se misturavam ao tapete amarelo. Na mesa central, com apenas uma cadeira convidativa, um tabuleiro de xadrez, com seu jogo já em progresso, os encarava sarcástico.
Definitivamente, Romeu Squalor queria muito mais do que oferecer um divertimento construtivo a antigos alunos.






Foto: Caroline Grassi de Lima

sábado, 8 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: XI - Signos

por Pudim


Foto: Bruna Pimenta

Seguiu-se outro silêncio, dessa vez de muitos segundos, e por ele confirmamos que já tínhamos tudo de que necessitávamos.
Eram cômicas as expressões hesitantes dos jovens. Cada um executava, com os olhos, um interrogatório policial completo aos que examinava. Quem é você? O que está fazendo aqui? Como conheceu o Diretor Squalor? Por que eu estou preso neste lugar medonho!?
Durante o curto período de afastamento, a responsável por conciliar os interesses dos três grupos foi Melissa. Era aparentemente a menos, digamos, talentosa em associar informações esquisitas como aquelas. Mas foi essencial para que progredíssemos em alguma coisa.
“Deve haver um motivo para mencionarem a data de nascimento de Michael Jackson”, eu tentava apoiar Melissa falando a toda a sala, “se é que vocês me entendem.”
“Mas é claro!”, exclamou Anderson, “Qual é o signo de quem nasce no final de agosto?”
“Virgem”, responderam Witch e Kevin em uníssono. Apesar de terem algo em comum e estarem no mesmo barco imergente, os líderes ainda se fitavam com desconfiança e certo desprezo.
“Boa!” Dessa vez foram todos os outros que entenderam. Em pouco tempo, mas não com poucas dúvidas em mente, estávamos nos dirigindo à sala Virginis.
Por alguma razão, vários de nós não conseguiam aceitar a idéia de que o próximo desafio seria encontrado em outra sala, e o seguinte em uma nova, e assim sucessivamente. Havia passagens não utilizadas na linha de raciocínio. Havia algo estranho na voz do diretor. Havia centenas de alunos perdidos fora da Ala dos Cajueiros. Havia quinze que tinham algo em especial. Havia....
“Você chegou a abrir o envelope?” Álvaro, enfim, interrompeu a marcha indecisa e cínica.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: X - As gravações

por Pudim


Bem-vindos ao jogo, meus caros alunos. Se corresponderam às minhas expectativas, vocês quinze devem estar agora tentando fugir assustados com a insanidade de seu antigo diretor. Não entrem em pânico, eu lhes peço. As portas foram seladas inteligentemente, e só vocês podem abri-las. Não se preocupem com as outras equipes; o Palácio Vitral é um complexo magnífico e gigantesco, e a organização do Desafio Brainstorm se deu o trabalho de distraí-los com desafios difíceis demais para eles.
Quanto ao resto, bom, o resto poupa explicações. Há muito mais do que acreditam recôndito nesse inimaginavelmente dúbio recinto.
Boa sorte, Alcatéia. Boa sorte, W.E.I.R.D. Boa sorte, Preto & Branco.
Do seu favorito diretor


Os bizarros esclarecimentos refletiram nas expressões dos estáticos jovens da sala. Após o discurso do diretor, uma outra melodia igualmente assustadora começou a sair do gravador. O volume era quase inaudível e a distorção por pouco não o tornava incompreensível.

You better run, you better do what you can
Don’t wanna see no blood, don’t be a macho man
You wanna be tough, better do what you can
So beat it, but you wanna be bad


Silêncio de cinco segundos.

Vinte e dois de dezembro de 1943. M. S. falando. O Palácio está agitado. O projeto está funcionando, muitas grandes mentes têm chegado a este lugar em busca de material de pesquisas e ensino. Recebemos uma considerável remessa de livros de M.A., é provável que tenhamos de ampliar novamente a biblioteca. A próxima geração de educadores está garantida, certamente.

Silêncio de cinco segundos.

'Não tenho como justificar o que aconteceu. Cometi um erro terrível. Fui absorvido pela empolgação do momento. Nunca colocaria a vida de meus filhos em risco intencionalmente', disse o cantor, nascido em 29 de agosto de 1958, em Gary, Indiana.

Através das mensagens desconexas, quinze desconhecidos começavam a conceber algo ainda abstrato, mas possivelmente coerente. E nem sabíamos como começar.
Mais do que nunca, estávamos apaixonados por aquela construção suntuosa.


Foto: Guilherme Carnaúba

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: IX - O Gravador

por Pudim

No instante em que ia apertar o Play, os dez componentes dos dois times rivais entraram na sala Centauri. Witch quis esconder o gravador no bolso, mas ele era preso ao chão para evitar esse tipo de trapaça. Sem outra alternativa, inclinou-se fingindo amarrar o tênis, e seu corpo cobria o objeto decisivo da visão dos recém-chegados.
“Oi de novo, gente!” Melissa não percebera que o time do amigo estava fugindo dela. O líder da Alcatéia, ao invés de uma saudação, entrou com uma pergunta elementar.
“Quem são eles?”
E foi assim que encontrei os W.E.I.R.D., que viriam a se tornar grandes amigos, pela primeira vez. Entrei logo em seguida à revelação do meu líder de que havia mais gente na sala. Vi que esta mal comportava as quinze pessoas que agora esperavam a explicação de Melissa.
“O mais alto é meu amigo, e me apresentou os outros. Eles são bons, chegaram até aqui rápido. Podem ser nossos aliados, se vocês concordarem.”
Ouviu-se um murmúrio de aprovação, mas nenhuma resposta decisiva. Eduardo disfarçadamente ocultou o envelope que carregava sob a camiseta. Renato cochichou algo para Anderson. Nenhum dos três conhecia o quase sobrenatural senso de percepção dos membros da Alcatéia. Em resposta a seus discretos movimentos, Álvaro também sussurrou aos meus ouvidos sem se mover:
“Eles estão escondendo alguma coisa da Melissa.”
“Ainda é cedo para decidir”, continuou o líder. “O que vocês encontraram aqui até agora?”
Witch começou a responder, mas a posição não estava natural. Seu leve meneio de reposicionamento mostrou-se bem mais desconfortável do que ela imaginava. A sola de trás do pequeno All Star acertou com força o aparelho que estava escondendo. No mesmo instante, os fios elétricos que o prendiam ao chão conduziram o impulso até os portais da Ala dos Cajueiros. As saídas se fecharam com estrondo, e as três primeiras equipes do ranking ficaram isoladas do resto do Palácio. Seus quinze jogadores só podiam se entreolhar, ao mesmo tempo sobressaltados e atordoados, sem forças para perguntar “O que está acontecendo?”
Sem esperá-los, o gravador começava a reproduzir sua mensagem.

Foto: Guilherme Carnaúba

domingo, 2 de novembro de 2008

O Palácio Vitral: VIII - Centauri

por Pudim

Mais uma vez, eles se surpreenderam com a organização do evento. Cada equipe, a partir dali, estava em uma caça ao tesouro diferente, pois as pistas não estavam na mesma ordem para todas elas. Não haveria como os times se ajudarem, pelo menos nesta etapa.
A discussão entre os jogadores colocou a Alcatéia um pouco à frente. Preto & Branco, surpreendentemente, também estava lá. Melissa estava de costas, e Renato a observava. Witch, que não gostava de ver outros times à sua frente, aproximou-se de Renato:
“O que foi?”
“Por que só o nosso time não tem uniforme?”
“Porque sou uma líder sem graça”, Witch respondeu, sorrindo para esconder a irritação.
A Ala dos Cajueiros parecia um lugar interessante e inspirador. Era um corredor amplo, com seis portas grandes de cada lado e uma maior ainda no final. As portas laterais eram enormes e feitas, naturalmente, com vitrais e as mesmas armações de metal do saguão que faziam os alunos voltar no tempo. Elas estavam numeradas e indicadas por nomes de constelações.

Nível Um.
O Quarto de Fibonacci.
Onde estamos?
(Há outra pista importante aqui)

“Essa é fácil, o quarto número da seqüência de Fibonacci é três. Um, um, dois três”, demonstrou Daniel imediatamente.
“Ótimo, vamos à porta número três, então.” Witch estava mais calma com a rápida conclusão de Daniel.
A Porta 3, ou Centauri, revelou um banheiro um pouco sujo, em contraste com o resto do Palácio. Logo a equipe percebeu que a sujeira era na verdade tinta; o banheiro tinha sido transformado daquela maneira propositalmente. Ainda assim, era uma cena desagradável.
“Já estive aqui”. O comentário de Anderson fez Witch estremecer. De fato, o jogador estava começando a reconhecer algo no ambiente, relativamente grande para um cômodo daquele. Os cantos das paredes eram escondidos por grossos tubos de metal, e as lâmpadas estavam tão baixas que alguns precisavam se inclinar para percorrer o lugar. Uma banheira, a pia e o vaso eram as únicas coisas que não o faziam parecer uma sala de máquinas. Depois de mais algumas voltas, o garoto completou o raciocínio.
“Claro! É uma reprodução do cenário de ‘Jogos Mortais’! E antes que perguntem eu nunca estive aqui.”
“É verdade! Então a pista deve estar dentro de uma mochila, dentro da caixa de água do vaso!”, compreendeu Eduardo, e acrescentou: “Espero que ele seja falso”. Obviamente, a previsão se confirmou quando ele encontrou o envelope seco.
Buscando a “outra pista”, Witch foi imediatamente ao gravador. Que se disfarçava no chão, como no filme.



Foto por Guilherme Carnaúba

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: VII - Amigos à parte

por Pudim

Witch se levantou e foi conversar com os amigos num canto do Pavilhão dos Ipês.
“Já pode explicar”, a que conduzia o grupo acelerou Daniel.
“Bem, amigos, essa é Melissa, minha amiga, a responsável pelo grito que vocês devem ter ouvido. Ela compete pela equipe Preto & Branco, como mostra o uniforme”, Daniel relatou.
“Olá, Melissa”. Renato foi o primeiro a saudá-la. “Mas o que aconteceu?”
“Bom, ela estava andando à minha frente quando eu a reconheci. Cumprimentei com um susto, e isso não deu muito certo. Na verdade, acho que ela estava me evitando e não esperava que eu a percebesse.”
“Não era isso”, interrompeu a garota, “é que eu estava concentrada nos poemas e não vi você lá. Pelo menos achei o erro do nosso corredor”.
Daniel mudou sua fisionomia rapidamente, como se tivesse lembrado algo sobre a garota. Esperou todos se apresentarem e a cumprimentarem para dispensá-la.
“Com licença, Melissa, mas preciso conversar em particular com a Witch.”
“Sem problemas”, respondeu Melissa, fazendo sinal de O.K. com os dedos e piscando um olho. Outro jogador de seu time apareceu e os cinco puderam se reunir em separado dos dois.
“Acho que não vai ser muito bom nosso time se aproximar do Preto & Branco. No corredor, antes de encontrá-la, encontrei dois erros gramaticais. Ela só mencionou um. Conhecendo-a, ela nem deve ter percebido que poderia haver mais de um por caminho.”
Eduardo colocou as mãos no rosto e exclamou um “Putz!” em surpresa. Todos riram.
“Você é quem sabe, Daniel”, concordou parcialmente Witch, “temos que nos concentrar nas tarefas. Acharam os cinco erros ou o Eduardo deixou passar um mesmo?”
“Eu achei um”, reportou Eduardo.
“Mais dois aqui”, completou Anderson, “um nos poemas e um na porta do Pavilhão”.
“Deve ser isso mesmo. E a pista da Grande Final?”
“Acho que encontrei. Em um dos poemas da minha alameda estava grifada a palavra ‘Taprobana’, mas não sei dizer o que significa.”
“É o antigo nome da ilha de Sri Lanka”, explicou Daniel. “Deve haver um professor de Geografia ou Literatura na Estrada para explicar isso.”
“Que bom que não precisamos. Vamos reportar os erros para o monitor liberar a próxima sala.” Witch tinha alguma noção do que fazer para a próxima etapa. Mostrou o papel que estivera analisando aos amigos, explicou qual tinha sido a solução que encontrara. Finalmente, rasgou o envelope, constatando que o verdadeiro texto estava escrito no lado de dentro.




Bosque, segunda etapa.

Caça ao tesouro!
Encontre a primeira pista logo abaixo.




Foto por Guilherme Carnaúba

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: VI - Witch.

por Pudim


A única menina do time observava o papel com o texto da tarefa atentamente. Não precisou de muitas leituras para entender o que Renato levou um corredor inteiro para descobrir. Antes de começar seu caminho, viu Eduardo demorando-se em frente ao Pórtico Jacarandá. No lado oposto, Anderson examinava as equipes que se dividiam antes de dirigirem-se aos corredores.
Witch era experiente em gincanas. Apesar disso, nunca tinha encontrado competidores tão hábeis como os da equipe Alcatéia. Metodicamente, leram a primeira instrução, teletransportaram-se para o hall de entrada do Bosque (ninguém os viu indo até lá) e seu líder já estava quase no fim do corredor em que Witch entrava. Tudo isso enquanto o time da garota ainda estava atordoado demais para pensar.
Mas ela não se deixou abalar. Talvez as equipes viessem a se tornar grandes rivais. Talvez (melhor para W.E.I.R.D.), grandes aliadas. O fato era que a Alcatéia já deveria estar lendo a segunda instrução quando a jogadora estava na metade do corredor. O líder, pelo menos, sumiu de vista. Seria difícil transformar seus colegas em um time à altura, pensou.
Com o caminho quase ao fim, não encontrara nada. Sabia, apesar da frustração, que tinha deixado mais gente para trás do que havia à frente. Concentrada, não desviava o olhar um único segundo dos poemas. Despertou um pouco assustada quando não havia mais nada para ler. Olhou para trás, satisfeita. Não tinha nenhum erro ali mesmo.
O Pavilhão estava quase vazio. Nem os companheiros – para sua infelicidade – estavam ali. Contentou-se vendo que o jogador tão rápido analisava também sozinho e visivelmente intrigado o envelope da próxima etapa. Era permitido que os líderes o analisassem antes de os colegas chegarem, mas eles não poderiam sair do Pavilhão sem a tarefa cumprida.
Retirou o seu. Sentada junto à parede, abriu o lacre e retirou o papel preto dobrado ao meio. Olhou ao redor. Certificou-se de que estava entre os primeiros. Finalmente, os dedos trêmulos revelaram.



Nada aqui.


A líder sentiu a circulação sangüínea percorrer-lhe o corpo intensamente. Olhou atrás do papel, virou contra a luz, de ponta-cabeça, espelhado de diferentes maneiras. Nada ali. O coração começava a disparar, ia entrar em desespero. Olhou mais uma vez ao redor. Observou o líder da equipe de uniforme preto. Observou mais muitos alunos chegando. Ouviu um grito assustador, mas continuou observando tudo como se assistisse ao trânsito de veículos da janela. Observou o monitor pedindo ordem e silêncio aos alunos. Observou Renato e Eduardo quase se chocando. Observou Daniel que se aproximava com uma menina que nunca tinha visto.
Só restava uma possibilidade. A sagacidade da garota foi suficiente para testá-la quase no mesmo tempo do líder da Alcatéia. Sim, ela estava certa.
Assim, Witch mostrava por que era a líder, e fazia jus ao apelido.



Foto por Bruna Pimenta

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: V - Coisas escondidas

por Pudim

Foto: Guilherme Carnaúba

Antes de investigar as paredes, Anderson investigou seus concorrentes. Um curto período de observação foi suficiente para entender quem seriam potenciais adversários fortes – era seu dom.
A primeira impressão do corredor foi frustrante. Nunca vou achar nada aqui. As muralhas repletas de quadros e adereços diversos, alternados com os poemas a que viera, erguiam-se até a abóbada vítrea alguns metros acima de sua mente embaraçada. Tudo dava a impressão de uma tarefa complicada e trabalhosa.
Começou uma procura tímida pela parede esquerda. Simbolismo e modernismo complicavam ainda mais as coisas. Algo parecia piscar chamando por Anderson umas duas estrofes à direita.

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.
E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Enfim, um incentivo. Entre inversões sintáticas, neologismos e ptyxes, o jogador encontrou uma palavra esquecida sem seu acento. Com certeza, não estava assim no original.
Aliviado, pôde continuar o caminho tranqüilamente, passando entre dois muros de alunos examinando os lugares errados. Parou em frente à verga arqueada que anunciava o ponto de encontro com os companheiros. Havia algo errado ali. Os olhos passearam pelos umbrais, subiram, encontraram. “Pavilhão dos Ipes”? Era um erro do artesão ou estava ali propositalmente?
Passou mais tempo do que esperava fitando intrigado a inscrição, e a figura postada ali já estava chamativa. Precisava dissimular de alguma forma. A garota desesperada dois corredores à esquerda cuidou disso.
Anderson fez o que podia para se disfarçar entre os comentários assustados, curiosos e zombeteiros. Pouco a pouco, aproximou-se do Pavilhão e deixou de lado as preocupações para achar os amigos entre a multidão. Encontrou-os conversando com uma garota desconhecida, trazida pela mão por Daniel.

sábado, 25 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: IV - Então era isso?

por Pudim

Foto: Bruna Pimenta

Ainda um pouco vacilante, Eduardo não foi um dos primeiros a atravessar o Pórtico Jacarandá, na extremidade esquerda do hall de entrada do Bosque. Nos batentes, os deslumbrantes desenhos que deram nome ao portal reprimiram um pouco da precipitação com que estava disposto a resolver os desafios inicialmente. Todo aquele cenário suntuoso tornava a competição ainda mais séria e a vitória ainda mais decisiva.
Começara a travessia do corredor.
Percorria lenta e nervosamente cada peça do piso com os pés e cada verso da parede com os olhos. Alguns poemas já conhecia, de outros sequer ouvira falar no autor. Apesar da impaciência, não deixava escapar um acento de seu aguçado senso de correção gramatical.
“Até que é fácil, não?” Eduardo acreditava ter captado algum tom de sarcasmo na tentativa da garota de puxar assunto. Não conseguiu, entretanto, prestar muita atenção. Resmungou algo em resposta e continuou.
A menina não saía do seu lado. Parecia ter algo a dizer, mas simplesmente vasculhava os versos logo atrás de Eduardo, como se procurasse o erro que ele deixou passar. O jovem queria dizer alguma coisa que afastasse a garota sem ser muito ofensivo. Não conseguia achar as palavras. Um silêncio incômodo da conversa em suspenso no ar. Felizmente, uma vírgula perdida entre o sujeito e o verbo o salvou.
“Fácil é pouco.”
Eduardo acelerou a marcha. Por sorte, descobrira tão cedo o que aquele corredor tinha a esconder. Com a certeza de que chegaria antes dos outros, resolveu diminuir a corrida. Valia mais a pena dar algum tempo para admirar as palavras tão graciosamente dispostas no mural revelado por enfraquecidas luminárias.
Foi então que algo o despertou de sua leitura. Um berro fantasmagórico em algum corredor à direita deslanchou olhares e comentários assustados em todas as direções. O garoto apertou o passo e, finalmente, começou a correr. Invadiu impetuosamente o Pavilhão dos Ipês ainda a tempo de quase se chocar com Renato.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: III – Muito além da Taprobana

por Pudim

Para qualquer outro participante, a separação era um incentivo: o de chegar à sala seguinte com a tarefa cumprida antes dos companheiros. Apenas o que os trouxe até ali sentia o desamparo dos parceiros. Renato não conseguia manter a concentração, era simplesmente impossível olhar para as paredes somente procurando erros de gramática.
Sua estatura era mediana, mas tinha que elevar o olhar para ler as agradáveis inscrições. Seus autores eram como heróis da infância. Deteve-se em certo ponto, do qual podia ver a estrofe de abertura de Os Lusíadas:

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram


Renato permaneceu por alguns instantes observando o “Taprobana” grifado. Antes que pudesse tirar qualquer conclusão, outros alunos o alcançaram, e ele achou melhor fingir que não havia nada especial naquilo.
Aliás, como era difícil trabalhar com aquela quantidade de gente em volta!
Renato ia continuar a busca, mas se surpreendeu ao fim do corredor. Tinha se perdido tanto nos jogadores em volta que esqueceu de cumprir a tarefa. Irritado, percorreu o lugar no sentido contrário.
Os concorrentes o atrapalharam novamente.
Só na segunda vez em que seguia na direção da sala Renato pôde assimilar o verdadeiro problema. O texto da tarefa, ainda reproduzindo em sua memória, não explicitava se cada corredor teria um erro gramatical. Sentiu-se feliz por tê-lo percebido antes dos que estavam vasculhando as paredes à sua volta. Confirmou, ao fim, que não havia nada escrito errado naquelas paredes.
Foi então que um grito estridente, como de uma menina quando se assusta com um inseto, sobressaltou o garoto.
Renato disparou ao encontro dos amigos no próximo recinto. Algum deles teria experimentado uma busca bem mais interessante.


Foto: Guilherme Carnaúba

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: II – W.E.I.R.D.

.
por Pudim
Foto: Guilherme Carnaúba


A viagem de três horas ao Palácio Vitral ajudou os membros da nova equipe a se entrosarem, especialmente Daniel.
“Qual vai ser o nome da equipe?” sugeriu Witch.
Renato respondeu imediatamente. “W.E.I.R.D. São as nossas iniciais.” Ele já havia pensado no assunto antes.
“Anderson é o segundo nome”, completou Eduardo em seguida. “Ele não gosta do primeiro.” Daniel divertiu-se percebendo que não lembrava de nenhum nome comum que começasse com “I”.
O saguão de entrada do Palácio Vitral foi uma convincente explicação do preço da inscrição para muitos dos participantes do jogo. Aquele era o piso térreo mais alto que já tinham visto. Apenas a parede do fundo do saguão não era de vidro. As outras eram compostas por vitrais com desenhos em azul, verde, roxo e cor de vinho, sustentados por grossas armações em metal cuidadosamente trabalhadas para dar um tom de antiguidade ao ambiente. O assoalho era uma espessa e muito polida camada de vidro sobre um piso branco. Nenhum dos visitantes, porém, percebeu a cor, pois a luz do sol que atravessava os vitrais coloria calculadamente todo o chão, um quadro encantador. Os alunos do colégio a três horas dali logo reconheceram seu antigo diretor. Após as devidas apresentações e cerimônias de abertura, o senhor pediu silêncio e discursou:
“Sejam bem-vindos ao Primeiro Desafio Brainstorm. É um prazer saber do interesse de 245 estudantes do Ensino Médio em testar e multiplicar seus conhecimentos gerais. Vamos direto ao ponto. Cada equipe de cinco membros deve escolher um nome e eleger um líder. Há dois caminhos possíveis para iniciar a competição, Bosque e Estrada. Os líderes devem vir até esta urna e retirarem um cupom. São 25 cupons para cada caminho. Temos quarenta e nove equipes. O monitor ao meu lado, então, vai retirar o último papel e ler em voz alta o nome que sobrou. No caminho anunciado, colocaremos um professor para ajudar no começo. Após cada etapa, os participantes poderão consultar o ranking com pontuação e hora de sua finalização. Esta é a primeira fase do concurso, e ocorre no piso térreo. Os times que completarem todas as etapas antes das vinte horas estarão classificados para a segunda rodada de desafios, que acontece no primeiro andar. Seus componentes ganharão hospedagem neste palácio até a próxima fase! Em caso de dúvida, consulte um monitor. Boa sorte a todas as equipes e divirtam-se!”
Renato, Eduardo, Anderson, Witch e Daniel nunca estiveram tão ansiosos e agitados. Só queriam começar a jogar logo. Witch chegou triunfante, como se o grupo já estivesse entre os participantes da segunda fase.
“Vamos pelo Bosque!”
Eles não seriam ajudados por um professor.
Tão rápido quanto possível, os jogadores leram as instruções para o começo das disputas.


Bosque, primeira etapa.

O início do caminho do Bosque divide-se
em cinco corredores, as Alamedas Literárias. Em suas paredes, encontram-se
inscritos versos conhecidos de poetas famosos da língua portuguesa. Os jogadores
devem achar cinco erros gramaticais nos cinco corredores e reportarem ao monitor
que os aguarda na sala a seguir, para onde congruem as Alamedas. Há uma dica
para a Grande Final escondida na área, será de grande importância para as
equipes encontrá-la. Boa sorte.

domingo, 19 de outubro de 2008

O Palácio Vitral: I - Férias

por Pudim

“Vocês viram o cartaz no quadro de avisos sobre o concurso de conhecimentos gerais?” Era Renato quem sempre anunciava os eventos extracurriculares, pouco mencionados na escola. “Vai ser nas férias. Parece que quem conseguir uma boa colocação vai ganhar bolsa parcial.” O último anúncio chamou a atenção dos colegas, que o cercaram perguntando por detalhes.
“Pelo que deu para perceber pelo cartaz, uma empresa resolveu patrocinar a idéia do nosso ex-diretor”, continuou Renato, “e transformou o site de enigmas que ele tinha planejado em uma gincana de charadas de verdade, que vai acontecer no Palácio Vitral. A inscrição é cara, mas para quem gosta de enigmas, vale a pena”.
À menção dos jogos de raciocínio, muitos dos que o haviam cercado retornaram a suas atividades e conversas, para a infelicidade da professora inexperiente.
Apenas dois de seus amigos tiveram a reação contrária, animando-se ainda mais ao se tratar de um evento intelectual, exatamente como Renato esperava. Eduardo e Anderson foram à sua casa, à tarde, para buscarem mais informações sobre o evento na Internet. O portal do jogo era simples, tinha um fundo preto com letras cinza, uma breve descrição do jogo e um link para inscrição por ali mesmo, apesar de ser possível fazê-la pela escola. O grupo achou o site pouco atraente e decidiu pela segunda opção.
“A equipe precisa ter cinco pessoas”, disse a secretária anônima, conhecida como Moça da Secretaria. Os meninos ficaram aliviados por poderem dividir a desumana taxa de inscrição com mais alguém. O problema era achar alguém que se dispusesse a investir tanto em algo que, na visão da maioria, a escola já exercitava suficientemente. De fato, ninguém na escola aceitou se juntar à equipe, após um dia inteiro de convites.
O trio, frustrado, observava o portal da competição sem saber o que fazer.
“Podemos achar alguém de outra escola que jogue conosco”, finalmente sugeriu Anderson.
“Não consigo me lembrar de ninguém que goste desse tipo de atividade”, Eduardo já cortou. “Há muito pouco incentivo e a taxa é muito alta, parece que o concurso foi criado no país errado.”
Renato, até então quieto e pensativo, teve outra idéia. “Vamos chamar mais gente pela Internet. Deve existir alguma comunidade ou fórum sobre o torneio, e com certeza alguém vai ter o mesmo problema que nós estamos tendo.”
Ele estava certo. Em cinco dias de anúncios e buscas pelo computador, portanto dois antes do término do período das inscrições, acharam um garoto e uma garota, ambos de cidades próximas à em que estudavam, ansiosos por participar. No dia seguinte todo o grupo se encontrou na escola dos três primeiros participantes para o pagamento da inscrição.
“Mas vocês não trouxeram o dinheiro? Nós não podemos pagar a inscrição com o que temos!” Anderson estava nervoso.
“Acalmem-se, eu volto amanhã e pago junto com vocês, pode ser?” A menina, que tinha uma voz fina e nasalada, era muito baixinha. Seus cabelos, suas unhas muito compridas e o modo como se vestia lhe conferiram o apelido de Witch.
“Eu não posso vir amanhã, alguém vai ter de pagar a minha parte e depois eu acerto.” O outro participante usava óculos que o davam pose de intelectual, compensada pela postura largada. Seu nome era Daniel.
Como combinado, os três participantes iniciais dividiram a parte de Daniel e esperavam a chegada de Witch algumas horas antes do fechamento da secretaria. Pouco tempo depois do almoço, ela chegou com muito ânimo e sem o dinheiro.
“Minha mãe vai trazer, ela deve chegar logo.”
Anderson ficou nervoso, pois queria ter se livrado da inscrição muito antes, mas o grupo aproveitou para conhecer a nova componente. Descobriram que tinha vasta experiência em jogos de enigmas, e consequentemente era muito inteligente. Fazia teatro desde criança, o que a tornava muito articulada ao conversar. Em pouco tempo, convenceu o grupo de que ela deveria liderar, se houvesse a necessidade de um líder. Nesse período, algumas horas passaram enquanto Renato decidia se ela era bonita ou não.
“Se a sua mãe não chegar logo, eu vou molhar as calças.” Anderson alarmou o grupo com sua demonstração de nervosismo. Era o único que não tinha se esquecido do motivo da visita. Em vinte minutos, Moça da Secretaria iria embora e nada da mãe de Witch. Atônito, o grupo ficou em silêncio, e os segundos lentamente passavam. Quinze minutos, dez. Dois. Moça já arrumava a bolsa e vestia o casaco. Ia desligar o computador, mas Renato pediu que ficasse mais um pouco. O garoto estava desapontado com a recente amiga, e Moça, que apesar de fria, era muito bondosa, leu o desapontamento em seus olhos. “Vou ficar mais dez minutos”.
Os dez minutos logo se transformaram em vinte, e aos vinte e cinco já estava escurecendo. Moça olhava para Renato com cara de preocupada, e ele repetia gestos pedindo-a para esperar. Witch estava inexpressiva. Anderson tinha ido ao banheiro. Eduardo demonstrava a mesma frustração de Renato, mas estava mais pessimista. Tanto que nem reparou quando a amiga finalmente se levantou, aliviada e zangada com a mãe pelo atraso. Todos correram para a secretaria, Eduardo e Anderson por último, para fazer a inscrição e dispensar Moça o mais rápido possível. Os alunos, aliviados, saíram da escola e mal se deram conta de que acabavam de entrar em férias.

Foto por Bruna Pimenta