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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Última Vela


por João Pedro Paro

Naquela noite tudo se apagou. Nenhuma luz, nenhum movimento, a única cara visível era a do escuro. Ninguém sabia se havia uma vela disponível. E foi aí que o imprevisto aconteceu... Ele estava deitado no chão. Não tinha ninguém, todos haviam o abandonado. Seus pais? Mortos, seus tios? Mortos. A única pessoa que lhe restara era sua avó materna, mas ela havia decidido encontrar o resto da família mais cedo naquele dia. O escuro o cobria e ele decidiu levantar. Ao tentar acender a luz percebeu que essa também o havia abandonado. Notou que ainda usava o terno do enterro e começou a chorar novamente. “Por quê?” Ele se perguntava.

Lembrou-se de sua avó que acendia uma vela toda noite antes de dormir. Será que ela havia tido tempo de fazer isso antes de partir? Ele andou tateando as paredes até chegar ao quarto. Olhou através da porta e viu, em cima de uma velha cômoda, a última vela, a última chama disponível naquela casa. Pegou a vela e voltou à sala. Posicionou a pequena vela na mesinha de centro e largou-se no sofá. Começou a observar as fotos iluminadas pela pequena chama. E viu a foto, aquela foto, a foto do dia em que sua solidão começou.

Era a noite de sua formatura e toda sua família estava reunida para comemorar, haviam decidido alugar uma van para que não tivessem que se preocupar com a embriaguez de um dos motoristas, e foi por causa dessa van na volta da formatura que ele estava só. Era uma noite escura e quase todos, dentro e fora do carro, dormiam, porém outra pessoa que não deveria dormir caiu nos braços de Hipnos: o motorista. A van rolou ribanceira abaixo e ao acordar ele se lembrava de um misto de metal, corpos e fogo. No hospital foi amparado por sua avó, os dois eram os únicos sobreviventes de toda a família.

Pegou a foto nas mãos e passou-a sobre as chamas, assistiu-a queimar. Colocou a foto ainda em chamas no cinzeiro da mesa e, com a vela em mãos, foi até o parapeito da janela. Admirou a escuridão que envolvia a cidade, nenhuma luz, nenhum movimento; observou as nuvens no céu, eram as únicas que ainda sorriam para ele. Viu as formas de seus pais nas nuvens, queria tocá-los, abraçá-los, nem que fosse pela última vez; ao lado deles viu sua avó, apesar de tão pouco tempo já sentia a falta dela. Abaixou-se ao lado da janela e pôs-se a chorar novamente e, antes que percebesse, havia adormecido. Acordou pouco depois, a vela caída incendiara o tapete que, por sua vez, incendiara todo o resto do apartamento. Olhou para as chamas, viu seus parentes no meio delas, dançando, cantando, se divertindo, adentrou no fogo e deixou que este o envolvesse. Depois de algum tempo tudo se apagou. Nenhuma luz, nenhum movimento, a única cara visível era a do escuro.

fotos: Google

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 41


Foto: Guilherme Carnaúba

por Tuma

Ele demorou um pouco para se adaptar à nova vida. Sua casa era grande, como o prometido, mas parecia parada no tempo. A mobília era velha e gasta e, embora fosse confortável, transmitia uma desagradável sensação de não-pertencimento, como se destoasse do “plano de existência” em que Ferdinando, e a própria casa, viviam.

Durante algum tempo, Ferdinando permaneceu solitário e exilado. Nino lhe deixara algum dinheiro, então ele pôde se dar ao luxo de não trabalhar nos primeiros dias. Ficava trancado em casa quase sempre, com as janelas fechadas e a poeira acumulando nos móveis e em sua pele. Só saía pra comprar comida para si e para o gato.

O gato, Ferdinando só o chamava de gato, como seu dono anterior – não achava necessário nomear-lhe por coisa alguma. Viviam numa estranha sociedade. Frequentemente ficava com o gato no colo o dia todo, até que esse ficasse com fome e fosse até seu pratinho comer. Ferdinando então acordava de sua vegetação, tomava um banho e passava o resto do tempo olhando a rua.

Por vezes, sentia que havia mais alguém além dele na casa. Ouvia risadas e sussurros em sua cabeça, e se metia a procurar de onde vinham, mas não encontrava nada, nem ninguém. Com o tempo, começou a acreditar que o fantasma de Kaspar Hauser o assombrava. Eram os dois, Ferdinando e Hauser, os donos vivo e morto do gato que Schrödinger legara.

Só o que tirava o desmemoriado de seu estado apático eram as visitas ocasionais de alguns conhecidos seus da cidade. Fellwin e Spassky vinham tomar café, às vezes, e um ou outro morador simpático da rua o visitava para ver como ele ia levando a vida.

Finalmente, Ferdinando resolveu fazer alguma coisa. Já fazia quase um mês que Nino partira, e ele percebeu que precisava começar a trabalhar. Conversou com os policiais, perguntou o que eles sugeriam, e acabou sendo contratado para vendedor de um mercadinho que ficava a dois quarteirões de sua casa. Rapidamente, Ferdinando subiu de posto, e dois meses depois de sua chegada a Miranda ele era o conhecido e sério gerente do armazém do bairro.
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domingo, 14 de dezembro de 2008

Para ler com pressa.

por Stefano Manzolli.
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GENTE QUE NÃO SABE AMAR.
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"Nosso amor será eterno!", "Não sei viver sem você!", "Só você me faz feliz!"... quantas vezes não disse frases parecidas com essas ao pé do seu ouvido? Quantas e quantas vezes prometemos ficar lado a lado nos momentos difíceis?
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Ah!, como fui tão tolo de acreditar em... nós! Num futuro bonito e límpido... juntos! Depois de quatrocentos e trinta e dois dias de paixão, você pediu as contas, eu fechei a caderneta e nem sequer sobrou uma pontinha de Bento Santiago em mim.
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Depois de tanto tempo, estou decidido: não acredito mais em juras de amor. Também, não as faço mais - deixo que o amor seja demonstrado através dos carinhos, da falta de ar, do coração pulsando veloz e o brilho indissimulável nos olhos. Deixo o amor germinar lá dentro da alma e transparecer aos poucos em mim - por mim... assim, só assim, as palavras passam a não ter sentido para expressar esse nobre sentimento.
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Para ser bem franco, nós éramos imaturos e não sabíamos amar. Por isso, nosso amor era amor de palavras - frágil e vulnerável às tempestades de areia dessa vida. Numa delas, ele rompeu, morreu, tornou a ser pó debaixo dos tapetes persas de sua tia-avó.
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Ontem, por exemplo, quando nos encontramos na padaria, achei que não suportaria lhe ver com aquele seu novo namoradinho, mas... eu não senti nada. Na-da, nem uma vontade de estar no lugar dele, nem o desejo de ter o meu corpo abraçado ao seu.
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Você me viu primeiro, mas não cumprimentou calorosamente - nem eu. O papo foi padrão e nenhum dos dois se atreveu a perguntar nada além de como ia a vida e o trabalho. Despedi-me rápido (mentindo sobre estar atrasado para o café da manhã), você também não insistiu que eu ficasse. Enquanto partia, fez questão de não me acompanhar com os olhos - deixei por isso mesmo.
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Quando entrei no carro e vi, de longe, os seus lábios colarem aos dele, pude entender a maior das verdades: o amor acaba e os corações, antes aquecidos pelo sentimento frenético, ficam mais frios que fornada de pães franceses.
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Foto por Rapha Abreu

Sonata noturna [1]

por Pudim
Foto: Bruna Pimenta

O último teste (1/10)

“Vamos, benzinho, acabe com eles!” Noah Davis conversava com a lâmina de vidro, apoiado sobre o microscópio. “Leo, coloque no telão.” O assistente ativou a iluminação do microscópio digital, ligou a câmera e estendeu o painel branco apressadamente. Os dois estudantes examinavam emocionados o temível e minúsculo organismo se estrebuchando, colérico, temeroso por sua sobrevivência. E o princípio misterioso despedaçava sua membrana, proteína por proteína, triunfando na batalha ínfima e colossal.

“Conseguimos! Veja só, o HIV está morto! Obrigado, Leo, só você acreditou em mim!” O promissor farmacêutico abraçava energicamente o colega de quarto. “Parabéns, Davis”, ele respondeu, um pouco desconcertado.

“Obrigado, mas ainda falta um último teste. Já testamos em ratos, em macacos, em sangue humano, mas ainda não aplicamos a vacina no seu destino efetivo”, observou, com olhar convidativo. “Você se dispõe?”

“O que pode dar errado?”, compreendeu, com um sorriso ansioso. Talvez fosse sua última chance de ser curado – a doença é imprevisível. De fato, Leo sabia que não tinha nada a perder. Por isso, foi com ânimo que compareceu ao Laboratório Central da faculdade para injetar em si mesmo o específico salvador. E foi com ânimo que esperou uma semana pelos resultados da vacina. Com ânimo fez os exames finais.

E com um ânimo muito singular, e o rosto irrigado de lágrimas, e agradecimentos inefáveis a Noah Davis, e uma determinação inexorável, esfregou o resultado negativo na cara de seus professores.

Anti-Humor [8]

Teorias Cortadas do Especial da Superinteressante sobre Conspirações

-Estive somando os resultados obtidos em tabelas estilo pizza, e, 335 das 336 vezes, consegui o alarmante resultado: 100.
-Poderia o inventor da patente ter feito sua criação apenas para ser o primeiro a registrar a frase “marca registrada” para conseqüentemente ganhar milhões?
- Poderia Michael Jackson ser apenas uma alusão ao Pinóquio? Pense bem, Pinóquio não aceitava quem era, tinha um criador exigente, ficou famoso após juntar-se a um freak show, possuía um nariz “especial” e tinha uma relação perturbada com mentiras, e uma obsessão com “garotinhos de verdade”. Já Michael Jackson não aceitava sua etnia, tinha um pai exigente, ficou famoso após juntar-se a um freak show (também conhecido como Jackson 5), possui um nariz “especial” e tem uma obsessão por “garotinhos de verdade”. Ambos também sempre foram motivos de piadas feitas por estranhos preconceituosos. Peraí...
- Embora muitos acreditem em OVNI’s nunca houve nenhuma prova de que eles são reais.
-Embora muitos acreditem na “Ciência” nunca houve nenhuma prova concreta de que ela é verdadeira. Talvez tudo não passe de muitas, muitas coincidências consecutivas. Atualmente, estou desenvolvendo um método racional para provar essa não existência da “Ciência”, para que todos possam experimentalmente entender essa hipótese.
-Pegue o termo “LAVA-RÁPIDO”. Escreva numa folha de papel LAVA, e, na linha de baixo, RÁPIDO, começando duas casas à esquerda. Leia como em colunas, começando pelo V. Fique perplexo.
-Grife o smilie do MSN. Fique perplexo.
- Embora o Brasil tivesse um presidente na década de 70, não há registros de uma eleição nessa época. (Maçonaria?)
-Haveria uma conspiração por trás do fato de que todas as conspirações já pensadas até hoje estivessem completamente erradas? Poderia ser uma incrível demonstração de marketing histórico por parte de Dan Brown para vender mais livros?
- Nunca foi levada em consideração a possibilidade de que, incapaz ou com preguiça, Deus não inventou o mundo e apenas criou a Bíblia para cobrir qualquer dúvida de que talvez ele não fosse o criador, já que ele era o primeiro a estar lá ninguém tinha tomado responsabilidade até então. De qualquer forma foi um movimento astuto, de grande concentração e cálculo para um ser imaterial.
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- E agora para algo completamente (mais) estúpido:

Workshop de Cinema
Capítulo LV
Os Intrínsecos da Comédia
Parte II -Lançamento de Tortas Através dos Anos

aaUm dos símbolos iniciais da comédia, o lançamento de tortas (ou “arremesso” se você é um acadêmico) fez a população rir por décadas, com sua combinação de creme e o rosto das pessoas surpresas, e de como os dois normalmente não combinam, criando a característica comédia resultante.
bbTudo começou, como a maioria das piadas, de um lugar triste e obscuro: Johnathan Hardy fora sufocado até a morte com uma sacola plástica por seu enteado, num jantar em família. Pouco depois, a polícia chegou para investigar a cena do crime, e re-encenar este, para maior constrangimento dos parentes. Como não havia mais sacolas, uma torta foi usada, sugestão do filho Hardy, agora órfão. Hilaridade se seguiu, e todos riram até chorarem e choraram até rirem, até chorarem de novo por acabarem de ter perdido um ente querido.
ccLogo as piadas envolvendo lançamento de tortas viraram um fenômeno aparecendo na maioria das grandes produções do cinema mudo como: “Abbot & Costello Visitam a Panificadora”, “O Gordo e o Magro na Terra dos Estereótipos Cômicos” e o obscuro filme de Charles Chaplin “O Garoto 2: O Último Órfão Virgem”. Com o sucesso, logo vieram títulos totalmente centrados nas piadas envolvendo o lançamento de tortas, camisetas, canecas, livros e até uma linha própria de bolos e brigadeiros.
ddMas nem sempre os risos eram de diversão. Com a quebra da bolsa em 29, bancar as piadas envolvendo o lançamento de tortas ficou cada vez mais difícil e palhaços descobriram que seu substituto mais barato, o lançamento de sopas, mostrou-se menos engraçado e mais escaldante. Com o mundo mais sério após duas guerras mundiais, algumas tentativas de ampliar o mercado foram tentadas, como no drama “O Diário de Anne Bagel”, passado na época de campos de concentração de Strudels, mas acabaram falando terrivelmente, sendo que os prazos de validade dos atores complicavam terrivelmente o processo.
eeCom a chegada dos anos 60 e dos movimentos sociais, a situação complicou-se um pouco mais. Por quê tortas de chocolate nunca eram utilizadas? Eram as tortas de frutas menos engraçadas por algum motivo específico?
ff“Com o tempo, as coisas mudam, aparentemente” declarou Peach, outro dos atores torta sofrendo do desemprego de massa, cuja última atuação foi em 1999 quando participou de American Pie, do qual não comenta até hoje “Mas é triste ver seus parentes, filhos e amigos todos sucumbindo a antropopiegia na sua frente por não ter dinheiro. Ainda mais, com toda a fome no mundo, o arremesso de tortas deveria ser considerado até mais engraçado do que antes” completou num tom de voz rouco, pedindo para que se lembrem de que, dependendo da quantidade de farinha utilizada, estarão contratando tecnicamente um pão recheado e não ele.

Para mais informações e para saber como ajudar, por favor, visite:
http://www.piecouncil.org/
http://whatscookingamerica.net/History/PieHistory.htm



this iswritteninwhitefornoreasonAnos de Glória

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 40


Foto: Bruna Pimenta

por Tuma

De fato, Nino não deixou Ferdinando sem nada para continuar. Passou o dia seguinte ao enterro de Ernest trancado em seu quarto, e na outra manhã já não estava mais na casa. Sumira na madrugada, na surdina, sem aviso, mas deixara tudo preparado às suas costas.

Como escrevera na carta – que Ferdinando encontrara em seu próprio quarto ao acordar – um advogado veio resolver as pendências legais. Surpreendentemente, o pobre Nino pensara em tudo. O casarão seria vendido, com praticamente tudo dentro. Algumas coisas porém, seriam legadas a Ferdinando.

Em primeiro lugar, uma identidade. O advogado informou que Nino dera entrada em alguns papéis para registrar Ferdinando como alguém existente. Seu nome seria Ferdinando Peregrino Nápoles, se ele concordasse. Lembrando-se das palavras de Ernest, o desmemoriado sinalizou com a cabeça sua aprovação.

Em segundo lugar, uma caixa. Dentro dela, todas as coisas importantes da família. A vitrola com o disco do The Sandmen, alguns quadros e livros, e as armas da família, que incluíam o brasão, o punhal e uma bandeira.

Em terceiro lugar, uma casa. Nino providenciara para que Ferdinando fosse morar em uma casa espaçosa, agradável e totalmente mobiliada, perto do centro comercial da cidade e longe daquela velha praça, cemitério de lembranças.

Em quarto, e último, lugar, uma outra carta. Nela, Nino pedia a Ferdinando para que não o seguisse, e explicava o motivo de ter dado a ele aquele nome, o significado dos quadros e livros para a família, e o que representava o brasão.

Todas essas coisas, salvo a última, demorariam ainda um bom tempo para serem consumidas pelo fogo. No mesmo dia em que chegou à sua nova casa, no entanto, Ferdinando jogou a carta na lareira, e durante o resto da vida fez um enorme esforço para apagar seu conteúdo da memória.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 39


Foto: Guilherme Carnaúba

por Tuma

“ Ferdinando, meu novo irmão,

Eu acredito que todas as coisas acontecem por um motivo. Não vejo sentido no acaso e na indiferença: para mim, tudo está interligado, cada coisa que nos acontece é parte de uma cadeia de eventos que nos leva até o nosso destino.

A morte de Ernest, nesse caso, é o último dos eventos de uma cadeia que começou com a sua chegada aqui em Miranda. Naquele dia, quase dez dias atrás, eu pensara em meu irmão o dia todo. Sempre foi comum, para mim, pensar nele, e aquele era um dos dias em que eu pensava mais no assunto.

A tarde caía, e, de repente, você apareceu, cambaleando, conversando com Kaspar Hauser, desmaiando. Então eu e os policiais fomos até você, o ajudamos, o trouxemos até minha casa. Talvez por eu estar pensando o dia todo no meu irmão, achei você muito parecido com ele. Um pouco triste e confuso, acabei passando a noite toda em vigília, ao seu lado.

Depois, dei a você o nome dele, e acabamos nos tornando amigos. Eu achava que aquilo poderia durar para sempre, você fazendo as vezes de meu irmão e tudo o mais. Mas eu estava enganado. Aquilo, por melhor que possa ter sido, era só uma ilusão. A morte de Kaspar Hauser me mostrou isso.

Desde que eu nasci, ele mora na fonte ali em frente. Desde que eu era só uma criança ele povoava minha imaginação com sua aparência e seus mistérios. Nunca cheguei a conversar com ele, nem nada, mas sabia que ele estava ali. E de repente ele morreu.

Assim, de uma hora pra outra, alguém enfiou uma adaga no peito dele e fez aquela figura que me acompanhara a vida toda, que sempre me parecera tão sólida, desaparecer. Desde o primeiro momento que eu soube, fiquei apreensivo: se mesmo algo que era tão sólido, uma presença tão natural como a dele, corria o risco de sumir de repente, imagine as coisas menos sólidas, menos certas.

E, como se não fosse o bastante para a minha cabeça, veio a morte de Ernest. Agora, o ciclo estava completo. Vem você, para me deixar na lembrança, constantemente, a imagem do meu irmão. E então, as duas figuras mais míticas, mais eternas que eu jamais conheci desaparecem. Um deles, aquele que foi como um pai para mim, e o outro, como uma montanha que a gente sempre vê quando abre a janela do quarto pela manhã. Os dois, levados de uma hora para a outra pelo tempo.

Isso, para mim, só pode ser um sinal. Eu estava cultivando uma ilusão, ao achar que você poderia substituir meu irmão. Veja, não é nada contra você, você foi ótimo, você é uma ótima pessoa, mas eu simplesmente não posso continuar com isso. Eu preciso ir atrás de algo mais verdadeiro, mais perene.

Deixo essa carta, porque não tenho coragem de conversar cara a cara com você. Mas é para isso: para dizer que agora eu vou perseguir os resquícios do meu irmão. As pessoas que ele conheceu em suas viagens, os lugares onde ele viveu. Mesmo que ele não esteja mesmo vivo (já não alimento mais essa ilusão, tampouco), eu vou atrás de algo que possa, de alguma maneira, trazê-lo à vida.

Meu advogado vai te procurar, meu novo irmão, eu não vou te deixar sem nada para continuar. E você aprende muito rápido, tenho certeza de que vai construir uma vida aqui, de que vai se tornar um homem bom e respeitado. Se algum dia nos encontrarmos novamente, conversaremos sobre tudo. Se não, reze para que eu encontre a paz.

Com carinho,

Antonio Nápoles.”
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Sonata noturna [0]


por Pudim


Prólogo – Vacinação (0/10)

Da banqueta de espera, Nikole observava mais um filho recuar diante do palitinho agudo ameaçador decidido a ferir-lhe a pele, abrindo caminho para as vias sangüíneas, onde lançaria a cura para a doença aguda ameaçadora que compensava aquela angústia. Aprumou-se e consolou o lamentoso descendente, que concordou em receber a infusão ali, retraído no abraço da mãe. Então tornou ao assento e à sua languidez entediada, incompatível com o dia esperançoso e agitado em Windhoek. E o ritual se repetiu por seis vezes.

*** *** ***

“Vamos, Boris, antes que as filas fiquem longas demais.”

“As filas já estão longas demais. Sempre estão longas demais. Senão não são filas.”

“Que jeito estranho de dizer ‘não estou a fim’. Eu estou indo, não vá deixar para a última hora.”

“Você vai dirigir? Não acabou de beber uísque?”

“O posto é aqui perto, vou a pé.”

“Não demore.”

Assim, com um ligeiro beijo e um aceno desanimado antes de fechar a porta, Boris Norton escapou da infecção aterrorizante que afligiria toda a Terra e especialmente sua esposa nas semanas seguintes.

*** *** ***

Alice rabiscava habilmente suas idéias mais inovadoras num caderno amarrotado miserável, o ombro recostado no de Érica. Esta assistia habilmente às notícias mais inovadoras da CNN International, na verdade praticando seu inglês.

“Será que com essa história de cura para AIDS a ajuda internacional para a África vai continuar?”

“Quê?”, a desenhista disfarçou instintivamente a indiferença com a língua entre os dentes.

“Veja só, o inventor da vacina da AIDS vai tomar a injeção em rede internacional. Não acredito que estou contribuindo com minha audiência para um programa assim”, resmungou, desligando o aparelho e voltando-se para a amiga. Alice, notando a admiração que o esboço concentrava, lançou o caderno em rodopios sobre a cama.

“Meu projeto para a exposição. Vai se chamar ‘Érica’

Ela sorriu.

“Mas que honra. Você vai ao posto agora?”

“Eu vou, você fica; estou esperando minha mãe ligar aqui pra vir me buscar, mas não posso voltar para casa sem a cura milagrosa. Tudo bem?”

Érica demonstrou compreensão com um aceno.

*** *** ***

Durante a travessia de uma avenida das mais apinhadas de Windhoek, Nikole, que até então manejava com certo controle a prole, não conseguia fazer uma das crianças se mover. Impaciente, berrou o nome do filho, e sua voz se sobressaiu às buzinas, vozes e motores ruidosos. O garoto reagiu com agressividade atípica – abocanhou o braço da mãe decididamente, a ponto de espalhar algumas marcas de sangue na roupa dos dois. Foi logo correspondido com um murro violento na bochecha esquerda, e se acalmou. Nikole não teve tempo, no entanto, de fazer o mesmo ao restante das crianças. Apenas apreciava com desespero o espetáculo frenético de cinco pequenos meninos se arrebentando, atirando amostras de sangue estranhamente rosado sobre o asfalto cheio de marcas de recapeamento.

E o semáforo abriu e os carros buzinaram e Nikole não se moveu e os carros avançaram e as pessoas gritaram e os garotos morriam. E a mãe fugiu dos filhos.

Não tinha a noção de que muitas pessoas, em diversos lugares, viviam experiências notavelmente semelhantes.


Foto: Bruna Pimenta

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 38


Foto: Guilherme Carnaúba

por Tuma

Ernest Schrödinger morreu dormindo. Na terceira noite após a morte de Kaspar Hauser, ele subiu para seu quarto, deitou-se em sua cama e, após algumas horas de sono, morreu de velhice. Embora continuasse forte e esclarecido, o mordomo da família Nápoles já tinha mais de oitenta anos, e, se todos receberam muito tristes a notícia de sua morte, o fizeram sem nenhuma surpresa.

A faxineira chegou à casa pela manhã e, não encontrando o velho mordomo, foi até seu quarto chamá-lo. Como ele não respondesse, abriu a porta e deparou-se com o corpo serenamente estendido, frio e rígido, sobre a cama. Como é de praxe em situações do tipo, ela saiu gritando transtornada pela casa, e avisou a outros dos funcionários da família o que acontecera.

Já após o almoço, teve lugar o velório, que contou com a presença maciça dos mais ilustres moradores de Miranda. Todos vinham homenagear o mordomo, que desde que começara a trabalhar para os Nápoles, três gerações atrás, fora respeitado e admirado por sua inteligência e prontidão, sempre solícito e agradável, embora mantivesse sem cessar a expressão séria de que todos se lembravam bem.

Antonio, o órfão herdeiro, precisou tomar um calmante, e não pôde receber os que chegavam. Ferdinando, então, fez as vezes de anfitrião. Embora também aparentasse estar muito confuso e transtornado, recebeu a todos com palavras simples e breves.

Nesse dia, Ferdinando conheceu muitas das pessoas importantes da cidade. O chefe da polícia, Álvaro Tomasini, veio acompanhado dos inspetores Fellwin e Spassky. Oliver Andronato, dono do teatro, também compareceu. Tito Heisenberg, o magnata, apareceu com alguns de seus funcionários pouco antes da procissão até o cemitério. Ferdinando não prestou muita atenção nele, mas alguns dos presentes poderiam jurar que o velho “chefe da cidade” não tirou os olhos do novo desmemoriado nem por um segundo.
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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 37


Foto: Bruna Pimenta

por Tuma

Silêncio: já não há mais o que dizer. Na mansão Nápoles, a morte de Kaspar Hauser causou reações diversas, mas silenciosas. Nenhum dos três moradores do lugar manifestou seus sentimentos a respeito em voz alta: eles só existiram na mente de cada um, sussurros tão inaudíveis que, pela própria existência, gritavam nos cômodos vazios.

Ferdinando se fechou em suas dúvidas. Ele tinha uma consciência vaga do que fizera, mas as lembranças do que acontecera na noite anterior ao assassinato permaneciam afogadas na névoa. Resolvido a organizar suas poucas memórias, seus muitos delírios e os ecos de seus atos que inundavam sua mente, adotou uma postura quase ascética de calar-se. Ernest, o único que vira Ferdinando naquela manhã do crime, tornara-se ainda mais quieto e sombrio. Nino, um pouco assustado pela perda repentina daquela figura que sempre ilustrara sua vida em Miranda, embora nunca tivessem trocado uma palavra, também acabou enredado em um silêncio reflexivo.

E assim continuou por algum tempo após a morte de Kaspar Hauser, um pacto de silêncio só quebrado pelos depoimentos que os três deram à polícia. No terceiro dia depois do fim do mendigo, porém, aconteceu: o assunto voltou à vida, de modo repentino e conclusivo.

Ferdinando foi até a cozinha, buscar água, e encontrou Ernest ali. O mordomo, de cócoras na porta, fazia carinho no pescoço de um gato preto gordo, como se o gato fosse seu. Ferdinando não se lembrava de ouvir que Ernest tivesse um gato, e durante alguns segundos ficou parado surpreso tentando entender a cena. Antes que pudesse depreender algo, porém, o gato virou os olhos em sua direção, e Ferdinando viu. Gato preto gordo, de olhos profundos, cortantes, fatais. O gato de Kaspar Hauser.

Só então Ernest notou sua presença. Levantou-se com esforço e deixou o gato na soleira, para depois caminhar até um Ferdinando boquiaberto, sem reação.

- Ferdinando, eu já estou velho demais para segredos. – Suas palavras causaram em Ferdinando um sobressalto. Ernest falava com esforço, seu rosto denotava abatimento. Ele estava muito fraco. Ferdinando não respondeu.

- Eu vi você na sala anteontem, e percebi que estava perturbado. Sei que você saiu daqui com o punhal da família, e que só o devolveu quando pensava que ninguém estava olhando. Mas eu vi, Ferdinando, eu vi e eu sei. Eu sei que foi você quem matou Kaspar Hauser.

O Tolo tentou recuar para trás, sua consciência o mandou negar, mas ele não conseguiu articular nenhum som. Ernest agarrou seu braço, como sempre fazia, e o conduziu até uma cadeira. Depois, trouxe um copo d’água para ele.

- Sabe, sinto que posso compartilhar com você algo que nem o patrãozinho sabe... – por um instante minúsculo, quase imperceptível, o mordomo hesitou, mas continuou a falar. – Eu fui o primeiro desmemoriado de Miranda, Ferdinando. Muitos, muitos anos atrás, eu também estava nessa praça sem idéia de como chegara até ali. Morei junto à fonte por um certo tempo, até que a família Nápoles me acolheu. Eram os avós de Antonio. Fui um ótimo mordomo para eles, e para os filhos dele, e para os filhos dos filhos deles, mas foi só isso: nunca soube de onde eu vim, ou meu verdadeiro nome, ou como vim parar aqui.

Sem tirar os olhos do rosto antigo de Ernest, Ferdinando ouvia atento.

- Depois que o avô de Antonio morreu, apareceu um novo amnésico na cidade. Mas, ao contrário de mim, ele chegou aqui fazendo escândalo. Eu estava na rua, conversando com um amigo, quando o homem que você conheceu como Kaspar Hauser apareceu gritando ali na praça e pulou nas águas da fonte. Ele dizia que alguém havia roubado sua mente, e que ele precisava encontrar essa pessoa, e que todos precisavam ajudá-lo. Ninguém reagiu ao showzinho dele, mas eu o ajudei. O acalmei com palavras, o levei até a delegacia, e acompanhei sua vida de morador de rua sem posses nem memórias.

Ernest, que até então permanecera em pé, se sentou.

- A partir daquele dia descobri muitas coisas sobre Miranda, coisas que eu vou te dizer, porque de hoje em diante você vai precisar saber. – ele esticou o braço e mostrou três dedos para Ferdinando. Abaixou o primeiro. – Um: aqui, você recebe o nome que melhor se encaixa. Me chamaram de Ernest pela primeira vez porque parecia um nome trivial o suficiente para um mendigo sem memória, e quando precisei me registrar meu patrão sugeriu Schrödinger, em homenagem a um velho amigo dele com quem eu me parecia. Já o nome de Kaspar Hauser apareceu em sonho para ele um mês depois de ele chegar aqui. Até então o chamávamos de Tolo, por suas palavras muitas vezes desconjuntadas e sem sentido.

Abaixou o segundo dedo.

- Dois: essa cidade é uma porra de um antro para todo tipo de gente louca e criminosa. O que se vê em geral são casais adoráveis e pessoas sorridentes, mas o que está por trás disso tudo é infinitamente pior.

Abaixou o terceiro dedo, cerrando o punho.

- Três: se você quiser sobreviver aqui, e for um louco ou um criminoso, vai ter que fazer algum sacrifício. O gato ali, ele era meu, eu o comprei depois que comecei a trabalhar aqui. Quando Hauser apareceu, porém, eu senti que devia dá-lo a ele, e fiz isso. Eu sacrifiquei a minha posse dele para que um outro louco sem memória pudesse ter onde se apoiar. Quando os pais de Antonio foram assassinados, tive de sacrificar a punição dos culpados para preservar a vida dos filhos deles. Kaspar Hauser sacrificou o pouco de sanidade que lhe restava para preservar sua dignidade, quando... não, isso você não tem o direito de saber.

Ernest falava com raiva, expelindo as palavras como se as cuspisse, e Ferdinando o observava assustado.

- Ferdinando, eu sei que nós, os Sem-Memória, podemos por vezes fazer coisas que mesmo nós não entendemos. Por isso não vou questionar o que o levou a matar Kaspar Hauser. Mas nós dois teremos de fazer um sacrifício, nesse momento. Eu novamente sacrifico a posse do gato: agora ele é seu. E farei ainda mais um sacrifício sobre o qual você saberá em breve. Mas você, pobre Ferdinando, você sacrificará sua liberdade. A partir de hoje é seu dever permanecer ligado a Antonio e ao gato, cuidar deles. E é sua sina perceber toda vez que um sacrifício precisar ser feito, e não ter escolha senão fazê-lo.

O dia sumia debaixo do horizonte e entrava cada vez mais fraco pela janela. O gato observava os dois homens, desde não se sabe quando de pé e encarando um ao outro. Estavam em silêncio, mas o mais baixo e velho o quebrou.

- O resto, para nós dois, será silêncio. Já não há nada mais o que dizer. Ferdinando, adeus, deseje-me bons sonhos.

E assim, Ernest Schrödinger abandonou Ferdinando e a cozinha, sumindo com seu passo veloz em algum cômodo do grande casarão, enquanto seu gato, preto e gordo, mantinha os olhos em seu novo dono.
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 36


Foto: Bruna Pimenta

por Tuma

A morte do mais ilustre morador de rua de Miranda atraiu muitas atenções para a até então pacata praça Alonso Nápoles. Seu corpo foi descoberto boiando na fonte por um encanador caolho que acabara de sair da mansão Nápoles e logo uma multidão já se reunia para apreciar o espetáculo de sangue.

A polícia chegou não muito tempo depois, retirou o corpo e dispersou os curiosos. Que motivos teriam para matar o pobre Hauser?, pensavam todos. Muitos se lembravam dos desvarios ocasionais do mendigo, mas concordavam igualmente que ele não chegava à loucura, era só um pouco tolinho. O suicídio logo foi logo descartado.

Bingo Fellwin e Vladimir Spassky, os inspetores responsáveis pelo caso, passaram algumas semanas investigando o assassinato. De início interrogaram os moradores da praça e seus principais freqüentadores. Antonio Nápoles, o órfão, seu mordomo Ernest Schrödinger e o último desmemoriado a chegar à cidade, conhecido como Ferdinando, além dos habituais casais que por ali passeavam e outras famílias de respeito habitantes de outras moradias.

Todos afirmaram não saber de nada. A maioria estava dormindo ou sequer pensava em passar pela praça tão cedo, quando a névoa ainda a dominava. Antonio Nápoles dormia no horário, Ernest Schrödinger se encontrava ocupado com o encanador no intervalo de meia-hora em que, os legistas supunham, Kaspar Hauser morrera, e Ferdinando Sem-memória acordara cedo para escutar um pouco de música.

Alguns moradores de rua de outros setores da cidade também foram entrevistados. Alvin Quatro-Dedos afirmou que não via Kaspar Hauser há um mês, Mordred o Mudo fez gestos de que não sabia de nada enquanto tirava piolhos de sua barba enorme, e Taro o Oriental balbuciou algumas palavras misteriosas que ninguém pôde compreender.

No fim, ficou-se sem saber quem matara o pobre-diabo, e o caso foi esquecido. Só alguns se lembravam de que no passado um mendigo sem memória e seu gato silencioso haviam morado ali na fonte da praça Alonso Nápoles, dançando sob a chuva e prevendo o fim do mundo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Anti-Humor [7]

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAntes

ffffffffffffffffffffffffffffffffffffComo parecer “sério”

II - Aspecto Psico-social

1- Converta-se para todas as religiões existentes (não importa quão contraditórias). Isso demonstrará sua tolerância e compromisso, além de ser um bom início de conversa e identificação do outro com você. Ex:
-Você é cristão?
-Não.
-Judeu?
-Não.
-Budista?
-Não
...
-Faz sacrifícios quinzenas à Quetzalcoatl?
-Sim. Quer um pedaço do meu cachorro-quente?
minha saliva tem gosto artificial de sprite
2- Demonstre sempre seu conhecimento de outras áreas e culturas quando possível, para exibir sua dominância intelectual e fazer o diferente se sentir mais confortável e submisso a você. Ex:
-Ei, Hadji, escutei que você é paquistanês.
-Sim.
-Existem vários terroristas por lá.
-Obrigado. Quer um pedaço do meu cuscuz?

3- Se alguém perguntar, você é um Analista de Sistemas.

4- Apenas freqüente lojas que vendem ternos. Para incrementar sua reputação com os habitantes do shopping, escolha, de uma vitrine, um produto de luxo (como um cálice de prata) e, ocasionalmente, pressione de leve seu rosto contra o vidro e suspire: “Um dia... Um dia...”. Dependendo de sua persistência e do dono da loja isso poderá lhe descolar um objeto adulto de decoração de graça e reputação de sonhador sincero ou alguns telefonemas para o 190.

5- Freqüentemente associe as pessoas com as quais você mantém um diálogo com animais. Isso criará a idéia de um conhecimento vasto de uma subcultura além de colocá-lo em posição de poder e controle em relação ao seu “colega” inferior (para isso, associe-se a grandes nomes da Natureza, como o Leão, o Leopardo, o Lêmure, a Lituânia e o Louva-a-deus). Ex:
- Sim, eu aceito um pedaço. Sabe, Jorge, sua generosidade e perspicácia me lembra de uma Gazela.
-Obrigado.
-Eu sou um Leão. E você, uma Gazela.
-Obrigado.

6- Não importando o local em que você trabalha, mantenha um escritório (se você trabalha num quiosque, mantenha um subterrâneo em miniatura para não criar uma situação de competição entre empregador e empregado), composto por uma mesa cinza, uma cadeira com rodinhas, um computador, gavetas, papéis, lápis, e uma caneta de ponta de ferro do estilo que vaza no seu bolso se mantida neste em alta temperatura (evite fazer isso). É consenso de que, quanto mais objetos numa mesa de escritório, mais sério seu dono é. Para dar a necessitada “pimp-ada” na sua mesa, tome posse de objetos das outras mesas (se essas não existirem, monte-as você mesmo) e coloque-os em cima da sua. Se for questionado pelo motivo, atribua-o ao feng shui.

7- Para que você tenha sempre a última decisão nas situações, sempre leve seu filho junto de você em qualquer lugar. Sempre que você sentir que está perdendo o controle de alguma ocasião diga: “Ei, meu filho está perdendo a Escola para estar aqui*. Nós temos princípios em minha família”.Após isso, se a situação for um cachorro, você estará guiando-o-a pela coleira. No caso da ausência de tal filho, entre num relacionamento com uma mulher, solteira e com mais de 33 anos (mas não acima dos 50), mude-se para a casa/apartamento dela após dois anos e, no terceiro, peça-a em casamento. Crie um trauma de infância, envolvendo mal relacionamento com seus pais, para que ela se identifique com o seu problema (caso isso não ocorra, distorça a verdade para que ela passe a odiar seus respectivos pais) e então proponha a concepção de uma vida pra cimentar esse buraco psicológico em suas vidas. Agora é a hora de espalhar sua semente/leite masculino/shampoo divino/g***/p****/iogurte natural. Espere nove meses (isso pode ser encurtado se você injetá-la com adrenalina toda noite após o 7º mês). Após o nascimento de seu filho, a presença da mulher já é facultativa e está em suas mãos (mas antes não se esqueça de checar se é um filho, em caso negativo, tente de novo). Lembre-se de fazer um acordo pré-nupcial engenhoso. Mais informações estão no guia “Como Envolver-se com uma Mulher Baseado Solenemente no Propósito de Utilizá-la para ter um Filho”.
*De acordo com as probabilidades, ao menos 1/4 do tempo você não estará mentindo

8- Não leia nenhum daqueles “guias” de “alcance sua meta rapidamente em apenas alguns passos”. Eles apenas exploram você e suas fraquezas e necessidades e se mostram pouco eficientes e até danosos às suas ambições.

9- O “sério” só existe devido ao “não-sério”. Portanto, para que você consiga criar no outro o contraste entre os dois, permita-se pequenos momentos de distração. Tente citar frases cômicas da TV, de efeito certo, no meio de conversas, para criar um momento de comicidade entre o seu grupo. O livro “Citações de Humor, de Pato Donald a Patolino” é recomendado.Ex:
-E o chefe veio até aqui sem perceber! Hahaha.
-Hahaha.
-Hahaha.
-Hahaha.
-Escutem essa então: “Não, ele está mentwindo! É tempworada de caça de cowelhos”.Atire nele!”
-Hahaha. Obrigado.
-Hahaha. Obrigado
-Quer um pedaço do meu pastel?

10- Diga a frase isca: “Irei deixar esse meu rolo de dinheiro perfeito para investimentos ao lado do abajur” e, em seguida, vá ao banheiro com a folha de economia do jornal local e uma caneta. Quando voltar diga as outras duas frases chave: “Nossa, não há como falhar nessas ações que eu circulei na pagina 2” e “Ops, eu derrubei meu celular no chão, ao lado do jornal e do bolo de dinheiro perto do abajur enquanto estava ligando para meu corretor. Que pena, melhor ir no shopping comprar outro.” Pelos três meses seguintes, tente suspirar levemente e alternadamente as palavras “compra” e “vende” quando estiver em casa, na sala. Logo você estará livre de seus problemas de ratos, que agora ou estarão numa casa maior ou perderão tudo o que tinham.

11- Tente psicologia reversa: através de documentos da casa, convença o rato de que ele é o dono do lugar, e que você é uma praga morando num grande buraco em sua parede, e deixe que a consciência e a ética façam o resto. (Atenção: você pode vir a ser vítima de uma humanoeira gigante)

sssssssssssssssssssssssssssssssssssssDepois
fffffffffff((Atenção: As mudanças na qualidade da carreira dele não estão associadas ao tratamento)

dddddddddddddddddddddddddddddd- - -

* Um pequeno pensamento:De acordo com a História, o Sanduíche foi popularizado (senão inventado) pelo Conde Do Sanduíche (leia mais em http://en.wikipedia.org/wiki/John_Montagu,_4th_Earl_of_Sandwich). Agora, muitos dos descrentes dirão que isso é uma mera coincidência, mas, se um pouco de perspectivismo histórico for permitdo, essa não seria uma prova do Destino?
por Rodrigo Faustini

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Noite sem estrelas, uma lenda. (2/2)

Foto por Bruna Pimenta.
por Stefano Manzolli.

três de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

O jantar fôra apressiado com espanto, por causa da fartura, e apressadamente, pois as crianças, aqui não incluo Suri, aguardavam anciosamente pela história de terror. Um pouco menos tímidos, Marylane e Harry responderam perguntas e contaram um pouco de suas vidas. Ao término da refeição, um criado levou os pratos para cozinha e Helena Dawis, a nenem para passear pelos cômodos da casa.
Façamos um comentário à parte: quando Sir Dawis chegou à casa com os novos-filhos, Helena havia preparado (sozinha!) cookies tradicionais e um delicioso chocolate-quente. Para as crianças, foi mais fácil adaptar-se com a receptividade sorridente dela, do que com o ar sarcástico e sombrio do pai.
- Doroty, peça aos criados que acendam a lareira. - disse pacientemente Sir Dawis para a governanta de aparência ríspida.
- Sim, senhor. - respondeu, enquanto retirava-se da sala de jantar.
-Desculpe, crianças, com esse frio é melhor ficar dentro de casa.

cinco de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

A festa estava maravilhosa.
Mr. e Ms. Chester à porta, junto de outro casal de anfitriões, recebiam os convidados, nobres da sociedade britânica, que enchiam o grande salão do London Royal Club aos poucos. Cada senhora trajava seu mais lindo vestido de baile; seus maridos pareciam todos iguais: paletó preto com cauda bi partida, gravata borboleta branca e camisa de colarinho alto com as pontas viradas. Para um leigo, pouca diferença havia no vestuário dos garçons e dos cidadãos mais ricos de Londres.
Ao longe, um pequeno grupo musical de câmara interpretava sonatas, fazendo um agradável fundo musical. Os canapés de camarão estavam um pouco ressecados, mas nada que um bom champanhe não resolvesse.
"Saber que boa parte do dinheiro arrecadado nessa noite vai pro meu bolso, me deixa ainda mais feliz!", pensou Rose Chester entre um abraço e outro.
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quatro de dezembro de mil novecentos e dezesseis.
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- Não feche os olhos, Marylane! Aproveite ao máximo o passeio!
- Mas... não sei se eu quero passear, está tarde. - retrucou a menina, um pouco apavorada.
- Olhe para o céu, é uma noite serena!
- É uma noite linda, eu sei - sussurou Harry, tentando esquecer a história.
- Eu sabia que não devia ter contado aquela lenda para vocês...
três de dezembro de mil novecentos e dezesseis.
"Crianças, espero que vocês estejam preparadas para uma das mais horripilantes histórias de todo o território europeu. A lenda da noite sem estrelas!".
"Aconteceu anos atrás, numa tarde escura de inverno, enquanto os pássaros negros voltavam para seus ninhos. O vento uivava ao passar pelas árvores e arrancava algumas folhas secas que ainda insistiam em ficar presas aos galhos. No céu, não havia estrelas, como se houvessem jogado tinta azul escura sobre todos os astros -nem lua havia-, era um céu típico de dia de chuva".
"Começavam a cair os primeiros flocos de neve, enquanto Jasmine, uma linda mulher de cabelos cacheados, voltava sozinha para casa - depois de passar horas visitando um tio velho. Ela adorava observar o início das nevascas, quando os pequenos fragmentos de água congelada aquietavam-se sobre seus ombros, mansamente".
"Seria um início de noite maravilhoso, se não fosse por uma miragem cruel. Numa das linda árvores, na estrada de volta, a mulher interpretou a tragédia em duas partes. Primeiro, ao ver metade de um monomotor presa aos galhos, sentiu náuseas e uma vontade imensa de rezar. Depois, ao olhar para o chão, deparou-se com a pior de todas as cenas: a parte da frente do monomotor toda estraçalhada; no meio do aço retorcido, o corpo do piloto meio com vida, meio sem vida - a hélice frontal rompia-lhe o peito. Frente a isso, seu instinto foi correr para ajudar".
"Na manhã seguinte, a polícia encontrou o avião destruído e no meio, entre as ferragens, o cheiro forte de sangue e um ar pesado de morte, o corpo nu de Jasmine. Em sua boca aberta, de desespero, depositaram-se inúmeros flocos de neve e, pelo reflexo da pouca luz daquele dia, pareciam muitas estrelas (as quais não brilhavam na noite anterior). Nunca encontraram vestígios do piloto".

"Desde então, o parque onde tudo isso aconteceu é chamado de Jasmine's Garden e todos tem medo de relembrar a fatídica história".

Silêncio assustador.
Marylane foi a primeira a dar risadas, depois Harry a acompanhou.
- Quer dizer que tudo isso aconteceu no parque que fica aqui perto de casa? - disse a menina.
- Claro, por que você acha que há um monumento em forma de avião lá?

Silêncio intrigante.

- Nos leve até lá, quero ver essa árvore! - Harry, apesar de um pouco amedrontado, queria parecer extremamente corajoso - Amanhã, quando estiver escurecendo, nós iremos. Você, Marylane, se estiver com medo, não precisa vir...
- Fica quieto! Eu sou mais velha, não me assusto com esse tipo de coisa - retrucou, mesmo estando com uma sensação estranha de fragilidade.

quatro de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

O percurso até o parque pareceu um passeio como outro qualquer. Depois de uma noite inteira de pesadelos, Harry e Marylane estavam mais confiantes quanto à travessia do parque.

- Sabe, meninos... a história, que eu contei ontem, é verídica: aconteceu meses depois que eu cheguei de Nottingam para morar em Londres... a lenda é outra, talvez bastante assustadora. Dizem que órfãos, quando passeiam por dentro do bosque, em noites sem estrelas, desaparecem.
Se pudéssemos escutar, acharíamos os três corações batendo mais forte.
- Mas... não há o que se preocupar, não passa de uma lenda boba! - Harry não estava tão confiante, como suas palavras demonstravam
- E mesmo que houvesse alguma coisa, eu protegeria vocês, meus pequenos. - George tentou encontrar algum instinto paterno.

Era uma noite sem estrelas.

cinco de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

O leilão de quadros, após o jantar de gala, estava rendendo mais lucros que Mr. Chester imaginava. Daria para fazer uma reforma no orfanato e embolsar todo o dinheiro do Sir Dawis, sem que notassem a trapaça.

Um garçom, de corpo esguio e cavanhaque bem feito, repousou sobre a mesa do casal Chester um bilhete - era de Helena Dawis e a marca de lágrimas eram evidentes no papel. Rosa, que já havia notado a falta dela e do marido, apressou-se em ler.

"Caros Chester,

Aconteceu uma coisa terrível! Assim que puderem, venham falar comigo - não sei se tenho condições de criar Suri sozinha...

Com amor,
Helena."

seis de dezembro de mil oitocentos e oitenta e quatro.

O pequeno Richard Stolen, depois de nove meses de seu nascimento, foi adotado pelo Conde Campbell Dawis e sua esposa, Condessa Nancy Dawis.
- Daqui pra frente, - disse Nancy para o novo filho - será chamado de George Dawis e jamais saberá que, um dia, foi orfão.



FIM.

Através do espelho obscuro, capítulo 35


Foto: Guilherme Carnaúba

por Tuma

A névoa pesada impedia que se visse muito a frente. Ferdinando passeava muito lentamente, tomando cuidado para não escorregar no chão úmido. Caminhava, porém, com decisão. Sabia exatamente a direção que deveria tomar.

A névoa se abria aos poucos, e permitia uma visão fantasmagórica da praça Alonso Nápoles. Estava vazia, nenhum bicho, nenhum homem, ninguém fazia sua jornada diária por ali. Só o que havia era a fonte, majestosa surgindo no meio dos ladrilhos. E, sobre ela, dois seres de matéria, embora Ferdinando não estivesse certo de que eles tinham alma.

Kaspar Hauser e seu gato estavam sentados silenciosos sobre a borda da fonte. Hauser se inclinava sobre a água e deixava seus dedos nadarem por ali, mas seus movimentos eram quase imperceptíveis. Do seu lado, destacando-se do ambiente monocromático, algumas cartas se espalhavam, perigosamente balançando sobre a água.

Ferdinando colocou as duas mãos para trás, escondendo o punhal, e chegou perto do mendigo. Kaspar Hauser virou-se imediatamente, assustado, mas ao ver quem chegara tornou a olhar para a água. Sussurrou algo, que Ferdinando não entendeu e o fez se aproximar. Hauser repetiu.

- As manhãs são tão tristes. – sua voz era quase inaudível. – me fazem lembrar dos jardins de Ansbach...

As mãos de Ferdinando tremiam. A voz do mendigo o paralisava. Aqueles sussurros que escapavam pela boca de Kaspar Hauser impediam qualquer movimento dele. Ele gemeu, e chamou novamente a atenção de Hauser. O mendigo o olhou de cima abaixo e pigarreou, tornando a falar.

- Toda essa névoa, eu a vejo o tempo todo, mas me alegro, porque chegará a noite e talvez tudo deixe de ser. Mas volta a manhã e com ela a consciência, e sou obrigado a lembrar que isso não passará jamais.

Agora, os músculos de Ferdinando já estavam mais relaxados. Aquela paralisia que experimentara alguns momentos antes já se esvaía, e ele podia voltar a respirar normalmente. Kaspar Hauser ainda o encarava. Mas virou o rosto para as cartas que dormiam sobre a borda da fonte, e passou a mão sobre elas, acariciando-as.

- Esses pedaços de papel querem revelar o mistério do mundo – disse, um pouco mais alto que da última vez –, mas eles não podem. Nada pode. Não se pode revelar o mistério da vida, ou desvelar a essência das coisas, ou iluminar o rosto do homem atrás das cortinas. Não se pode fazê-lo, pois não há nenhuma dessas coisas. Não há mistério algum, nem na vida, nem nas histórias, nem em nada. E tudo o que acontece com os homens é um acaso sombrio...

Com um movimento ríspido, o mendigo joga as cartas na água, todas elas, e observa elas se desmancharem lentamente, e afundarem.

- Não há mistério algum...

Ferdinando, já totalmente liberto da paralisia, chega ainda mais perto de Kaspar Hauser, com uma expressão indecifrável. O gato olha para ele assustado, e Hauser se vira lentamente. Ferdinando empurra a cabeça do mendigo com a mão livre, e ele cai na água. Os olhos de Hauser se esbugalham, surpresos, sem entender, e seus lábios tremem. Ferdinando levanta o punhal, e, sem hesitação, o enterra no peito do caído. A esse gesto, os olhos do mendigo se acalmam, e se fecham, e um sorriso leve surge em seu rosto, e ele afunda na água misturada com sangue e cartas de tarô que já toma a fonte toda.

Ferdinando observa aquela figura, e se surpreende. O gato o encara com olhos brilhantes e inquisidores, fatais, e Ferdinando corre e desaparece na névoa.

Mas já não há mais com o que se preocupar. Kaspar Hauser está morto.
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Criação (Robôs)

Texto por anônimo Rodrigo Faustini, pintura por Incógnito com talento que não tive paciência de encontrar o nome


-Olha, eu fiz com que ele expelisse água ao redor de seus olhos.- disse o proprietário das mãos gélidas e metálicas que haviam acabado de esmagar a mãe do garoto, enquanto esse nada podia fazer para impedir o que, como seus olhos e mente o diziam, era um ataque divino de ira.

- Ele está chorando. Nós não podemos chorar. Ele está triste. Não podemos ficar tristes.

-E por quê chora? A outra não era ele. Por isso era a outra. Ele pode comer, amar, dormir, transar até morrer.

-Nós não podemos comer. Não podemos amar ou dormir. Não podemos transar... Não podemos morrer.

Eles continuaram a observar o desespero do garoto sem se moverem. O corpo de sua mãe se decompôs, e deu lugar a flores. Anos depois, ele dormia, amava, transava e comia sem grande sinal do que havia acontecido. E então ele morreu. Havia outros. Eles tinham criado-os a partir da carne que crescia do solo, dos ossos das árvores, das almas que voavam junto do vento e das idéias que constituíam as nuvens, para nunca entendê-los. Eles continuaram a criar, pois essa era sua função. A criação continuou a viver, sem função, mas feliz.

Porém, por uma noite apenas, dividiram o mesmo sonho. A criação dormia aconchegada, enquanto os criadores tinham suas mentes invadidas por aquelas mesmas imagens, podendo apenas interpretá-las como reais. Talvez fossem, em espaços diferentes.

O sangue quente fluía pelas veias rodeadas de carne e pele, aquecendo o antes gélido metal que os envolvia. Não com força, pois não era necessário. Não com paixão, pois não a tinha. Mas com delicadeza, enquanto(criador e criação) caminhavam pelo ar, numa busca pelo nada, apenas prolongando o calor do momento. Talvez seus circuitos derretessem, moldando a criação (assim como fazia a cera quente que esses haviam criado, por sua vez). E seriam apenas um.

Acordaram...sem nunca terem dormido.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 34

Shade and Darkness - the Evening of the Deluge, J.M.W. Turner

por Tuma

No dia seguinte, Ferdinando acordou cedo. Sentia que tivera uma noite conturbada, de sonhos ruins, mas não se lembrava direito de nada. O casarão estava vazio e silencioso, ele desceu as escadas, pé ante pé para não acordar ninguém, e foi direto para a sala. Assustou-se ao encontrar um desconhecido parado ao lado da porta.

Era um homem quase totalmente careca, com cabelos ralos ao redor da cabeça. Vestia um macacão cinza e levava uma maleta nas mãos. Seu nariz era grande, e Ferdinando teve a impressão de que o olho esquerdo dele era de vidro. Ficaram se encarando, espantados, sem falar, até que Ernest apareceu e encontrou os dois naquela posição.

O mordomo riu-se e disse a Ferdinando ser aquele o encanador, que viera arrumar um problema na pia da cozinha. Os dois saíram e deixaram Ferdinando sozinho, somente os acompanhando com os olhos. O recém-desperto, quando a dupla já desaparecera de seu campo de visão, voltou os olhos para a sala e começou a examinar as paredes.

O aposento era ricamente decorado e mobiliado. Sofás, divãs, poltronas. Mesas de chá, escrivaninhas, cômodas. E, nas paredes, as mais diversas peças de arte. Pinturas de paisagens, retratos, cenas históricas ou mitológicas. Havia de tudo. Dois quadros, em especial, chamaram a atenção de Ferdinando. Um deles mostrava um grande borrão negro sobre algo que parecia ser o mar. O outro, mais misterioso, retratava um homem, aparentemente um pastor, guardando uma mulher e seu bebê do lado de fora de uma cidade em ruínas que esperava por uma violenta tempestade. Ferdinando admirou esses quadros durante algum tempo, mas a luz do sol que entrava pela janela refletiu em um objeto diretamente para dentro de seus olhos e desviou sua atenção.

O objeto que refletira o sol estava logo acima da porta de entrada. Ferdinando, do chão, foi subindo os olhos e acompanhando os traçados da matéria: a maçaneta, os umbrais, a parede, um brasão da família Nápoles... e, elegante e discreto, um punhal. Levado por um impulso que não conseguia interpretar, Ferdinando subiu na cômoda adjacente à entrada e alcançou o punhal. Ele era pesado, mas belíssimo. O cabo era vermelho e sustentava firme uma lâmina sinuosa e brilhante. Ferdinando testou o fio da arma em seu dedo, e viu que ele estava intacto.

Enquanto admirava aquela peça tão bem engendrada, algo revolveu em sua mente. Era um pensamento que borbulhava, um sentimento que preenchia suas veias com uma eletricidade oculta. Levado por esse movimento interior, Ferdinando, ainda olhando para o punhal, esticou o braço, girou a maçaneta, abriu a porta e saiu do casarão para a manhã enevoada.

A Tempestade, Giorgione
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Noite sem estrelas, uma lenda. (1/2)

(Rose Chester, à epoca dos acontecimentos).
Foto por Bruna Pimenta



por Stefano Manzolli


três de dezembro de mil novecentos e dezesseis.

Camile, a cozinheira de ancas fartas, estava afoita com o comunicado que acabara de receber: dali quatro horas, um nobre inglês iria almoçar com Rose e seu marido, Mr. Chester - a fim de tratarem de uma reforma no orfanato e de três adoções ("Três, três, três adoções! Imaginem isso!", gritava Ms. Chester pelos corredores). Nessa época, por escassez de concorrência, muitos procuravam os serviços do orfanato Casa Rose Chester.

Como muitas mulheres ricas, para não perderem suas cinturas magérrimas, adotavam crianças, Mr. Chester passava horas de seu dia andando nas ruas inglesas, procurando os órfãos mais bonitos - branquelos, de olhos azuis e cabelos loiros, se fosse possível. Ele sabia, assim como todo mundo, que ter filhos parecidas com polacos estava na moda; por isso, esse tipo de criança valia mais. Se Mr. e Ms. Chester queriam estar entre os melhores do ramo da adoção, deveriam ter os melhores produtos.

Outra coisa que todo mundo sabia, mas a polícia não conseguia (ou não queria) provar, era que os orfanatos ganhavam comissão por cabeça adotada. Essa informação corria de boca em boca, mão em mão, mas nenhum cidadão tinha coragem de (e nem podia) averiguar os fatos.

Naquela manhã, pouco antes do Sir Dawis chegar, Eliot encontrou a mais bela de todas as órfãs do território britânico, quiçá europeu: pele clara, bochechas rosadas e grandes, olhos azuis (pálidos de tão azuis), cabelos ruivos cacheados à altura dos ombros, dentes amarelados, porém totalmente alinhados, pequena, frágil e com um pouco de sotaque irlandês. Estava sozinha, sentada na calçada, perto de uma barraca de feira, observando as maçãs empilhadas - havia fome estampada em sua testa e um ronco estranho de barriga pairando no ar.

- Menina, cadê seus pais? - indagou o velho homem de barriga arredondada e barba muito bem feita.
- Hum... hã... meus pais morreram, senhor.
- Qual o seu nome?
- Marylane, senhor.

Após contar-lhe maravilhas sobre o orfanato e explicar detalhadamente as quatro refeições diárias, a pobre menina não achou forma de recusar ao convite de juntar-se aos outros órfãos da Casa Rose Chester.

Durante o caminho de ida, mãos dadas a Eliot e milhares de histórias, contou-lhe parcialmente sua vida sofrida, a perda dos pais (assassinados por causa de dívidas), o fascínio por histórias de terror, a vontade de participar do grupo de teatro municipal e a saudade de comer almôndegas.

Durante o almoço com George Dawis, Mr. e Ms. Chester souberam medir suas palavras, falando pouco e objetivamente sobre os projetos de caridade e as expectativas de aumento do prédio do orfanato para o ano de 1917.

Enquanto isso, Marylane, que não conhecia nenhuma outra criança, sentada perto da parede, cantava uma antiga canção de ninar. Apesar da retórica bem ensaiada, Sir Dawis não prestou muitíssima atenção no casal simpaticamente bem vestido, pois não conseguia desviar os olhos da garotinha.

- Por mim - disse George - tanto faz. A reforma do prédio será paga por mim... quanto às crianças, já estão escolhidas. Quero aquele loirinho, com sardas; aquela nenem de pernas gorduchas e olhos azuis; e aquela ruivinha ali - apontou para a direção de Marylane -, a mais afinada de todas as meninas inglesas... quando podem ir para casa?
- Muito obrigado pelo apoio, Sir Dawis - afoita, Rose saiu falando em um tom de voz exagerado -, faremos o nosso melhor para honrar o seu patrocínio! - diminuiu a voz ao tom de um sussurro - As adoções... precisam... hã... é, por que sua esposa não veio com o senhor?
- Ela vinha, mas sua mãe está doente... bom, mas se vocês acham que estou mentindo, posso procurar outro orfana...
- De maneira alguma! Sabemos de sua vida privada e pública, era apenas curiosidade. Enfim, as crianças serão suas após o acerto de... hum... das... contas, entende?
- Perfeitamente - respondeu -, pago agora.
- Mas...
- Pago o dobro, se for necessário.

Intervalo silenciosamente apreensivo.

- Feito, camarada. - sorriu Eliot, assim que terminou de deglutir o último pedaço de seu pernil de carneiro (sem perceber que havia um fiapo grosso de carne entre seus dentes). - Quase esqueço de lhe convidar! No final de semana, senhor George, faremos um jantar filantrópico, e seria uma honra tê-lo entre nossos convidados.
- Seria um prazer imenso.

Depois de horas conversando sobre a Primeira Guerra Mundial, as crises britânicas e todas as óperas que entrariam em cartaz em Londres, o Big Ben badalou cinco horas - estava na hora de fecharem negócios. Enquanto assinavam papéis e tomavam o famoso chá com leite, Sir Dawis teve o primeiro contato com os três orfãos escolhidos, os quais aceitaram calados a decisão de serem, praticamente, comprados pelo burguês estéril.

- Digam adeus à Casa Rose Chester e um caloroso olá ao novo pai de vocês, George.

Não houve resposta, e assim passaram todo o caminho de volta para a grande casa dos Dawis: calados, apreensivos pelo futuro em família - nenhuma das crianças lembrava, com certeza, o que era uma família. As ruas pareciam ser eternas e o sol punha-se entre as grandes árvores.

- Conta uma história pra gente? - Marylane, a única que sabia quão ruim era viver em silêncio e sem ter com quem conversar, tentou quebrar a falta de comunicação entre eles.
- Que tipo de história vocês gostariam de escutar?
- Daquelas que dão medo! - Harry, o garoto loiro com sardas, berrou estridentemente.
- Isso mesmo! Conte uma história de terror! - Marylane concordou com seu novo irmão e pôde perceber que, caso não estivesse enganada, seriam grandes amigos. "Pelo menos gostamos do mesmo tipo de história!", refletiu.
- Já estamos chegando em casa... mas depois do jantar vamos acender uma fogueira no quintal e eu vou contar para vocês uma lenda fascinante...
Os três pares de olhos o observavam (até a pequena Suri, que não entendia o que estavam falando, ficou assustada com a expressão diabólica feita por George para falar o nome do causo).
- A lenda da noite sem estrelas...


segunda parte? clique aqui

Através do espelho obscuro, capítulo 33


Foto: Guilherme Carnaúba

por Tuma

De onde estava, Ferdinando creu ter visto o homem sorrir. Um silêncio curioso tomou conta do quarto, momentaneamente, até que o estranho voltasse a falar:

- Três coisas: – ele respondeu – água, névoa, e um punhal.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 32


Foto: Guilherme Carnaúba

por Tuma

Ferdinando, assumindo ao mesmo tempo a postura tradicional dos dormentes que encontram alguém em seu quarto à noite e dos desmemoriados que encontram alguém de seu passado a qualquer hora, começou a despejar sobre o estranho uma torrente de perguntas desesperadas – quem eu sou quem é você qual o meu nome qual o seu nome o que aconteceu comigo de onde você me conhece o que está acontecendo? -, mas ele permaneceu em silêncio.

Ferdinando adiantou-se na cama, aproximando-se do homem e prestes a saltar para o chão e ir agarrá-lo, mas o caolho ergueu uma das mãos e o impediu:

- Pare. Não temos tempo para esse tipo de bobagem. Quem eu e você somos agora não importa.

Ferdinando, boquiaberto, o encarava descrente.

- O que é realmente importante aqui – continuou o estranho – é que você faça a pergunta certa, para que, assim, eu possa dar a resposta certa a você.

Ferdinando já não sabia mais o que dizer ou como agir. Sentia-se compelido a tirar à força do estranho as respostas que queria, mas o modo de falar daquele vulto de tapa-olho era bem eficaz em convencê-lo de que talvez aquelas não fossem as respostas de que precisava.

Confuso, Ferdinando sentiu passarem por sua mente todos os momentos que vivera desde que acordara do acidente dois dias atrás. O esforço para sair do carro, a longa jornada dia afora, a chegada em Miranda, o encontro com Kaspar Hauser, o desmaio, a descoberta em Nino de um protetor, o recebimento de um novo nome, o depoimento para os inspetores, a história do The Sandmen, a conversa com Ernest, o passeio pela cidade, o encontro com Kaspar Hauser... à medida que as imagens passavam diante de seus olhos, Ferdinando parecia entender que tudo que acontecera com ele até então estava interligado, conectado por um único fio.

Um último lampejo espocou em sua consciência, e ele pôde compreender por completo. Agora, tudo se descortinava: todos os significados, todos os motivos. Confiante, assim, de que encontrara a pergunta certa, aquela que daria a resposta para o torvelinho em que sua mente afundava, Ferdinando olhou diretamente para o rosto do estranho e, sem pressa, proferiu a pergunta encantada:

- O que é preciso para matar um mendigo sem coração?
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Através do espelho obscuro, capítulo 31


Foto: Bruna Pimenta

por Tuma

Ernest, que passava pela sala, correu para ajudar Ferdinando a se levantar. Percebeu, porém, que o homem havia desmaiado. Deu alguns tapinhas em seu rosto e ele logo acordou. Ernest perguntou se estava bem, e Ferdinando respondeu que sim. Sim, ele estava muito bem. O mordomo foi buscar água e quando voltava com a jarra e um copo Nino apareceu e perguntou o que acontecera.

Ao ouvir a resposta, ficou um pouco transtornado - Eu não deveria ter deixado ele sozinho, é minha culpa - e perguntou a Ferdinando se ele estava realmente bem agora. Ferdinando confirmou que fora só uma tontura e que se sentia perfeitamente bem, mas dentro de si ele sabia que aquilo não era verdade.

Tomou uma refeição muito leve logo depois, e um banho rápido e econômico. Então, despediu-se de Ernest e de Nino e foi para o quarto que seu anfitrião – Nino preferia que o tratasse por irmão – arranjara para ele.

Já na cama, Ferdinando ficou se revirando, tentando entender o que acontecera na praça. Kaspar Hauser o irritara, isso é certo, mas ele não compreendia como pudera quase estrangulá-lo. Sentia-se como se alguma força exterior a ele houvesse adquirido o controle naquele momento, mas acabou rindo-se dessa idéia amalucada e logo adormeceu.

Após um longo tempo de sono que não soube precisar, Ferdinando acordou num pulo. Sentou-se na cama, acendeu o abajur, e assustou-se ao perceber que havia um homem sentado no canto de seu quarto. Numa fração de segundo, sua aparência – tapa-olho no esquerdo terno marrom surrado gravata semi-calvície rosto nas sombras – foi assimilada pela mente de Ferdinando, antes que este fizesse a clássica pergunta

- Quem é você?

...E o outro, curvando o corpo para dentro do alcance da luz respondesse:

- Eu sou um homem do seu passado, eu preciso falar com você.
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